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Terror//Insurgência

 

TERROR: A recaída de Kadafi.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Fatos desta e da semana passada mostraram que no ditador líbio Muammar al Kadafi – principal sponsor e fautor do terrorismo internacional nos anos 70 e 80 – encaixa-se o provérbio lusitano que diz que “o lobo perde o pêlo, mas não o vezo”.

No fim de 2004 e curso de 2005, Kadafi surpreendeu ao anunciar a suspensão do programa de produção de armas de destruição em massa e a renúncia ao terrorismo de Estado, que espalhou pelo planeta até o início dos anos 90.

Kadafi: mitomano, queria ser o única voz do islamismo e o estragista do terror.


A sua recaída, no entanto, não tardou. Em declarações estampadas nos jornais europeus nas duas últimas semanas, ele passou a ameaçar os italianos de represálias: “Os italianos ainda não indenizaram os líbios pelos sofrimentos experimentados durante o colonialismo fascista, que produziu 700 mil vítimas”. Chegou até a sentenciar que a população da Líbia, com cerca de 6 milhões de habitantes e 79% de islâmicos sunitas, odeia a Itália e sempre procurará ocasião para extravasar o rancor.

De permeio, apareceram as declarações do egípcio Ayman al-Zawari, segundo na hierarquia da Al-Qaeda. Sem esquecer das tropas italianas enviadas ao Iraque, Al-Zawari reprovou o então ministro italiano Roberto Calderoli por haver vestido camiseta estampada com uma das charges dinamarquesas ofensivas ao profeta Muhamad.

Como se não bastasse, veio a réplica de Alessandra Mussolini, que acabou de fechar acordo para os fascistas da sua Alternativa Social apoiarem o premier Silvio Berlusconi nas eleições marcadas para 9 e 10 de abril. Neta de Benito Mussolini, a polêmica Alessandra provocou Kadafi: “Os líbios deixaram de viajar de camelo graças à modernidade introduzida pelo governo fascista do meu avô”.

A Farnesina, sede do Ministério das Relações Exteriores que tem um neofacista como chanceler, vive momentos de tensão, até porque Kadafi, como bem sabem os árabes, é imprevisível.

No seu portfoglio já figuraram, por exemplo, a Fatah de Yasser Arafat – quando a organização ainda não havia renunciado ao terror – e Ilich Ramírez Sánchez, natural da Venezuela e apelidado de “Carlos, o Chacal”.

Nos tempos dos ganhos astronômicos com a exportação de petróleo, Kadafi distribuía anualmente 100 milhões de dólares para pequenos grupos terroristas estrangeiros. Em troca, esses grupos comprometiam-se a (1) eliminar os adversários políticos de Kadafi no exílio, (2) desestabilizar os países árabes moderados, e (3) derrubar os governos africanos do Chade, do Sudão, da República Centro-Africana e do Zaire.

Por meio de golpe militar de Estado, em 1969, Kadafi depôs o soberano Mohammed Ídris al Senussi. Aí, de coronel virou supremo e perpétuo “Guia da Líbia”. A ambição maior de Kadafi consistia em tornar-se o único ideólogo e estrategista da revolução islâmica.

Ao cair em desgraça nos anos 90, Kadafi mudou de rumo. Então, apoiou, num papel moderado e conciliador, a adoção de uma nova política pan-africana, que resultou na União Africana, uma quase cópia da União Européia.

Ao espalhar o terrorismo pelo mundo, como um Osama bin Laden da época, Kadafi sentia-se um grande e temido líder mundial. Para ter idéia do seu currículo de sangue, só no ano de 1984 promoveu 25 ataques terroristas na Europa e no Oriente Médio.

Carlos, o Chacal, foi financiado por Kadafi.


Logo depois de fracassado o complô para assassinar o presidente egípcio Hosni Mubarak, Kadafi mandou colocar minas na entrada do Canal de Suez. Fora isso, agentes líbios atacaram os aeroportos de Viena e Roma e tentaram derrubar uma aeronave da empresa TWA, quando navegava no espaço aéreo da Grécia.

As reações firmes contra Kadafi começaram em 1986, em face da morte de soldados norte-americanos na explosão da Belle Discothèque, em Berlim. Aviões dos EUA bombardearam alvos preestabelecidos na Líbia, na chamada Operação Canyon.

Posteriormente, o Conselho de Segurança da ONU, por unanimidade, expediu contra o governo líbio a Resolução nº 731. Isso em face do atentado terrorista de 12 de dezembro de 1988, com 270 mortos, quando um avião da Pan Am que fazia a linha Londres–EUA explodiu em pleno vôo e os seus destroços caíram na cidade escocesa de Lockerbie.

As pesadas sanções insertas na Resolução foram aplicadas porque Kadafi se negou a extraditar dois agentes líbios, acusados pelos EUA e pelo Reino Unido de participação no atentado da Pan Am. Também pela negativa de indenizar as famílias das 170 vítimas e assumir a responsabilidade pela derrubada, em 1989, sobre o território do Níger, no Saara, de uma aeronave pertencente à companhia francesa UTA.

As sanções impostas pelas Nações Unidas afetaram a economia do país, em especial pelas restrições à venda de petróleo, que representa 75% da sua receita.

Diante desse quadro, nem os psiquiatras ousariam projetar a evolução da recaída do coronel Kadafi.


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