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Terror//Insurgência

 

Império do Medo

O IMPÉRIO DO MEDO

revista CARTA CAPITAL

Por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

QUANDO A DOR É O SHOW.No caso da tragédia na escola russa, o despudor da cobertura ao vivo e a manipulação dos dias seguintes obrigam à reflexão sobre a ética da mídia

O presidente russo Vladimir Putin decidiu, ao que parece, usar a tragédia de Beslan como pretexto para impor um pacote de medidas autoritárias que em nada contribuirão para afastar a ameaça terrorista, mas há muito estavam nos planos do grupo que representa.

Fim das eleições diretas dos governadores – substituídas, como na ditadura militar brasileira, por nomeações do governo federal ratificadas pelas assembléias legislativas –, limite do número de partidos e mudanças no sistema eleitoral que fazem pensar em um AI-5 à russa.

Outros aspectos da virada autoritária lembram mais seu colega de Washington: restauração da pena de morte, controle mais rigoroso de estrangeiros e adoção de um código de cores de alerta antiterror. E, é claro, a ameaça de agressões externas unilaterais com base em simples suspeitas.

Sintomaticamente, em 13 de setembro Putin reafirmou que a Rússia tem o direito a atacar preventivamente o terror em seus esconderijos no exterior – um recado dirigido à Geórgia, que pode servir ou não de esconderijo a militantes chechenos, mas cuja recusa da influência russa certamente irrita o Kremlin tanto quanto a rebeldia do Iraque de Saddam Hussein irritava a Casa Branca.

AI-5 à russa.Putin quer usar o atentado em Beslan para abolir as eleições diretas de governadores

A analogia não lhe escapa. Questionado por jornalistas ocidentais pelo desastroso desfecho da crise de Beslan, Putin os desafiou: “Por que vocês não se encontram com Bin Laden e o convidam a Bruxelas ou à Casa Branca para negociar?”

O medo pode ser inteiramente forjado, como as “armas de destruição em massa” do Iraque. Pode também partir de um acontecimento real, como o atentado terrorista de 11 de setembro nos EUA ou o de Beslan na Rússia, desde que se fuja do debate racional de suas causas e seus significados – e, é claro, dos erros cometidos na prevenção e no combate a essa violência.

Um conflito complexo é reduzido à oposição maniqueísta entre bem e mal. O outro, a uma monstruosidade incompreensível e demoníaca. Quem manifesta desconfiança em relação aos objetivos do pretenso salvador, ou relutância em ceder-lhe todos os poderes exigidos, ou dúvidas sobre a utilidade das regras e limites impostos, torna-se automaticamente suspeito de conluio com o inimigo.

Ou, então, aceita as regras do jogo paranóico e tenta parecer mais realista e mais competente que o rei, como John Kerry nos EUA. Ou como os líderes europeus liberais e social-democratas, que reagem às propostas neofascistas traduzindo-as em uma linguagem mais politicamente correta.

“Condenamos o ódio e o preconceito contra os imigrantes, mas enfrentaremos melhor o problema, controlando a imigração e o crime.” “Teríamos invadido o Iraque, mas com mais planejamento e cooperação internacional.” Um discurso oportunista quando se fala de uma posição de força e ridículo se parte de uma posição de fraqueza.

No “discurso sobre o estado da União” de janeiro deste ano, Bush júnior usou a palavra “terror” mais de 20 vezes – só “eu” foi usada com mais freqüência. Mas a “guerra contra o terror”, como ele próprio reconheceu, não pode ser vencida. Não é para ser vencida. Pode-se vencer uma guerra contra um governo, uma organização, um sistema ou outra entidade concreta e definida, mas não contra um conceito que adjetiva uma tática.

O pai da idéia.O estilo Ariel Sharon fez escola nos EUA e na Rússia, mas está levando Israel a um beco sem saída. É uma guerra concebida para ser eterna: o rótulo de “terrorista” facilmente desliza de um inimigo para outro, da Al-Qaeda para o Iraque e deste para o Irã ou a Coréia do Norte, segundo as conveniências do momento. Fornecedores de medo, sejam conscientes e dispostos, sejam à revelia, jamais faltarão. A “guerra ao terrorismo” reduziu todas as possíveis causas de mal-estar social a um equivalente geral de uma forma mais eficaz do que a “guerra às drogas” conseguia proporcionar.

O uso político do terror é um recurso a que gregos e troianos sempre apelaram e continuarão a apelar. Mas, em geral, só se dá o nome de terrorismo quando isso é uma tática desesperada dos relativamente fracos, como os guerrilheiros da resistência francesa e italiana sob a ocupação nazista, os sionistas na luta pela independência de Israel nos anos 40, os movimentos de libertação nacional dos anos 60 ou as Farc, os palestinos e os fundamentalistas de hoje.

Ao terror aplicado diretamente pelos poderosos, os que detêm o Estado, os críticos chamaram de autoritarismo, imperialismo ou totalitarismo – e os amigos mais compreensivos, de combate à subversão (ou à contra-revolução). Chamou-se de “guerra fria” a manipulação do medo da outra superpotência, por ambos os lados. Mas como chamar a manipulação do medo inspirado pelos relativamente impotentes quando o poder o manipula para seus próprios fins?

