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Terror//Insurgência

 

Terrorismo de Estado x Terrorismo Checheno

Por IBGF/WFM

TERROR DE ESTADO x TERROR CHECHENO.

Uma professora de Bologna tomou a iniciativa e os italianos em peso, --ameaçados pelo terrorismo de matriz neowahhabita inaugurado por Osama bin Laden--, colocaram velas acesas nas sua janelas.“Uma pequena luz para iluminar com a força das coisas simples a enormidade da dor decorrente da tragédia na escola de Beslan (sul da Rússia)”, justificou ela. E o comentarista Khaled Foud Allan, do jornal italiano La Repubblica e autor do livro O Islã Global, concluiu precisão: -“Quando o rosto de um morto ou de um ferido pela violência terrorista é aquele de um anjo, ou seja, de uma criança, a humanidade inteira sai derrotada”.

A barbárie ocorrida em Beslan representa mais um “round” sangrento de uma antiga luta que despreza a ética de poupar inocentes. Por trás da tragédia de Beslan existem duas espécies do gênero terrorismo.

De um lado, o terrorismo de Estado, comandado pelo presidente Vladimir Putin e marcado por genocídios, torturas e massacres. Seu objetivo é manter sob controle da Federação Russa a parte que ainda resta do espólio territorial da extinta União Soviética (URSS).

Do lado oposto apresenta-se o terrorismo checheno. Suas ações misturaram secessão, chacinas, radicalismo islâmico e as máfias chechenas, espalhadas por Moscou e seu entorno.

No século XIX e por mais de vinte anos, a Rússia lutou para controlar e pacificar a estratégica região do Cáucaso. Em dezembro de 1991, a Chechênia buscou a sua independência. O movimento foi liderado pelo falecido Dzokharar Dudaïeve, um antigo general-aviador soviético. O momento era propício, quer pelo extinção da URSS, quer pela independência conquistada pelos estados bálticos da Estônia, Letônia e Lituânia, em setembro do mesmo ano.

O novo Estado independente checheno recebeu o nome de Itchkeria. Assumiu a presidência Aslan Maskhadov, hoje caçado por Putin, que o considera responsável pelo massacre de Beslan: um porta-voz de Aslan, em Londres, emitiu nota condenando o terrorismo em Beslan e negando a sua vinculação. O general Dudaïev logo morreu, atingido por um míssil. Com Shamil Bassaïev, que perdeu uma perna em combate, ficou o comando bélico: ele é igualmente procurado pela FSB, sucessora da KGB.

A reação russa contrária à independência levou à chamada primeira Guerra da Chechênia, que durou de 1994 a 1996. Aquilo que parecia fácil para a Russia acabou tendo o resultado de uma luta de David contra Golias. A pequena Chechênia saiu vencedora, graças ao despreparo do Exército russo e ao emprego da velha tática de guerrilha idealizada pelo legendário checheno Shamil Bassaïev. Ajudou o fato de muitos dos separatistas chechenos ter sido formados nos serviços de inteligência da KGB e da sua seção militar de espionagem e sabotagem, a famosa GRU.

Em 1999 começou a revanche russa, com emprego até do proibido napalm. Em junho de 2000, o presidente Putin retomou o controle na Chechênia. As negociações de paz com os líderes separatistas, iniciadas em novembro de 2001, acabaram suspensas em janeiro de 2002, em face dos permanentes ataques guerrilheiros.

As duas guerras na Chechênia resultaram em 100 mil mortos e 250 mil refugiados. Na Câmara Baixa do Parlamento (DUNA), apenas uma cadeira foi reservada aos chechenos, ou seja, um deputado para representar mais de 1 milhão de chechenos mulçumanos.

Os ataques terroristas de 11 de setembro nos EUA contribuíram para Putin, em nome de uma coalizão antiterror, realizar genocídios. A propósito, ele afirmou que a reação russa de 1999 serviu para “conter uma ofensiva islâmica fundamentalista direcionada contra o Ocidente”.

O terrorismo de Estado russo foi objeto de comentário nesta coluna, em 9 de outubro de 2002, sob o título de “Genocídio Silencioso”. À época, o jornal Le Monde denunciou torturas e estupros nos campos de prisioneiros chechenos de Tchernokosovo. E a prestigiosa revista francesa Le Nouvel Observateur revelou o massacre de 40 civis, na aldeia chechena de Meskert-Iourt, os quais, antes de morrer com um tiro na cabeça, tiveram os dentes arrancados, as pernas e os braços cortados, tendo sal grosso passado nas incisões.

Por seu turno, 50 terroristas chechenos, logo depois de interrompidas as negociações de paz, invadiram o lotado teatro Dubrovka de Moscou. Por três dias (23/26 de outubro de 2002), subjugaram 700 expectadores. Forças especiais do ministério do Interior russo invadiram o teatro. Morreram 50 chechenos e 128 reféns, todos intoxicados por um misterioso gás empregado pelas forças de ordem.

Vale observar, ainda, que mais 200 organizações criminosas passaram a atuar abertamente depois da derrocada soviética. Das seis principais associações criminosas, três são operadas pelos chechenos. E essas três máfias chechenas (Tsentralnaja, Ostankino e Avtomobilja) , com forte poder corruptor, garantem armas e explosivos para os terroristas. As máfias chechenas mantém forte presença territorial em Ostankino, onde se encontra a sede da televisão estatal russa, e na Avtomobilja, nome tirado da fábrica de automóveis.

Apenas depois das duas guerras, os separatistas começaram a receber apoio externo, de grupos islâmicos radicais e terroristas. Registarm os especialistas que no começo do supracitado processo de paz e durante as reuniões com os homólogos russos, os líderes chêchenos tomavam vodka e comiam carne de porco. Ou seja, contam mais as suas raízes culturais do que as religiosas.

Em resumo, o atual cenário está a indicar que Putin, em nome da segurança interna e a exemplo de Bush, vai restringir garantias individuais e liberdades públicas. A tragédia de Beslan não será a última, infelizmente.


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