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Terror//Insurgência

 

O Papa e o Professor

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, setembro 2006.

RATZINGER: Lectio Magistralis



O papa Bento XVI passou seis dias na Baviera, sua terra natal. Durante a viagem, em duas ocasiões distintas, ele avançou o sinal da prudência, para a alegria dos líderes do terrorismo internacional e a preocupação dos moderados islâmicos.

Pouco antes das imprudências e de a Al-Qaeda prometer atacar Roma pelo simbolismo que ela representa, uma pesquisa, cotejados os anos de 2005 e 2006, concluiu ter crescido de 58% para 66% o porcentual de europeus que consideram aumentados os riscos de ataques terroristas.

Os bombeiros do Vaticano, a União Européia, intelectuais católicos e o cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho para o Diálogo Inter-religioso, procuraram socorrer o papa, principalmente em relação à bola fora na Universidade de Regensburg, toda engalanada para ouvir do pontífice uma lectio magistralis.

No particular, o próprio papa declarou-se amargurado (“sono rammaricato”) em desabafo, urbi et orbi, da janela da residência de verão de Castel Gandolfo. Enquanto isso, a rede televisiva Al-Jazzira, do Catar, exibia vinhetas contundentes. Numa delas, aparece Wojtyla soltando uma pomba da paz e Ratzinger matando-a com tiros de espingarda.

Para muitos dos bombeiros vaticanos, uma frase, referente a mencionado texto medieval do imperador bizantino Manuel II, da dinastia dos Paleólogos, acabou retirada do contexto para fim de instrumentalização, por parte de predicadores do ódio. Esse tipo de argumento conduz a Joseph Fouché, ministro da polícia política de Napoleão e inspirador da CIA, KGB, Gestapo, SNI etc. Certa vez, Fouché revelou sua estatura moral: “Me passem um escrito de qualquer pessoa e vos asseguro que, isolada uma frase do contexto, estarei em condições de mandá-la ao patíbulo”.

Outros apagadores de incêndio optaram pela ginástica mental de apartar o professor Ratzinger do papa Bento XVI. O professor, para eles, apenas fizera uma exposição em universidade onde havia envergado a toga negra de catedrático. O papa, com a talar branca, procurara recuperar o rebanho.

Quer feitos como Bento XVI ou Ratzinger, os dois pronunciamentos foram infelizes. Na menos polêmica das manifestações, Bento XVI alertou estar a cultura ocidental a desprezar Deus e a zombar do sacro, fenômeno que chamou de “drástico iluminismo laico”, causador do aumento de ateus e agnósticos.

Ao admitir a zombaria ao sagrado, o papa abriu caminho para os extremistas ressuscitarem o episódio das charges ofensivas a Maomé, publicadas no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em 30 de setembro de 2005. Segundo radicais islâmicos, o papa deu razão a Youssef Qaradawi, líder espiritual da eversiva Irmandade Muçulmana, sediada no Egito.

Para Qaradawi, “os dinamarqueses e os seus semelhantes não são nem cristãos nem gente da Bíblia. A maioria deles está sem Deus. A religião deles é recorrer ao prazer sexual e desenvolver uma vida de pecados, a começar pelo vício do homossexualismo”.

Na universidade, Ratzinger passou a impressão de estar aderindo ao sustentado pelo supracitado imperador bizantino. E de um pontífice esperava-se redobrada cautela, em especial pelas circunstâncias: cinco anos da tragédia do 11 de Setembro, bloqueio da ajuda econômica aos palestinos que elegeram o Hamas, ataques terroristas da Al-Qaeda à embaixada dos EUA em Damasco e a chegada recente da Unifil II ao sul do Líbano, para se estabelecer como força de interposição entre Israel e o Hezbollah.

As explicações do papa de que fazia um convite ao diálogo e não uma crítica ao islamismo jamais convencerão os Ahmadinejads e os Zawahiris da vida. Aliás, e quanto ao grau de intolerância deles, serve de comparativo o assassinato ocorrido no domingo 17, em Mogadiscio (Somália). A freira Leonella (de nome secular Rosa Sgorbati) foi metralhada por cinco terroristas. Ela trabalhava como voluntária no hospital SOS Crianças, mantido por benemerência austríaca.

Com efeito, o papa Ratzinger esqueceu que vivemos tempos outros e de muitas tensões. Ao contrário do que se propala, não se trata de conflito de civilizações, mas de religiões. Religiões de uma mesma raiz, semelhantes e ambas em conflito por se considerarem únicas depositárias da verdade.

Diante desses episódios, vale recordar o escritor e pensador italiano Vittorio Messori, nascido em 1941 e aluno fiel de Norberto Bobbio: “Os cristãos da minha geração passaram grande parte da vida em oposição àqueles que não acreditavam em Deus, ou seja, os comunistas. Agora, o problema ocorre com os que crêem em um Deus e nele acreditam muito. Acrescente-se a Messori: La illah illa Allah, Muhammadun rasul Allah (Existe apenas um Deus e Maomé é o seu profeta).


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