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Terrorismo:Paquistão desponta como Palco Central da Luta Antiterror

Por Jaime Spitzcovisky

*Jaime Spitzcosky: é jornalista e diretor da Prima Página,-- produtora de conteúdo jornalístico (www.primapagina.com.br). É diretor de redação e comentarista do Jornal do Portal Terra (www.terra.com.br//jornaldoterra). Foi correspondente no exterior e responsável pelo caderno internacional do jornal Folha de S.Paulo.

Paquistão desponta como palco central da luta antiterror

O Paquistão recentemente conquistou destaque na imprensa internacional ao anunciar a prisão de diversos integrantes da Al Qaeda.

Apenas em 48 horas, no início de agosto, as autoridades daquele país disseram ter detido 17 paquistaneses e cinco estrangeiros acusados de ligações com a rede terrorista.

Em julho, a mesma ofensiva antiterror capturou Mohammad Naeem Noor Khan, especialista em computação acusado de ser um dos responsáveis pelas comunicações, via e-mail, entre os seguidores de Osama Bin Laden.

Também foi preso, no mês passado, Ahmed Khalfan Ghailani, tanzaniano procurado pelo envolvimento nos ataques a embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia, em 1998.

. A lista de figurões do terror detidos no Paquistão inclui ninguém menos do que o terceiro na hierarquia da Al Qaeda. O kuaitiano Khalid Sheikh Mohammed foi preso em fevereiro de 2003, num golpe importante contra Osama Bin Laden.

Segundo Rohan Gunaratna, um especialista em Al Qaeda, Mohammed ordenou em 2002 o assassinato de Daniel Pearl, correspondente do diário norte-americano The Wall Street Journal. O jornalista estava em Karachi, investigando as ramificações paquistanesas do fundamentalismo islâmico, quando foi seqüestrado e morto.

O Paquistão, portanto, desponta como cenário fundamental para atuação do terror. Osama Bin Laden deve estar escondido numa região remota onde se encontram solo paquistanês e afegão, numa área em que as autoridades dos dois países mal conseguem chegar. Reinam ali líderes tribais, que provavelmente ajudam a esconder Bin Laden por conta de comprometimento ideológico e de generosos pagamentos em dólares.

Por que o Paquistão se tornou um refúgio e um local preferido de atuação dos terroristas?

Primeiro, as razões históricas. O país surgiu, em 1947, embebido no nacionalismo islâmico, ao reivindicar que o subcontinente indiano tivesse um país de maioria muçulmana, a fim de protegê-la do movimento hindu responsável pela independência da Índia. A identidade paquistanesa, portanto, forjou-se numa densa base religiosa.

Nos anos 80, o Paquistão se tornou epicentro de uma “jihad” internacional dos tempos modernos. Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão, e a resistência islâmica usou o solo paquistanês como base para suas operações contra o inimigo “ateu e comunista”.

Essa guerra, travada no cenário bipolar da Guerra Fria, resultou numa aliança dos EUA com o Paquistão e os mujahedins (combatentes) afegãos. Todos unidos contra o Kremlin.

Militantes islâmicos convergiam ao Paquistão, para lutar contra os soviéticos. O saudita Osama Bin Laden foi um deles. Fortaleceu-se na sociedade paquistanesa a influência dos fundamentalistas, enfraquecendo os setores mais laicos.

As Forças Armadas e o serviço secreto do país, conhecido como ISI, acolheram grupos muçulmanos ortodoxos.

Derrotados, os soviéticos saíram do Afeganistão em 1989, o que resultou numa guerra civil pelo controle do país. O Paquistão enxergou a oportunidade de controlar o vizinho. Convocou afegãos que estudavam nas madrassas (escolas religiosas) em solo paquistanês e forneceu-lhes apoio financeiro e militar para criarem uma milícia que conquistaria Cabul, a capital do Afeganistão. Nome do movimento: Talebã, que em pashtun, idioma da principal etnia afegã, significa “estudantes”.

A história posterior é amplamente conhecida. O Talebã deu refúgio a Osama Bin Laden e tornou-se sinônimo de um regime medieval e fundamentalista. Seus principais apoiadores no exterior tinham endereço conhecido: o Paquistão.

Desabou então o 11 de setembro. Os Estados Unidos foram à caça de Bin Laden, o que significava a derrubada do Talebã.

A Casa Branca colocou ao Paquistão duas opções: manter os laços com os fundamentalistas afegãos e enfrentar Washington, ou trair os vizinhos em nome de uma aliança com os EUA, que traria recompensas geopolíticas e financeiras. O general e presidente Pervez Musharraf trocou a milícia medieval pela hiperpotência.

Desde então, Musharraf sobreviveu a pelo menos duas tentativas de assassinato. O general-presidente governa em aliança com Washington, mas pressionado por um tecido social profundamente influenciado por grupos fundamentalistas islâmicos.

O Paquistão, ainda dono de arsenal nuclear, transformou-se em um centro nervoso da guerra contra o terrorismo. É fundamental que seus setores laicos e pró-Ocidente consigam, num desafio hercúleo, aprofundar o combate ao terror. É do interesse do próprio general Musharraf e da comunidade internacional.


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