São Paulo,  
Busca:   

 

 

Terror//Insurgência

 

ABU OMAR fala para Al Jazeera. Terror. 007 trapalhões. Seqüestro de pessoas pela CIA, fora dos EUA.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch



O imã passou mais de 3 anos preso e ao receber a liberdade vigiada, há duas semanas, foi avisado pelas autoridades egípciais a não dar declarações à imprensa.

No domingo, 25 de fevereiro de 2007, o imã quebrou o silêncio e concedeu, de Alexandria (Egito), uma entrevista à TV.Al Jazeera (sede no Quatar), com retransmissão para a Inglaterra. Em longa entrevista, o imã mostrou documentos a revelar que estava legalmente em Milão, quando foi seqüestrado. O documento era a concessão de asilo político, pois fora dado como persegudo político do governo egípcio.

Abu Omar declarou que, além de seqüestrado (fevereiro de 2003), foi submetido a sessões de torturas, pelos agentes da CIA e antes de ser entregue ao governo egípcio.

Ele contou, também, que a CIA já tinha tentado, em 1995, seqüestrá-lo quando vivia em Tirana (Bulgária), com a sua primeira esposa.

. Sempre à televisão Al Jazeera, o imã contou ter tentado o suícido por três vezes e por não mais suportar as diárias e bárbaras torturas no cárcere egípcio.

Para Omar, a sorte foi seu advogado ter descoberto que se encontrava no cárcere de Tora, no Cairo. Aí, pela pressão internacional, conseguiu, depois de mais de três anos de isolamento, manter contacto com as suas esposas e familiares.

O imã, contou, ainda, ter recebido a oferta de US$2,0 milhões e mais a nacionalidade norte-americana em troca do seu silêncio sobre o seqüestro e o envolvimento da CIA.

Ele disse ter recusado a oferta porque acredita na Justiça italiana, empenhada na apuração do seqüestro em seu território, com participação do SISMI, ou seja, do serviço de inteligência militar da Itália. Para o imã, o grande responsável pela atuação da CIa em território italiano foi o então primeiro ministro Sílvio Berlusconi, que disse esperar seja responsabilizado criminalmente.

WFM, 26 de fevereiro de 2007.

.....................

..................................

ABU OMAR, em Milão, antes do seqüestro pela CIA e SISMI.




RETORSPECTIVA: fevereiro de 2007.

Extraordinary Rendition.

Para o presidente George W.Bush, as regras do jogo mudaram depois de 11 de setembro e os 007 das agências norte-americanas têm “bill” de não-responsabilidade por ilegalidades perpetradas pelo planeta afora.

Na véspera da Segunda Guerra no Afeganistão, marcada entre Bush e a NATO (Organização do Tratado de Atlântico Norte) para a próxima primavera, as justiças da Itália e da Alemanha reagiram às violações constitucionais e decretaram prisões de 38 agentes da Central Intelligence Agency (CIA). Extradições também foram pedidas, tudo em face de seqüestros de pessoas nos dois países.

Na Itália, a magistratura do Ministério Público conseguiu provas irrefutáveis de o imã egípcio Abu Omar, em asilo político, ter sido seqüestrado na cidade de Milão. Isto por ações de 25 agentes secretos da CIA e um coronel do Pentágono. Os relatos do imã seqüestrado receberam confirmações, incluída a confissão do carabineiro Ludwig Peroni, já condenado em sede de "patteggiamento" (acordo entre acusação e defesa) e no gozo de sursis.

No trajeto entre a sua casa e a mesquita que dirigia em Milão, o imã, em fevereiro de 2003, teve de mostrar seus documentos para Ludwig, posicionado próximo a um furgão. Surpreendido pelas costas, o imã acabou imobilizado e atirado dentro do furgão. Transportado à base norte-americana de Aviano, que fica em território italiano, o imã seguiu num jatinho para o Cairo, com escala na Alemanha. O pequeno e moderníssimo jato pertencia ao time de basebol de Boston e, pela locação, a CIA pagou 5 mil euros (cerca de 25 mil reais) por hora de vôo. O imã passou mais de três anos incomunicável na prisão de Tora, no Cairo. As torturas eram diárias, até ser descoberto, em julho de 2006, pela esposa. Em janeiro de 2007, Abu Omar recebeu o benefício da liberdade provisória, mas está proibido de deixar a cidade de egípcia de Alexandria. No Egito e nos EUA, até agora, não se comprovou ligações do imã com redes terroristas internacionais. A respeito, o governo egípcio expedira mandado internacional de prisão contra o imã e, no início de 2003, os 007 da CIA saíram para caçá-lo em Milão.

