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Terror//Insurgência

 

DAS CHARGES AO TERROR.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Numa sociedade moderna, a liberdade de expressão representa um princípio cardinal. Lógico, são punidos no devido processo legal os abusos, as ofensas e as intolerâncias, incluídas aí as que afetam o sentimento religioso.

Brigadas anti-terror.


Em 1994, por considerar uma indecência a obra de Naguib Mahfouz –-- primeiro escritor de língua árabe a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1988 –--, o grupo terrorista Fraternidade Muçulmana, pela milícia integrista Al-Gama’a Al-Islamiyya, tentou matá-lo a golpes de punhal.

Essa Fraternidade Muçulmana, concentrada no Cairo e nas regiões de Asyut e Minya, no Alto Egito, passou, nos anos 80, a receber armas e recursos financeiros do teocrático e não democrático Irã, sob comando do aiatolá xiita Ruhollah Khomeini.

O Hezbollah e o Hamas também se filiaram à fundamentalista Fraternidade Muçulmana. O Hezbollah, ou Partido de Deus, surgiu no curso da guerra civil libanesa, iniciada em 1975, enquanto o Hamas, proclamado Movimento de Resistência Islâmica, nasceu em dezembro de 1987, quando da primeira "intifada", revolta de massa em protesto à ocupação da Palestina por Israel.

As declarações insanas do presidente do Irã preocupa o mundo Ocidental.


Em 1988, ano em que Mahfouz ganhou o Nobel, coube a Khomeini também decretar, por blasfêmia, a pena de morte ao escritor indiano Salman Rushdie, autor da obra Os Versos Satânicos. Pela eliminação do escritor foi oferecido o prêmio de US$ 6 milhões.

No momento, radicais islâmicos voltam-se, --com protestos violentos e desproporcionais--, contra a reprodução por parte da mídia européia de 12 charges do profeta Maomé, publicadas originalmente no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, no fim de setembro. Nas charges, o profeta aparece como terrorista, numa generalização reveladora de antiislamismo.

O episódio das charges vem num momento de turbulências geopolíticas, quer pelas ambições nucleares e provocações do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, quer pela recente e legítima vitória eleitoral do Hamas na Palestina. Serviu também para fundamentalistas ligados ao terror manobrarem politicamente as manifestações de rua.

Só para lembrar, o presidente iraniano nega a existência do Holocausto, prega o desaparecimento de Israel e acaba de interromper a política de cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica. Por outro lado, não é certo que o Hamas trocará o terrorismo pelo ativismo político e o diálogo de paz.

No curso da campanha eleitoral do Hamas, o foco não foi a destruição do Estado de Israel pela luta armada. Atacou-se, apenas, a pobreza derivada da corrupção no governo da Autoridade Nacional Palestina, controlada pelo Fatah.

O Fatah, do falecido Yasser Arafat, começou a atuar como movimento de resistência em 1959 e encobria as suas ações terroristas usando o nome de Setembro Negro. Em 1972, matou atletas israelenses que participavam dos Jogos Olímpicos, na Alemanha, tema do filme Munique, de Steven Spielberg.

Enquanto o Hezbollah assume os seus atos violentos, o Hamas muitas vezes usa como presta-nome a Jihad Islâmica e a milícia Qassam.

Quando Arafat assumiu, em 1969, a presidência da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), houve uma fusão dela com o grupo Fatah. A meta era fundar um Estado secular, laico, ao contrário do objetivo do Hamas, que pugna por uma teocracia xiita.

O Fatah renunciou ao terror em 1988 e não mais negou o direito de existência do Estado de Israel. Com isso, abriu caminho para o Acordo de Oslo I (1994) e a criação da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

No momento, a grande incógnita é saber se prevalecerá no Hamas o terrorismo legado pelo xeque Ahmed Yassim e pelo terrorista Yehya Ayash.

Yassim foi preso pelos israelenses em 1982 e acusado de ordenar os ataques terroristas na Palestina. Na sua casa foram encontrados 60 fuzis e farta munição. Condenado a 15 anos de prisão, saiu em poucos meses em face de acordo, pois ao governo de Israel interessava a oposição que Yassim fazia a Arafat. Ele voltou à prisão em 1989 e, num acordo com o serviço secreto israelense, Mossad, ganhou a liberdade em 1997. Em março de 2004, morreu ao deixar uma mesquita, num ato de terrorismo do Estado israelense.

Para sabotar o processo de paz entre a Autoridade Nacional Palestina e Israel, Yassim contava com Ayash, apelidado de “engenheiro”. Graças ao seu engenho, as bombas usadas nos ataques de 1994 a 1996 diminuíram de tamanho, sem perder a potência.

Ayash morreu em 1996, na Faixa de Gaza, ao atender o celular. Dentro dele, o Mossad havia colocado explosivos. As represálias vieram com ataques que mataram 45 judeus: explosão de dois ônibus em Jerusalém e no centro Dizengf de Tel-Aviv.

Com isso tudo, os ódios eternizam-se e os fundamentalistas islâmicos e judeus esquecem que o conflito árabe-israelense começou com uma disputa secular.


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