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TERROR: O fim do Ira?

Por WFM-CARTACAPITAL

O FIM DO IRA?

O recente anúncio de deposição de armas merece cautela. Ainda há muita negociação pela frente.

O passar dos séculos mostra a impossibilidade de se lançarem certezas e de se fazerem previsões acerca dos movimentos de matriz terrorista. Isso porque as organizações terroristas são alimentadas pelas paixões nacionalistas, de direita ou de esquerda, e pelos fanatismos religiosos.

Terror de católicos: racismo e intolerância.


De pronto, não dá para confiar na anunciada deposição de armas e no fim das ações terroristas do católico Exército Republicano Irlandês (IRA). Como regra, as boas intenções declaradas pelas organizações terroristas são oportunistas e têm prazo de validade curto.

As eleições de 2002 para o Parlamento irlandês enfraqueceram o IRA. Das 166 cadeiras disputadas, apenas cinco ficaram com o partido nacionalista Sinn Féin, que quer dizer “Nós sozinhos”. E esse partido é o braço político do armado e feroz IRA, que não abdica do ideal de unificação, com a retomada dos seis condados controlados pelos protestantes da Irlanda do Norte, único óbice à desvinculação do Reino Unido.

Para ter idéia, a distribuição das cadeiras de deputados ficou da seguinte forma: 81, Fianna Fáil (“Soldados do Destino”, nacionalista de centro-direita); 31, Fine Gael (“Tribo dos Celtas”, de centro-esquerda); 21, Trabalhistas; 8, Democratas (conservadores); 6, Verdes; 5, Sinn Féin (nacionalistas republicanos); 1, socialistas; 13, independentes. As urnas ecoaram a voz das ruas, ou seja, o IRA vem sendo comparado à Al-Qaeda, quer por protestantes do Norte (Ulster), quer por católicos do centro e do Sul.

Uma volta atrás serve para relembrar as mutações e a falta de cumprimento de compromissos por parte dos movimentos eversivos existentes no planeta. Entre os grupos terroristas europeus chegou-se a confirmar, nos anos 70, a existência de um código de comportamento a impedir a eliminação de pessoas inocentes. O tal código comportamental acabou rasgado. No ataque terrorista ocorrido na estação ferroviária de Bolonha, em 2 de agosto de 1980, morreram 85 inocentes. Dentre os mortos estavam 25 crianças.

IRA: já descumpriu promessas e levou à suspensão de planos de paz.


O Concílio de Latrão, de 1139, estabeleceu, entre cristãos, a “trégua de Deus”. Nos conflitos deveriam ser poupados os peregrinos, comerciantes, camponeses, com vedação à matança dos seus animais. As proibições de Latrão foram esquecidas.

Na Argélia, em pleno século XX, houve a matança de centenas de crianças, em que pese a proibição islâmica de se assassinar ou mutilar mulheres e menores, ainda que no curso de uma Jihad.

Depois da expulsão dos soviéticos do Afeganistão e do rompimento da aliança com os norte-americanos, o saudita Osama bin Laden formou uma organização terrorista apoiada no wahabismo. Ou melhor, na doutrina introduzida na Arábia Saudita por Muhammad Ibn Abd al Wahab, no século XVIII.

O wahabismo propõe uma interpretação literal do Alcorão, recrimina a veneração excessiva a Maomé e o recurso à intermediação de homens-santos para se chegar a Alá. Baniram-se a música, as bebidas alcoólicas e o fumo. As mulheres passaram à condição de servas de segunda classe.

Para a Al-Qaeda, wahabismo significa a eliminação de todos os infiéis. E considera não haver inocentes entre eles, ainda que crianças, doentes ou idosos. Esse neowahabismo de Bin Laden chegou aos chechenos, antes grandes apreciadores de vodca e carne de porco. Os terroristas chechenos, em 2004, detonaram a escola secundária de Beslan, na Ossétia do Norte, assassinando 360 pessoas, mais da metade crianças.

Por outro lado, já foi o tempo da inimizade entre terroristas, guerrilheiros e traficantes de drogas ilícitas. Para os terroristas fundamentalistas islâmicos, é proibido o consumo de ópio e outros inebriantes que atuam sobre o sistema nervoso central. Apesar disso, a produção e comercialização não são consideradas proibidas e os talebans lucraram com o cultivo da papoula e a extração do ópio no Afeganistão.

Com efeito, a violência na Irlanda é secular. Em 1601 e 1690, católicos e protestantes mataram-se nas sangrentas batalhas de Kinsale e do rio Boyne. O terrorismo além-fronteiras eliminou o lorde Mountbatten, antigo vice-rei na Índia britânica, e o ministro inglês Airey Neave. Bombas foram detonadas nos centros comerciais de Londres e Manchester. Até a Dama de Ferro, Margaret Thatcher, foi alvo do IRA.

O processo de paz de 1998, chamado de Acordo da Sexta-Feira Santa, recebeu falso apoio do IRA. Quatro meses depois, o IRA, pelo seu braço radical (Continuity Irish Republican Army), matou 29 protestantes na Irlanda do Norte, ao explodir um carro-bomba. E o processo de paz interrompeu-se em 2002, em face de espionagens e sabotagens atribuídas ao IRA.

Como afirmou o ministro britânico para a Irlanda, Peter Hain, ao se pronunciar sobre o anunciado fim de 36 anos de ações terroristas pelo IRA: “Ainda há um longo caminho antes de um último ajuste político”.


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