O então primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi, abraça e beija o seu "chefe".


Na sexta-feira 16, depois das audiências preliminares sobre crime agravado de seqüestro de pessoa, a Justiça, por meio de decisão da juíza Caterina Interlandi, deu pela admissibilidade da imputação e designou,-- para 8 de junho próximo--, audiência de instrução, debates e julgamento do mérito da causa.

Na fase preliminar e quando ouvido, o então diretor geral do Servizio per le Informazioni e la Sicurezza Militare (SISMI), Nicolò Pollari, negou-se a dar informações. Alegou que o caso estava sob “Segredo de Estado”. Pollari, no entanto, frisou que jamais concordara com o seqüestro do imã pela CIA. Pelo que se sabe, o SISMI deu cobertura aos agentes da CIA. Indicado pelo então premier Sílvio Berlusconi, o general Pollari recebeu passe-livre no governo Romano Prodi. O responsável pelo departamento de terrorismo do SIMI à época, Marco Mancini, encontra-se preso desde julho de 2006, mas por acusação de corrupção e espionagem num caso a envolver a Telecom-Itália.

O primeiro a protestar contra a decisão da juíza foi o ex-premier Silvio Berlusconi, fâmulo de Bush como Tony Blair e primeiro suspeito de ter celebrado acordo secreto a permitir a chamada extraordinary rendition, inventada pela doutrina do presidente dos EUA.

A surpresa ficou por conta do demissionário premier Romano Prodi. O governo Prodi ajuizou, perante a Corte Constitucional, pedido de reconhecimento de “conflito de atribuições” com a Magistratura. Pelo alegado, a Procuradoria de Milão exorbitou e invadiu atribuições exclusivas do executivo, de modo a se imiscuir e escancarar “Segredo de Estado”. Em outras palavras, invadiu competência do Executivo.

Ocorre, no entanto, que a Corte Constitucional, num precedente de 1998, falou em relações lineares em matéria de “Segredo de Estado” e que devem ser equilibradas à luz do princípio da legalidade.

Como é sabido, a Itália não atravessa bons momentos depois de o Senado, por dois votos, deixar de aprovar a independente e altiva política externa conduzida pelo chanceler Massimo D´Alema.

BUSH-BERLUSCONI: aliados trapalhões.


Os magistrados do Ministério Público de Milão já esclareceram que, num estado de Direito, a extradição e a expulsão são os únicos remédios constitucionais e outra prática, como seqüestro, é criminosa. Portanto, a atuação da magistratura está legitimada na defesa da Constituição e da legalidade.

Por outro lado, qualquer 007 sabe que operação igual à ocorrida com o imã Abu Omar, -- e vale para o caso análogo sucedido na Alemanha--, não se consuma sem o aval do governo do país.
WFM/Carta Capital, fevereiro de 2007.

........................... .................................

.......................................

*Wálter Fanganiello Maierovitch/ revista Carta Capital.

CIA.




A CASA CAIU.

8/10/2006.

Abu Omar é o nome religioso de Nasr Mustafá, um imã de 42 anos que figurou no elenco dos dez mais procurados da Central Intelligence Agency (CIA). Contra Abu Omar pendia um mandado de prisão por terrorismo internacional, expedido pelo Egito.

Segundo a CIA e o governo do Egito, ele era um membro da alta burocracia da Al-Qaeda. Uma de suas tarefas consistia em recrutar camicases dispostos a explodir no Oriente Médio e, lógico, fazia a arregimentação entre os mais ansiosos em desfrutar no paraíso o otium cum dignitatem (ócio com dignidade), presente no imaginário dos “al-qaedistas”.

As duas esposas de Abu Omar, em 2003, começaram a se preocupar com a falta de notícias do marido: uma residente em Tirana (Albânia) na companhia dos dois filhos do casal. A outra, moradora em Alexandria (Egito) com os três rebentos do casamento.

Sem que a CIA soubesse Abu Omar vivia legalmente em Milão há cinco anos, na condição de exilado político. Seu desaparecimento ocorreu na manhã de 17 de fevereiro de 2003, quando percorria o curto trajeto entre a sua residência e a mesquita que freqüentava.

Naquele início de 2003, suspeitava-se que a CIA mantinha prisões secretas fora dos EUA, autorizadas por Bush. Isso para isolar, interrogar e torturar pessoas presas ou seqüestradas pelos 007 da CIA e sob acusação de associação com organizações terroristas.

