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Terror//Insurgência

 

TERROR. Premiados jornalistas que descobriram como a CIA sequestrou Abu OMar.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

ABU OMAR, fotografado pela CIA em rua de Milão.




IBGF,20 de novembro 2006.

Os jornalistas Guido Olímpio e Paolo Biondani, ambos do jornal italiano Corriere della Sera, desvenderam, em julho de 2006, o seqüestro de Abu Omar.

Em razão da matéria de jornalismo investigativo receberam, em Madrid, o prêmio de Menção Honrosa, conferido pelo jornal El Mundo, na sua 15a.edição.

O seqüestro consumou-se em Milão e foi executado pela CIA, com apoio do Serviço Secreto Italiano.

O religioso Abu Omar vivia regularmente em Milão, na condição de exilado político.

O prêmio repórter do ano foi conferido ao inglês Frank Gardner, da BBC. ............

RETROSPECTIVA: 8 de outubro de 2006.
A CASA CAIU.

Abu Omar é o nome religioso de Nasr Mustafá, um imã de 42 anos que figurou no elenco dos dez mais procurados da Central Intelligence Agency (CIA). Contra Abu Omar pendia um mandado de prisão por terrorismo internacional, expedido pelo Egito.

Segundo a CIA e o governo do Egito, ele era um membro da alta burocracia da Al-Qaeda. Uma de suas tarefas consistia em recrutar camicases dispostos a explodir no Oriente Médio e, lógico, fazia a arregimentação entre os mais ansiosos em desfrutar no paraíso o otium cum dignitatem (ócio com dignidade), presente no imaginário dos “al-qaedistas”.

As duas esposas de Abu Omar, em 2003, começaram a se preocupar com a falta de notícias do marido: uma residente em Tirana (Albânia) na companhia dos dois filhos do casal. A outra, moradora em Alexandria (Egito) com os três rebentos do casamento.

Sem que a CIA soubesse Abu Omar vivia legalmente em Milão há cinco anos, na condição de exilado político. Seu desaparecimento ocorreu na manhã de 17 de fevereiro de 2003, quando percorria o curto trajeto entre a sua residência e a mesquita que freqüentava.

Naquele início de 2003, suspeitava-se que a CIA mantinha prisões secretas fora dos EUA, autorizadas por Bush. Isso para isolar, interrogar e torturar pessoas presas ou seqüestradas pelos 007 da CIA e sob acusação de associação com organizações terroristas.

A suspeita confirmou-se em setembro, quando o presidente Bush, em entrevista coletiva, admitiu a manutenção de cárceres secretos no exterior, evidentemente com violação a todas as conquistas universais no campo dos direitos humanos.

Na tentativa de emplacar uma maioria parlamentar em face das eleições de novembro de 2006, Bush, que aposta no medo do cidadão norte-americano, apresentou uma proposta de alterações legislativas, muitas delas já postas em prática e condenadas pela Suprema Corte de Justiça. O pacote de barbáries explicita até as hipóteses de interrogatórios sob tortura. Em resumo, algo um pouco mais liberal do que o estabelecido pelo direito canônico do tempo da Inquisição.

Com relação a Abu Omar, a magistratura do Ministério Público de Milão, a mesma da Operação Mãos Limpas, concluiu ter ocorrido seqüestro. Pior ainda, numa ação da CIA em território italiano e com séria suspeita de cobertura ilegal pelo Sismi, sigla do Serviço para as Informações e a Segurança Militar Italiana, comandado pelo general Nicolò Pollari e subordinado ao Ministério da Defesa.

Em vez de uma carta rogatória do Egito dirigida à Justiça italiana para a prisão de Abu Omar, o governo Bush, pela CIA, resolveu abreviar o caminho e atentar contra a soberania nacional.

Como revelado pela promotoria italiana, a CIA mantinha um escritório de espionagem em Milão, dirigido por Robert Seldon Lady, vulgo Bob.

ABU OMAR, fotografado pela CIA em rua de Milão.




Coube ao espião Bob Seldon preparar a operação de seqüestro de Abu Omar, que contou com a participação de 13 pessoas. O imã acabou seqüestrado na via milanesa Gerzoni. Num furgão, foi levado até a base americana de Aviano, localizada na cidade italiana de Pordenone.

Num jatinho fabricado pela Gulftream e de propriedade de um time de beisebol de Boston (Sarasota Red Sox), alugado por 5 mil euros a hora de vôo, Abu Omar, com escala na Alemanha (base aérea de Ramstein), terminou a viagem no Cairo.

Para Montasser al Zayat, um dos advogados de defesa contratados, Abu Omar está no Cairo, no cárcere egípcio chamado Tora. O imã teria, ao estilo do PCC paulista, se comunicado por um celular clandestino.

Na execução do plano de seqüestro da CIA, coube ao maresciallo Ludwig (sargento na hierarquia dos carabineiros italianos) abordar Abu Omar e pedir-lhe a apresentação de passaporte.

No relato de Ludwig, nome de guerra de Luciano Pirioni, o imã permaneceu de costas para o furgão alugado pela CIA. Do furgão saíram cinco brutamontes que o arrastaram para o seu interior.

Um automóvel dirigido por pessoa designada pelo espião Bob Seldon recolheu Ludwig e ficou com os documentos e o celular de Abu Omar.

Ludwig, que tinha interesse de ingressar no mundo da espionagem, exultou ao receber, depois do seqüestro, a informação da sua designação para a embaixada italiana em Belgrado, a ganhar o triplo do soldo e muitas vantagens na carreira. Perante a Justiça, o maresciallo sustentou que o Sismi sabia de tudo, segundo informou-lhe Bob Seldon. Na semana passada, os promotores ouviram Pollari, o chefão do Sismi, mas o procedimento corre em segredo de Justiça.

Como se pode concluir, a CIA não respeita os Estados soberanos. No Brasil, os 007 da agência usam o disfarce de funcionários da embaixada dos EUA e circulam à vontade por todo o nosso país.

IBGF, 8/10/ 2006.


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