A jornalista e escritora Naomi Klein (autora de Sem Logo) o chama de “likudização”. Primeiro o governo de George W. Bush e, depois, o de Putin aderiram à visão de que não se trata de palestinos reivindicando seu direito a um lar nacional, da adesão ao fundamentalismo de povos reduzidos à miséria e insignificância pela destruição impiedosa de suas pretensões de liberdade e independência, de chechenos em busca da independência, mas de fanáticos decididos a aniquilar a civilização, que só entendem a linguagem da força.

Ninguém ofereceu a Putin solidariedade tão incondicional depois do desastroso desfecho da crise quanto o governo de Ariel Sharon. “Não há diferença entre o terror em Beersheba e o terror em Beslan”, garantiu seu ministro das Relações Exteriores, “os russos agora entendem que não se trata de um problema terrorista local, mas de parte da ameaça global do terror islâmico. Desta vez, ouvirão nossas sugestões”, comentou um funcionário citado pelo jornal israelense Haaretz.

Palavras muito semelhantes haviam sido usadas pelo então ministro da Fazenda Binyamin Netanyahu, em 12 de setembro de 2001, sobre como o atentado afetaria as relações entre EUA e Israel: “É muito bom... Bem, não muito bom, mas vai gerar simpatia imediata e reforçar a união entre nossos povos”.

Daí a imaginar os EUA, a Rússia e o resto do mundo afundados na mesma paralisia e cegueira que hoje sufocam Israel, sobressaltando-se a cada momento com alertas laranja, é um passo.

Os fantasmas do nazismo são invocados em um contexto completamente diferente. Um véu imaginário camufla o poderio de Tel-Aviv sob o desamparo dos judeus dos guetos poloneses, a obtusidade de Bush júnior sob a estatura de Winston Churchill e a fragilidade impotente de Saddam Hussein sob o desafio mundial de Adolf Hitler.

Em 11 de setembro de 2001, os EUA perderam a oportunidade de encarar a realidade. O país preocupava-se com a própria violência interna – ampliada e distorcida pelas lentes do conservadorismo social –, mas via os horrores do “Terceiro Mundo” como um problema em vias de desaparecimento, que se limitava a piscar nas telas das tevês durante os noticiários e não lhe dizia respeito.

Sua percepção, mesmo arranhada pelo colapso da “nova economia”, era ingenuamente otimista e narcisista. A globalização logo transformaria o mundo em uma versão idealizada e ampliada dos Estados Unidos, um paraíso consumista pelo qual o resto do planeta só teria a agradecer. Enquanto isso não acontecesse, a “Guerra nas Estrelas” tornaria o país invulnerável a qualquer ataque externo.

A irrupção dos aviões contra as torres não serviu, porém, para fazer os EUA questionarem essa visão complacente de seu papel no mundo e aceitarem sua vulnerabilidade. Muito menos para despertarem para o sofrimento dos inocentes e injustiçados em Ruanda, no Afeganistão, na Palestina ou no Sudão e se perguntarem pelo que seria de fato necessário para que isso não voltasse a acontecer em qualquer parte do mundo.

Entrou o pesadelo no lugar do devaneio, sem interromper o sono. Como disse o filósofo Slavoj Zizek em Bem-Vindo ao Deserto do Real, a vitimização de inocentes nos EUA libertou mídia e políticos das dúvidas legadas pela amadurecedora experiência do Vietnã e das lutas pelos direitos civis dos anos 60.

Devolveu-os à “inocência” infantilizada da Guerra Fria e à certeza de que os EUA são felizes e o mundo inveja essa felicidade, sem que isso voltasse a soar como uma fraude ridícula. A punição do atentado não foi vista como um triste dever, mas como uma excitante retaliação – pouco importando se dirigida aos responsáveis reais ou a seus equivalentes no imaginário.

O mundo exterior passou a ser pintado como um lugar cheio de monstros maus e subumanos, indignos de direitos humanos e de um tratamento à altura da Convenção de Genebra. O governo dos EUA prometeu depor líderes e impor outros mais democráticos, sem atentar para a contradição – até se dar conta de que, no Iraque ocupado, eleições livres, diretas e sem fraude provavelmente trariam governos ainda mais hostis do que o de Saddam.

Outras respostas teriam sido possíveis. Em março, na Espanha, o governo Aznar quis aproveitar sua oportunidade de imitar os parceiros de Washington, destinando aos bascos o papel que Bush quis reservar, desde o primeiro momento, ao Iraque. Seu povo preferiu, porém, uma alternativa mais sensata.

É outra a situação, porém, entre os povos desesperados e acossados do Oriente Médio. Se Bush, Sharon e Putin precisam garantir o abastecimento de inimigos no mundo muçulmano, os fundamentalistas também necessitam deles – ainda que seus povos tenham ainda mais a perder na balança do terror do que na balança do comércio e das finanças.

Também os fundamentalistas dependem do medo para conquistar e manter o poder – do terror que a prepotência dos EUA, da Rússia ou de Israel inspira a seus povos, mais do que o contrário. E se dispõem, alegremente, a representar seu papel e apresentar seus algozes, por sua vez, como articuladores de uma vasta conspiração judaico-cristã-materialista contra o Islã.

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