A suspeita confirmou-se em setembro, quando o presidente Bush, em entrevista coletiva, admitiu a manutenção de cárceres secretos no exterior, evidentemente com violação a todas as conquistas universais no campo dos direitos humanos.

Na tentativa de emplacar uma maioria parlamentar em face das eleições de novembro de 2006, Bush, que aposta no medo do cidadão norte-americano, apresentou uma proposta de alterações legislativas, muitas delas já postas em prática e condenadas pela Suprema Corte de Justiça. O pacote de barbáries explicita até as hipóteses de interrogatórios sob tortura. Em resumo, algo um pouco mais liberal do que o estabelecido pelo direito canônico do tempo da Inquisição.

Com relação a Abu Omar, a magistratura do Ministério Público de Milão, a mesma da Operação Mãos Limpas, concluiu ter ocorrido seqüestro. Pior ainda, numa ação da CIA em território italiano e com séria suspeita de cobertura ilegal pelo Sismi, sigla do Serviço para as Informações e a Segurança Militar Italiana, comandado pelo general Nicolò Pollari e subordinado ao Ministério da Defesa.

Em vez de uma carta rogatória do Egito dirigida à Justiça italiana para a prisão de Abu Omar, o governo Bush, pela CIA, resolveu abreviar o caminho e atentar contra a soberania nacional.

Como revelado pela promotoria italiana, a CIA mantinha um escritório de espionagem em Milão, dirigido por Robert Seldon Lady, vulgo Bob.




Coube ao espião Bob Seldon preparar a operação de seqüestro de Abu Omar, que contou com a participação de 13 pessoas. O imã acabou seqüestrado na via milanesa Gerzoni. Num furgão, foi levado até a base americana de Aviano, localizada na cidade italiana de Pordenone.

Num jatinho fabricado pela Gulftream e de propriedade de um time de beisebol de Boston (Sarasota Red Sox), alugado por 5 mil euros a hora de vôo, Abu Omar, com escala na Alemanha (base aérea de Ramstein), terminou a viagem no Cairo.

Para Montasser al Zayat, um dos advogados de defesa contratados, Abu Omar está no Cairo, no cárcere egípcio chamado Tora. O imã teria, ao estilo do PCC paulista, se comunicado por um celular clandestino.

Na execução do plano de seqüestro da CIA, coube ao maresciallo Ludwig (sargento na hierarquia dos carabineiros italianos) abordar Abu Omar e pedir-lhe a apresentação de passaporte.

No relato de Ludwig, nome de guerra de Luciano Pirioni, o imã permaneceu de costas para o furgão alugado pela CIA. Do furgão saíram cinco brutamontes que o arrastaram para o seu interior.

Um automóvel dirigido por pessoa designada pelo espião Bob Seldon recolheu Ludwig e ficou com os documentos e o celular de Abu Omar.

Ludwig, que tinha interesse de ingressar no mundo da espionagem, exultou ao receber, depois do seqüestro, a informação da sua designação para a embaixada italiana em Belgrado, a ganhar o triplo do soldo e muitas vantagens na carreira. Perante a Justiça, o maresciallo sustentou que o Sismi sabia de tudo, segundo informou-lhe Bob Seldon. Na semana passada, os promotores ouviram Pollari, o chefão do Sismi, mas o procedimento corre em segredo de Justiça.

Como se pode concluir, a CIA não respeita os Estados soberanos. No Brasil, os 007 da agência usam o disfarce de funcionários da embaixada dos EUA e circulam à vontade por todo o nosso país.

IBGF, 8/10/ 2006.

...........................................


.....................................................

.....................................

RETROSPECTIVA.

*Wálter Fanganiello Maierovitch.

-UM MUNDO DE 007.


IBGF, setembro 2006.




O segundo homem da Central Intelligence Agency (CIA) afirmou que espião(ã) é a segunda profissão mais antiga do mundo. Essa mesma certeza não tem Walter Laqueur, renomado estudioso do terrorismo internacional.

Na obra intitulada A World of Secrets (Um Mundo de Segredos), publicada em 1985, Laqueur sustenta que a prostituta e o espião têm igual antiguidade laborativa. Com propriedade, acrescenta “que a profissão de espião sempre foi a mais problemática do mundo”. Laqueur não esqueceu de lembrar as mudanças de papéis, ou seja, quando a prostituta vira espiã e vice-versa.

