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Terror//Insurgência

 

TERRORISMO de Estado. Scotland Yard tinha licença para matar brasileiro

Por WFM-FOLHA DE S.PAULO

1.France-Presses. Novas revelações.

2.Terrorismo de Estado, especial para a Folha de S.Paulo.

1.FRANCE PRESS, em Londres A polícia londrina atirou por mais de 30 segundos no jovem brasileiro Jean Charles de Menezes, que foi assassinado com oito tiros no mês passado por policiais que o confundiram com um terrorista no metrô londrino de Stockwell, de acordo com o jornal britânico "The Guardian", publicado nesta sexta-feira.

A informação é da jornalista independente Sue Thomason que estava no local quando o brasileiro foi morto, dentro do vagão de trem.

"Os cinco primeiros tiros foram dados com espaço de uns três segundos cada um, depois teve um intervalo um pouco maior e, então os tiros ficaram regulares de novo", declarou a jornalista londrina, que prestou depoimento à Comissão de Queixas da Polícia (IPCC, na sigla em inglês).

Segundo ela, a polícia atirou 11 vezes contra Menezes --que levou sete tiros na cabeça e um no ombro. Outros três tiros não atingiram o eletricista.

A morte de Menezes ocorreu um dia após as tentativas de explosões em sistemas de transporte de Londres, que não causaram vítimas. Duas semanas antes (7 de julho último), ataques também realizados contra os sistemas de transporte mataram 52 pessoas, além dos quatro autores dos atentados.
,br> Contradições.

Policiais à paisana seguiram o brasileiro até um metrô da estação de Stockwell, onde ele foi morto pelos agentes britânicos. Segundo a versão da polícia, o jovem brasileiro fugiu, chegando inclusive a pular as catracas do metrô de Stockwell, desobedecendo as advertências dos agentes, que pediram para que ele parasse.

Documentos da investigação que vazaram na imprensa londrina na semana passada diziam, entretanto, que o jovem "entrou tranqüilamente" no metrô e se sentou em um vagão, antes de ser morto por policiais.

A comissão policial que realiza a investigação interna sobre os fatos deverá apresentar seus achados a este juiz em 23 de fevereiro de 2006, segundo ditou o tribunal na última terça-feira (23).

2.RETROSPECTIVA.

Terrorismo de Estado

WÁLTER F. MAIEROVITCH

ESPECIAL PARA A FOLHA DE S.PAULO

O governo do premiê Tony Blair trouxe o terrorismo de Estado para dentro de casa. Ou seja, concedeu, com base em meras suposições, licença para matar à Scotland Yard e aos arapongas do serviço secreto, conhecido como MI5. Infelizmente, a primeira vítima fatal foi o brasileiro Jean Charles de Menezes.

Frise-se, o fato de Jean Charles estar ilegalmente naquele país não conferia à polícia inglesa o direito de executá-lo. No caso, com a agravante de os oitos disparos terem sido realizados com a vítima no chão e dominada.

O medo disseminado pelo terrorismo de matriz wahabista da Al Qaeda trouxe o pânico à polícia britânica, que se proclama educada à legalidade democrática. A violência da Scotland Yard vem num crescer racista e intolerante. Passou-se da prisão sem causa e da deportação de estrangeiros indesejáveis para o assassinato, rasgando-se a lei de proteção a direitos humanos que o próprio Blair aprovou.

Antes do assassinato do brasileiro Jean Charles, os britânicos praticavam o terrorismo fora dos seus domínios, como revela a história. Isso para garantir monopólios, conquistar territórios, manter os seus interesses geopolíticos e brecar rivais. Para enfraquecer governos, passaram ajuda financeira para dissidentes e políticos ambiciosos.

O sucedido com o brasileiro mostra o erro de enfrentar o terrorismo, que é espécie do gênero crime organizado, com as mesmas armas desumanas, na base da lei de talião. Jean Charles foi alvejado por oito projéteis. Sete deles na cabeça e outro no ombro, este último a revelar erro de pontaria. Todo policial sabe que a reação de um extracomunitário, sem visto de permanência, é tentar fugir.

Conforme testemunhos, Jean Charles assustou-se com a perseguição encetada por 20 agentes em trajes civis, que só depois do assassinato se identificaram como policiais. Jogado ao chão e indefeso, virou alvo de tiros certeiros, quando era exigível conduta diversa.

Pelo que se sabe, as chamadas forças de ordem britânicas estão autorizadas a atirar na cabeça, para depois conferir as suspeitas. Segundo oficiais do Exército israelense, o petardo recebido na cabeça interrompe os comandos cerebrais transmitidos aos músculos. Dessa maneira, um terrorista suicida atingido no cérebro fica incapacitado de acionar o detonador de explosivos carregados junto ao corpo.

Para a polícia britânica, a desconfiança vira suspeita em face de diferenças étnicas, de fisionomias orientais, de credo religioso islâmico e de condições sociais. Jean Charles era moreno e estrangeiro, ou seja, vestia o manequim básico do terrorista internacional.

Pelo que se divulgou, as suspeitas cresceram pelo fato de Jean Charles carregar mochila (acessório de terroristas) e vestir agasalho em pleno verão. Também pesou a circunstância de ele morar no bairro de Brixton, sempre na mira por abrigar paquistaneses da linha fundamentalista que caracterizava o Taleban afegão.

Em Brixton, para a Scotland Yard, poderiam estar escondidos os candidatos a terroristas kamikazes, executores dos quatro atentados frustrados do último 21 de julho: em composições do metrô e no ônibus da linha 26.

Na véspera do assassinato de Jean Charles, a tensão policial tinha aumentado, pois populares encontraram uma quinta bomba do grupo kamikase de quinta-feira. Estava no interior de uma mochila abandonada em canteiro vizinho ao presídio londrino de Wormiwood.

Jean foi seguido da sua residência até a estação de Stockwell. Não foi abordado durante o trajeto, e nada teria acontecido se não tivesse ingressado na estação do metrô, um símbolo capaz de dar vazão à paranóia policial.

Na estação de Stockwell, consoante revelou Ian Blair, chefe da Scotland Yard, os terroristas do frustrado atentado da quinta 21 tinham se encontrado. Mas todas as justificativas até agora apresentadas não se prestam para legitimar a violência e os abusos dos policiais britânicos.

O dever de todo policial é enfrentar o perigo e não se portar como um assassino. E os assassinos, no caso de Jean Charles, tinham licença para matar.


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