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Terror//Insurgência

 

A CIA criou o mulá Dadulah.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

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22 de maio de 2007.

Dadulah, última aparição televisiva.


A expressão “vaidade de vaidades, tudo é vaidade”, tirada do livro Eclesiastes, atribuído ao rei Salomão, não era conhecida pelo sanguinário mulá Dadulah. Ele, um vaidoso quarentão, fundamentalista islâmico da tribo de Kakar, nascido no norte do Paquistão.

Ao contrário do chefe maior dos talebans, mulá Omar, do saudita Bin Laden e dos integrantes do vértice da terrorista Al-Qaeda, o mulá Dadulah, morto no domingo 13, não nascera para viver à sombra, mas para se mostrar e ser conhecido no planeta.

Nas entrevistas à imprensa ocidental e ao negociar os resgates de seqüestrados, Dadulah usava um telefone satelital, embora sabedor da vulnerabilidade.

Segundo especialistas internacionais, Dadulah, nos seus telefonemas, foi localizado pelos 007 franceses e uma blitz, comandada pelos EUA, com soldados do exército afegão como figurantes e combatentes treinados do contingente da Otan-Isaf (ingleses, canadenses, holandeses), o mataram quando tentava fugir da cidade meridional de Girishk.

Dadulah foi atingido por três projéteis, na cabeça, tórax e abdômen. E não se descarta, também, ter sido entregue por invejosos pares do alto comando dos talebans, dada a sua projeção internacional. Na blitz, 11 talebans foram mortos, incluindo o irmão de Dadulah.

Essa blitz teve mais eficácia que toda a Operação Aquiles, deflagrada em abril pela Otan, no sul do país, para fustigar os talebans de Dadulah. A morte do mulá desorientou os talebans, que no sábado 12 tinham perdido 55 combatentes, na província oriental de Paktita.

Depois da invasão do Afeganistão pela coalizão liderada pelos EUA, na primavera de 2001, o mulá Dadulah passou a comandar a resistência no sul do país. Os talebans conseguiram controlar cerca de 80% dessa região e proteger as áreas de cultivo de ópio na província de Helmand e nos distritos de Garish, Sangin e Nahi Sarraj.

Em poucos anos, no comando de 12 mil talebans, Dadulah mantinha controles territoriais em Helmand, Kandahar, Zabul e Uruzgan. Aí, começou a inovar em estratégias, ou seja, investiu no seqüestro de pessoas para obtenção de renda. Ainda selecionou e treinou camicases para pesados atentados nas cidades e começou a cobrar taxa de proteção nas áreas de cultivo de papoula e extração do ópio. Também apostou no marketing pessoal, mediante exploração de fatos geradores de mídia espontânea.

Corpo de Dadulah exibido pelo governador de Kandahar.


Nos seqüestros, os alvos prioritários eram os jornalistas e os agentes humanitários estrangeiros. Segundo o jornal Le Monde, Dadulah faturou alto ao negociar a libertação de Cèline Cordelier e Eric Damfreville, dois franceses em trabalhos humanitários e integrantes da organização não-governamental chamada Terre di Enfance.

O seqüestro dos dois franceses ocorreu em 3 de abril, com Cèline libertada no dia 28 e Eric depois, em 11 de maio, dois dias antes da morte de Dadulah.

Do grupo composto por dez chefes militares subordinados ao mulá Omar, o mais corajoso era Dadulah. Para muitos comandantes enciumados, Dadulah abusava das decapitações e dos seqüestros de pessoas, de modo a desacreditar a causa dos talebans. E mais, ele era responsável por genocídios.

Como regra, os afegãos contratados pelos estrangeiros seqüestrados, até para deslocações e traduções, eram decapitados como traidores.

Nas tratativas para soltar estrangeiros seqüestrados, Dadulah vazava à imprensa uma exigência de atendimento impossível, consistente na retirada das tropas invasoras. Feita a pressão e próximo do fim do prazo assinado, ele impunha preço alto para o resgate.

Dadulah aprendeu a guerrear graças à Central Intelligence Agency (CIA). Aluno de madrassa paquistanesa, Dadulah teve, ainda jovem, contato com o serviço secreto do Paquistão (ISI). O ISI recebia verbas secretas da CIA para investir nas madrassas, de onde saíam os combatentes incumbidos de expulsar as tropas soviéticas do vizinho Afeganistão.



Numa das lendas, Dadulah teria perdido a perna esquerda em batalha contra os soviéticos. Para os 007 ocidentais, a história é outra, ou seja, deveu-se à explosão de uma mina. Isso em Herat ou quando combatia, em 1994, os integrantes da Aliança Norte, do célebre comandante Massud.

O responsável pelo serviço secreto do Afeganistão, Amirulah Saleh, deixou claro que Dadulah poderia ter sido capturado quando do seqüestro do jornalista italiano Mastrogiacomo. Destacou isso numa crítica à Itália, que designou para as negociações o médico humanista Gino Strada, presidente da ONG Emergency.

Strada, como primeira medida, dispensou o auxílio dos 007 da inteligência militar italiana (Sismi). Com isso, o monitoramento das conversas telefônicas ficou prejudicado. Já os franceses monitoraram com sucesso.


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