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Terror//Insurgência

 

JEAN Charles, o cadáver excelente.

Por Cláudio Bacal, diretor executivo do IBGF

Tiro na cabeça é coisa de profissional. É recado claro. Fato emblemático, inequívoco. Quem atira na cabeça procura a morte imediata. Não adverte, executa. E assina...

Licença para matar.


O escritor siciliano Leonardo Sciascia cunhou o termo “cadáveres excelentes” ao descrever a prática mafiosa de matar deputados, juízes, líderes comunitários e empresários. Os homicídios de gente notável destinam-se a intimidar, provocar pânico e exibir a fragilidade do Estado, diante do crime organizado. Em cada assassinato, a assinatura mafiosa traduzida na forma de execução. Afinal, não pode haver dúvida em relação à autoria.

Jean Charles Menezes subverteu a ordem das coisas: morreu para depois ficar mundialmente famoso. Mesmo assim, tornou-se cadáver de excelência. Autoridades inglesas da mais alta linhagem apressaram-se em esclarecer o inexplicável, diante de um chanceler brasileiro visivelmente constrangido. De nada adiantou. Os tiros foram na cabeça.

Várias versões apareceram. Nelas, Charles teve visto vencido e regular, esteve de casaco no calor ou em mangas de camisa, pulou a catraca do metrô, não respondeu à ordem de parar, foi morto imobilizado, com saraivadas que variam de cinco a oito tiros. A pergunta que fica é: para que cinco tiros na cabeça de um indivíduo? Isso, é claro, se formos benevolentes e abandonarmos a hipótese dos oito.

O excesso ficou óbvio e ululante. O pavor provocou a dureza e a frieza das autoridades. Até o fatídico 11 de setembro, para o Ocidente, o suicídio era coisa de depressivos - nada religioso ou ideológico. Diante de extremistas dispostos a oferecerem suas vidas pela causa, a polícia britânica açodou-se. A ordem, agora, é atirar na cabeça. Segundo especialistas israelenses, mais, digamos, experientes no assunto, esta a única forma de evitar a morte de inocentes.

Ian Blair, chefe da Scotland Yard.


O exemplo do inocente Charles mostra que não. O eletricista de origem humilde pagou com a vida, assassinado pelo Estado. Um Estado que se preocupou em defender, imediatamente, os policiais que realizaram a operação. É bem verdade que o governo britânico também pediu desculpas pelo incidente. Provavelmente pagará indenização à família do eletricista. O erro foi lamentável, segundo Jack Straw, chanceler inglês. De nada valem a defesa e muito menos as desculpas. A marca de Caim continua a figurar na testa do cadáver.

Difíceis os tempos em que vivemos. Dias de paradoxos, confusões éticas e filosóficas. O que será que Sciascia responderia se perguntado: crime de Estado torna o cadáver excelente?


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