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Terror//Insurgência

 

TERROR DE ESTADO. Ódios eternos Espionagem Corrupção e Presente de Nooroz

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

MOSSADEQ, premier persa que cassou a concessão concedida à colossal Anglo Iranian Oil Company.




Ao iniciar um novo ano, --norroz 1386--, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, resolveu, como declarou em coletiva, “agraciar o povo britânico” com a libertação de 15 marinheiros da Royal Nave, presos desde 23 de março.

Ainda estão bem guardados os segredos das negociações, mas o “crédito vindicativo” iraniano continua em aberto. Um pró-memória ajuda na montagem desse complicado quadro de ódios perpétuos.

O premier Tony Blair nasceu em 1953, ano em que os serviços secretos britânicos e norte-americanos, em missões oficiais, arquitetaram e derrubaram o primeiro ministro persa Mohammad Mossadeq, um líder nacionalista.

Mossadeq acabou com o monopólio concedido à colossal Anglo Iranian Oil Company, explorada pelos ingleses. Numa incontestável exposição de motivos, mostrou que o seu país, grande produtor do chamado ouro-negro, empobrecia enquanto os ingleses enriqueciam com o produto alheio: em 1947, a Anglo Iranian Oil Company tinha faturado líquidos US$112 milhões e a Pérsia ficara com apenas US$7 milhões.

O nacionalista Mossaqued é considerado o precursor da luta pôs fim à monarquia dinástica dos Pahlavi. Ele abriu as portas para a revolução islâmica encabeçada pelo yatolá Ruholla Khomeine, em 1979, e que apeou do poder o corrupto xá Reza Pahlavi.

A nacionalização da Anglo Iranian Oil ocorreu em outubro de 1951 e, para derrubar Mossaq, os 007 da sua majestade britânica demoraram quase dois anos. Só conseguiram isso pelo apoio do general Dwightht Eisenhower, eleito presidente dos EUA em 1953, pelo partido republicano.

Para a derrubada de Mossaq, os espiões de língua inglesa aproximaram-se de Norman Schwarzkopf, organizador da guarda imperial persa e amigo do xá Reza Pahlavi. Conta a história que o xá levou malas de dólares para demitir Mossaq e segurar as revoltas populares.

Mossaq passou três anos encarcerado e morreu em 1967. Desde a sua queda, os iranianos elegeram os ingleses como o Grande Satã. Só depois vieram EUA e Israel.

Com a descoberta, em 2003, de duas novas centrais nucleares iranianas, coube ao presidente George W. Bush, e ao súcubo Tony Blair, chmar o Irã de “país canalha”, fomentador do terrorismo internacional e artífice de um programa militar nuclear.

No episódio dos 15 marinheiros britânicos presos em flagrante em dois barcos de borracha de alta-velocidade, Ahmadinejad, com a silenciosa aprovação do guia supremo da Nação, ayatolá Khamenei, aproveitou para dar mais um troco no Satã primogênito.

O caso dos marinheiros, talvez algo montado pela espionagem iraniana, ocorreu quando Blair arruma as malas para deixar o cargo e tenta apagar do seu currículo o registro de fâmulo de Bush. Tudo depois de três mandatos, baixo prestígio popular e quatro guerras: Serra Leoa, Kosovo, Afeganistão e Iraque.

ANGLO IRANIAN OIL COMPANY, foto de 1953, na antiga Pérsia, hoje Irã.


Por outro lado, fazer reféns, trabalhar a mídia, bradar ameaças e prolongar agonias, virou especialidade iraniana. Remonta ao ayatolá Khomeine, quando ainda exilado na França.

Khomeine percebeu que revolução não se faz apenas com a força das armas de fogo, mas com o poder de penetração da midia, ou seja, por satélites e antenas.

Em novembro de 1979, ano da revolução de Khomeine, os funcionários da embaixada dos EUA em Teerã ficaram 444 dias como reféns, com cobertura diária pela mídia. Pelas câmeras televisivas iranianas e para fazer o mea-culpa passaram, em 1983, três dirigentes do então partido comunista iraniano (Tudeh). Dos dez israelenses presos e acusados de espionagem em 1999, três confessaram pela televisão.

Quanto aos 15 marinheiros britânicos, foram divulgados pelo planeta quatro confissões por vídeo e guardadas as demais. Numa típica operação para ganhar tempo e espaços na mídia, o governo iraniano exigiu pedido de desculpas e ameaçou com abertura de processo por espionagem. No caso de tentativa de bombardeamento, Ahmadinejad prometeu convocar, por dia, cem homens-bombas para atacar os agressores.

O general Rahihim Safavi, chefe dos pasdaran, ficou com a custódia dos marinheiros. Além dos 120 mil pasdaran, Safavi cuida de cerca de 900 mil milicianos do Basij (força auxiliar) e da clandestina unidade Qods.

As milícias do Qods fazem o trabalho sujo e são responsáveis fornecimento de armas ao Hamas e Hezbolah. Há três semanas, os norte-americanos conseguiram capturar seis oficiais do Qods, no Iraque. Daí, as especulações de uma eventual troca de prisioneiros, num futuro breve.

Como se percebe, tudo se desenvolveu num clima que misturou ódios, vinganças, sanções pela ONU, construções de usinas nucleares, enriquecimento de urânio, reservas petrolíferas, norooz e aproveitou-se do ocaso de Tony Blair.
WFM/Carta Capital, abril de 2007.


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