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ZAPATISTAS: segunda grande marcha parte do Chiapas.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Sem armas, os zapatistas retomaram, na segunda-feira 9, a marcha iniciada na cidade de San Cristóbal, localizada no estado de Chiapas, que é o reduto mexicano símbolo da revolta indígena de 1º de janeiro de 1974. Um movimento que culminou, em 11 de março de 2001, com a pacífica marcha até a Cidade do México, de grande repercussão internacional.

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A segunda marcha, ou otra campaña, teve início no primeiro dia deste ano e se interrompeu pela morte da comandante Ramona, de 47 anos, na sexta-feira 6. Ramona liderava, no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), a luta pela defesa dos direitos das mulheres indígenas e faleceu em razão de crônicos problemas renais.

O líder da nova marcha é o conhecido subcomandante Marcos, que agora se autoproclama Delegado Zero. Montado na sua antiga motocicleta, ele coordena a marcha de 30 mil indígenas das etnias tzotzil, tojolabal, chol, tzeltal, zoque, mame, mocho e kakchiquel. Além deles, marcham centenas de simpatizantes brancos e mestiços.

Como Marcos, todos os zapatistas têm a cabeça coberta por um gorro preto (passamontaña), aberto apenas na altura dos olhos. A marcha vai durar seis meses, de modo a alcançar o Distrito Federal, em julho, ou seja, às vésperas da escolha do presidente da República, em turno único.

Por enquanto, Andrés Manuel Obrador, apelidado de Amlo, atual governador da Cidade do México e filiado ao Partido da Revolução Democrática (PRD), lidera as pesquisas com 34% das intenções de voto. Obrador é seguido de Felipe Calderon, com 22% dos votos e membro do Partido da Ação Nacional (PAN), o mesmo do atual presidente Vincent Fox Quesada.

O terceiro nas pesquisas é Roberto Madrazo, com 18%, membro do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que conseguiu manter o poder no México por 71 anos. O PRI só perdeu as eleições em 2000, justamente para Fox.

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Enquanto a disputa eleitoral ferve num país de pleitos marcados por fraudes escandalosas e corrupção deslavada, caso do ex-presidente Carlos Salinas de Gortari (1988 a 1994), os zapatistas voltam a marcar posição.

Para todos os efeitos, a marcha comemora os 12 anos da revolta do Chiapas, onde pediam democracia, liberdade e justiça para todos os mexicanos. Também pregavam novas formas de cooperação social, econômica e política, sustentadas na igualdade, na liberdade e na autonomia das pessoas. Uma revolta ocorrida logo depois de o governo do quebrado México ingressar no Nafta.

À época, formou-se o EZLN, divulgou-se a Declaração da Selva de Lacandona e foram conquistados, pelos rebeldes, oito municípios.

Na marcha que está em curso há também reivindicações. Os zapatistas e as organizações aderentes pregam, sempre por meio da palavra e do apoio da tecida rede social global, o fim do neoliberalismo e do capitalismo. Desejam, ainda, uma nova Constituição e a formação de uma frente ampla de “esquerda”, sem filiação partidária, ou seja, não participante do processo eleitoral.

Ao retomar a marcha depois do período de nojo, Marcos afirmou que conseguirá reagrupar as forças políticas alternativas até antes da eleição. Ressaltou não confiar em nenhum dos candidatos e Obrador, caso eleito, será igual aos antecessores. Para Marcos, Obrador é “a mão direita da esquerda”.

Bandeira do Exército Zaptista de Libertação nacional.


Embora não mais tenham força como a da consolidação do movimento, os zapatistas são temidos pelos candidatos presidenciais. Na primeira marcha, só para lembrar, o presidente Fox recebeu de braços abertos seus representantes, embora fosse ostensivamente contrário ao movimento. Mudou totalmente o discurso e sustentou tratar-se de uma “marcha a representar a esperança para o México”. O encontro de Marcos e Fox restou iluminado por um clarão de flashes, disparados das máquinas fotográficas dos jornalistas.

O estado do Chiapas, de 76 mil quilômetros quadrados, e que faz fronteira com a Guatemala, continua pobre, com índios e camponeses atacados pelos paramilitares e graves violações dos direitos humanos. Apesar disso, reina nele o espírito da resistência de Emiliano Zapata, que, no início do século XX, abraçou a causa dos camponeses explorados e formou um exército de índios.

A reforma agrária conquistada pela revolução mexicana de 1910 nunca se efetivou na região do Chiapas. Os proprietários são os sucessores dos beneficiados no regime de Porfirio Diaz (1876-1911), que promoveu um programa de apropriação de terras dos índios, entregues a latifundiários ligados ao poder dominante.

Assembléia zapatista no Chiapas.


Como a marcha dos zapatistas mal começou, é cedo para avaliar o tipo de influência que poderá ter nas próximas eleições mexicanas.


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