Apesar de inúmeros problemas, muitas histórias reais impressionam em termos de eficiência, de trapalhadas e até de tragédias, como a eliminação do pacífico brasileiro Jean Charles, barbaramente executado no metrô de Londres por covardes e despreparados agentes de inteligência da Scotland Yard.

O Sunday Times, semanário inglês sempre bem informado em termos de espionagem internacional, levantou uma impressionante ação do Mossad, que congrega a inteligência civil de Israel.

Um grupo especial do Mossad conseguiu, em fevereiro de 1999 e durante os funerais do rei Hussein da Jordânia, recolher uma amostra de urina do presidente sírio Hafez Assad. Por meio de modificações no banheiro do palácio real de Amã e colocação de um recipiente estéril na tubulação, o material acabou recolhido.

Encaminhada a urina ao laboratório do hospital Tel Hashomer de Tel-Aviv, descobriu-se que o inimigo Assad estava com o pé na cova. Apelidado de Leão de Damasco, Assad padecia de câncer de bexiga, era diabético e havia sofrido um infarto fazia pouco. Assad faleceu em 10 de junho de 2000, sem surpresa para Israel, embora poucos meses depois ocorresse uma nova Intifada, não antecipada pelo Mossad.

No campo das trapalhadas, o M16 e o M15 de Sua Majestade britânica, respectivamente, serviços de inteligência interna e externa, conquistaram a condição de primus inter pares (o primeiro entre os seus pares) dentre os serviços de inteligência.

Em julho deste ano, com a Copa do Mundo em curso e a seleção inglesa ainda na disputa, os 007 britânicos invadiram, na periferia de Londres, uma pequena casa onde moravam dois muçulmanos.

A dupla islâmica seria responsável pela execução de um plano terrorista da Al-Qaeda, voltado a detonar uma bomba suja: antraz ou agente químico letal.

Essa presumida ação aconteceria em 7 de julho, dia do primeiro aniversário do trágico ataque terrorista no metrô londrino. A tal bomba seria arremessada num pub lotado de torcedores ingleses, ainda no primeiro tempo da partida.

Os muçulmanos foram interrogados e o domicílio revirado. Depois de uma semana de prisão, foram soltos, com pedidos de desculpas: um informante com problemas mentais havia sido o denunciante.

Depois de meio século de Guerra Fria e sob o impacto de ações terroristas espetaculares (Nova York, 11 de setembro de 2001; Madri, 11 de março de 2004; Londres, 7 de julho de 2005), os 007 passaram a poder tudo: prender, seqüestrar, torturar, grampear, violar correspondências, soltar boatos, mentir e matar.

Muitas vezes, quando são chamados pela Justiça, invocam segredo de Estado. O certo é que pouca coisa mudou depois da queda do Muro de Berlim: a CIA tem o mesmo número de agentes.

A Lubianka, prédio-sede da KGB que ficou conhecido como palácio do horror, continua a abrigar os 007. A sigla mudou para FSB e os separatistas chechenos viraram a bola da vez. Na Bielo-Rússia, o serviço secreto continua igual, mantendo o nome KGB.

A hegemonia dos EUA gerou uma certa displicência da CIA, aproveitada pelos terroristas da Al-Qaeda. No dia 10 de setembro de 2001, a National Security Agency tinha interceptado uma conversa telefônica mantida entre dois terroristas da organização: “Amanhã é o dia D”, disseram.

Apenas no dia seguinte, depois da derrubada das torres e de parte do Pentágono, a fita contendo as gravações foi processada. Na ocasião, a CIA e o FBI contavam com apenas 40 homens que conheciam o árabe. Hoje já são 200 e, até agora, a captura de Osama bin Laden mostra-se incerta, apesar da ajuda por parte da agência secreta do Paquistão, que atende pela sigla ISI.

Os serviços secretos ocidentais procuram disfarçar as derrotas para o terrorismo com falsas notícias de operações sobre desbaratamentos de planos audaciosos. Com isso, mantêm a sociedade civil temerosa e anestesiada diante de permanentes violações aos direitos individuais.

No Oriente, a arapongagem que mais cresceu foi a chinesa, tão secreta a ponto de não ter nome. Seu responsável é Hu Jintao, chefe do Partido Comunista chinês. Faz parte desse serviço de inteligência um núcleo de 007 a cuidar, no exterior, de dissidentes políticos e religiosos, em especial os adeptos do Falun Gong, um movimento de inspiração budista proscrito da China.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet