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Colaborador- Carta Aberta.

 

A Terceira Onda do Crime Organizado

Por Mauro Chaves

As duas primeiras ondas do crime organizado, no Brasil, não ocorreram de maneira sucessiva. Têm convivido simultaneamente e agora começam a integrar-se numa terceira. A primeira onda diz respeito a amplos esquemas de corrupção institucionalizada, na política e na administração pública. Aí temos o tráfico de influência, o sistema de propinas patrocinado por empreiteiras, a malversação de recursos, o superfaturamento e tudo o mais que se ilustrou com o Esquema PC", a atuação dos anões do orçamento" etc.

A segunda onda se refere ao poder de um verdadeiro Estado delinquencial, um Estado Paralelo que se instalou em muitas regiões do País e se agigantou, por causas diversas, em determinadas unidades da federação, como Rio de Janeiro e Estados Amazônicos. Diferentes são as avaliações quanto às origens desse fenômeno. No Rio, para muitos o jogo do bicho começou como uma prática ingênua e foi se transformando, ao longo do tempo, graças à conexão com o narcotráfico, nas modalidades mais pesadas de criminalidade.

Nos Estados Amazônicos, onde a cumplicidade dos orgãos policiais com a criminalidade tem levado a paroxísmos de violência, sujeitando tais Estados a permanente risco de intervenção federal, as conexões do mundo oficial com o das drogas fazem lembrar a Colômbia, cada vez mais marginalizada da comunidade das Nações, justamente por causa desse tipo de associação com os cartéis do narcotráfico.

Quando falamos em terceira onda do crime organizado queremos nos referir ao crescimento avassalador do poderio das associações criminosas em tempos de economia globalizada. Da mesma forma que os sistemas de produção industrial, de serviços e de comercialização deram um salto estrutural, com a pulverização dos fornecimentos e a rapidez da informação on line, as organizações criminosas se sofisticaram e aumentaram exponencialmente sua participação no mercado" global.

Já se fala não mais em dezenas mas em centenas de bilhões a dólares, que vão sendo lavados no mundo inteiro, camuflando-se em empresas de fachada dos mais diferentes setores de atividade. E o mais grave é que, no mundo inteiro, as organizações criminosas potencializam seu grau de influência - ou de infiltração - nos organismos e instituições do Estado.

Sabendo-se o grau de vulnerabilidade das instituições públicas brasileiras a um esforço delinqüencial organizado em vasta rede - e aqui bastaria citar o exemplo da gigantesca fraude à Previdência - é fácil avaliar os novos riscos que corre nossa sociedade. Porisso é que, ao entrarmos na economia global, precisamos nos organizar muito bem para enfrentar a terceira onda do crime organizado.

Talvez por ter sido um dos países mais profundamente atingidos pela atuação das grandes organizações criminosas, é da Itália que tem vindo os melhores roteiros de combate. Os juízes e promotores da Operação Mãos Limpas" tem empreendido uma luta sem tregua para restabelecer - ou estabelecer? - a punibilidade na sociedade italiana.

Aqui no Brasil, o magistrado e professor Wálter Fanganiello Maierovitch, conhecedor arguto do sofisticado modus faciendi das organizações criminosas internacionais, tem desenvolvido um trabalho pioneiro, visando, justamente, dar subsídios para que nossa sociedade e nossa instituições possam organizar-se para enfrentar essa terceira onda. Trata-se de atuação exaustiva e destemida, que vem sendo cada vez mais prestigiada por quantos se motivem pelo verdadeiro interesse público - o que, em outros termos, significa nada mais do que responsabilidade pela segurança de nossos filhos e netos.

Mauro Chaves é jornalista, escritor e membro do Conselho Consultivo do I.B.G.F.


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