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Terror//Insurgência

 

TERROR: As Diferentes Faces da Al Qaeda.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL



Apesar dos elogios póstumos, a dupla Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri estava disposta a fritar Abu Musab al-Zarqawi, comandante até junho do braço da Al-Qaeda no Iraque.

Na visão do ideólogo da Al-Qaeda, o médico egípcio Al-Zawahiri, faltava a Zarqawi tino político para celebrar alianças, conquistar a sociedade civil e formular juízos sobre a conveniência e a oportunidade de ataques terroristas espetaculares, até para não banalizá-los. No particular, o doutor Al-Zawahiri referia-se às ações terroristas promovidas por Zargawi fora das fronteiras do Iraque: Arábia Saudita e Jordânia.

Para a cúpula, Al-Zarqawi era apenas um militar corajoso, com combates no Afeganistão ao lado de Bin Laden e do mulá Omar, na Argélia, junto aos salafitas, e na Jordânia contra a dinastia hachemita dos Hussein.

Em junho e setembro, os norte-americanos resolveram os problemas para a cúpula de governo da Al-Qaeda, com a morte de Al-Zarqawi e a prisão do seu vice, Hamed Jumaa, conhecido por Abu Rama. Para o lugar de chefe da Al-Qaeda no Iraque, o doutor Al-Zawahiri designou o obediente e submisso Abu Ayyb al-Masri.

Dois aviões militares norte-americanos despejaram bombas sobre a casa onde se escondia Al-Zarqawi. A descoberta desse esconderijo, na cidade de Baquba, deveu-se às informações mandadas passar por chefes de clãs inconformados com a arrogância e a prepotência do sunita Al-Zarqawi, sempre violento com os civis e inconciliável com os líderes xiitas.

Pelo que agora se sabe, Al-Zarqawi atuava de forma independente. Não submetia os projetos à aprovação de Bin Laden e Al-Zawahiri. Além disso, não consultava os ulemás locais (estudiosos e doutores da ciência religiosa islâmica e da Sharia) e chefes de clãs sunitas.

Esse comportamento de Al-Zarqawi rendeu-lhe advertências e ordens a cumprir, como revelou carta divulgada nesta semana pelo Comando Militar Central dos EUA. A mencionada carta está datada de dezembro de 2005 e foi encontrada nas ruínas da casa-esconderijo alvejada em junho deste ano. Ela começa com elogios, passa por puxões de orelha e termina com uma ordem peremptória. Por delegação de Bin Laden e Al-Zawahiri, a carta está assinada pelo alto dirigente al-qaedista Atiyah Abd al-Rahman, um líbio de 37 anos.

Na introdução, está dito que os líderes da Al-Qaeda estão escondidos no Paquistão, na região do Waziristão, e que esperavam a chegada de emissários de Al-Zawahiri para transmitir orientações e corrigir rumos.

A referida carta acabou de ser liberada para divulgação pelo Comando Militar Central norte-americano. Nela, Al-Zarqawi foi advertido de que “a política deve prevalecer sobre o militarismo”. Consta, também, a recomendação para deixar o culto à personalidade e se aconselhar com os mais sábios.

No final da carta vem estampada a peremptória ordem: “Evite matar religiosos e chefes de tribos. Na Argélia, nos anos 90, estávamos a ponto de vencer, mas fomos destruídos pelas nossas próprias mãos, pois desprezamos a sustentação que nos dava a gente argelina. Como isso aconteceu? Simples de responder, degolamos e liquidamos milhões de inocentes”.

A referência à Argélia associada aos últimos elogios do sunita Al-Zawahiri ao xiita Hezbollah libanês, ao seu líder Nasrallah e aos palestinos do Hamas, mostra a face oportunista, e nada fundamentalista, da Al-Qaeda. Em outras palavras, marcar presença em todos os conflitos, dar a eles conotação jihadista e pregar união, enquanto interessar.

Na carta, há referência à guerra civil na Argélia, que durou sete anos, causou 150 mil mortes e findou, em 1999, com a denominada “lei para a concórdia civil”.

Essa guerra civil, com os militares a impedir o acesso ao poder do Partido da Frente Islâmica de Salvação (FIS), vencedor do primeiro turno da eleição de 1991 na Argélia, constituiu-se no caldo necessário para a formação de milícias islâmicas. Essas, no entanto, passaram a massacrar os civis, na esperança de com isso enfraquecer os militares. Daí, a observação de Al-Zawahiri na carta a Al-Zarqawi.

Hoje, o braço da Al-Qaeda na Argélia atende pela sigla GSPC, ou seja, Grupo Salafita para a Prédica e o Combate. Na semana passada, foi desmantelada a rede internacional que o financiava: em três anos foram enviados 620 mil euros da Suíça, Inglaterra e Itália.

O importe foi utilizado em dois ataques, autorizados pela cúpula da Al-Qaeda, ocorridos em 2005, nas cidades de Biskra e Chief, com 18 civis mortos e dezenas de feridos. Essa é a outra face da Al-Qaeda, em contradição com aquela que, no Iraque, manda poupar civis. Em síntese, para cada lugar uma ordem, sem nenhuma coerência.

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IBGF, outubro de 2006.


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