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Colaborador- Carta Aberta.

 

Brasil: esconderijo de mafiosos

Por Renato Lombardi

O Brasil tornou-se o refúgio dos mafiosos italianos na América do Sul. Um levantamento feito pela Polícia Internacional (Interpol) indica que mais de 50 criminosos estariam vivendo em diversas cidades brasileiras, 25 deles em São Paulo. Os mafiosos moram em apartamentos de luxo, casas de campo, e trabalham na montagem de esquemas para o tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro.

Eles fazem parte, segundo a Interpol, de diversas facções da máfia, principalmente a Cosa Nostra, da Sicília, e a Camorra, de Nápoles. A Polícia Federal brasileira tem mantido contato com os policiais italianos encarregados de localizar os criminosos em todos os países. No Brasil, os resultados têm sido considerados excelentes.

Em janeiro de 1995, os federais, com as informações passadas pelo carabinieri do setor antimáfia, localizaram em São Paulo dois mafiosos considerados de primeira linha: Gaetano Sant’Angelo e Vicenzo Ferrantelli, condenados a 18 anos pela Justiça italiana pelo assassinato de dois policiais na região de Alcamo, em Palermo. Sant’Angelo foi preso em S. Roque, cidade localizada a 50 quilômetros da Capital, onde era caseiro em um sítio. Ferrantelli, que trabalhava com ele, conseguiu escapar.

Nas apurações feitas pela polícia italiana, depois de fugir de Palermo, Ferrantelli e seu colega teriam entrado no Brasil pelo Paraguai e seguido diretamente para Itapetininga, interior do Estado de São Paulo, onde receberam a ajuda de um padre da Ordem dos Franciscanos dos Pés Descalços. De Itapetininga, Ferrantelli foi para São José dos Campos, no Vale do Paraíba, e depois juntou-se a Sant’Angelo em São Roque.

Os federais souberam que ele teve a cobertura de alguns padres italianos que moram há muitos anos no Brasil. Sant’Angelo e Ferrantelli são acusados de participar da Cosa Nostra e con-siderados da mesma expressão de Tommaso Buscetta, Umberto Ammaturo e Francesco Toscanino. Os três entraram na lista dos pentiti, arrependidos, e colaboram com suas informações para que o governo italiano possa cada vez mais penetrar nos segredos mafiosos.

A Polícia Federal brasileira tem, nos últimos anos, realizado muitas investigações e efetuado prisões de mafiosos através do escritório da Interpol em São Paulo, chefiado por um delegado federal. Os policiais têm realizado apurações das movimentações financeiras e dos esquemas de fachada empresarial dos mafiosos. Souberam que Rocco Morabito, mafioso calabrês, vem tentando montar em São Paulo uma rede financeira para operar o tráfico.

Parte do grupo de Morabito foi descoberto em julho de 1992 quando tentava exportar para a Itália, pelo porto de Fortaleza, no Ceará, 600 quilos de cocaína. Ele tinha escritório de uma empresa de importação e exportação no Itaim Bibi, Zona Sul da Capital. O ultimo registro da passagem de Morabito pelo Brasil é de 10 de abril de 1992. Ele esteve em São Paulo, sendo recebido no aeroporto internacional de Cumbica, em Guarulhos, pelo traficante jordaniano Waleed Issa Khmays, preso atualmente na Casa de Detenção de São Paulo, condenado a nove anos de reclusão por tráfico.

Morabito e sua mulher tinham embarcado em Zurique, na Suíça, e seguiram para o Bairro do Morumbi, na Zona Sul da Capital, para uma mansão alugada pelo traficante na área mais nobre da cidade. Suspeito de atentados terroristas na Itália, Waleed associo-se a Francesco Sculli, sobrinho de Morabito, e montou o esquema para o envio de drogas para o Exterior usando a Praia do Pacheco, no Ceará, para escapar do cerco da Polícia Federal.

Durante vários meses, os federais brasileiros acompanharam toda a movimentação do grupo e souberam que Waleed tinha ligações diplomáticas em Brasília. No Brasil, quem cuidou de toda a infra-estrutura do grupo internacional foi Dion Luiz Marques, estelionatário e que se transformou em traficante. Ele se encarregava de comprar a cocaína na Bolívia e de embarcá-la em navios para a Europa e os Estados Unidos.

Na casa de Waleed, no Morumbi, os policiais federais encontraram do-cumentos que comprovavam a ligação dele com a máfia italiana. Relatórios de operações financeiras, um metralhadora com silenciador e muni-ção estavam num armário de fundo falso. Havia agendas com nomes e telefones de estrangeiros envolvidos com o tráfico de cocaína: italianos, jordanianos, libaneses, espanhóis e também nomes de brasileiros.

- Bahia

Na Bahia vivem, segundo as informações do grupo Antimáfia italiano, dezenas de mafiosos que investiram dinheiro na compra de terrar para o plantio de cacau e na rede hoteleira. Muitos usam nomes falsos. Outros têm suas verdadeira identidades. O mafioso Filippo Abate, de 38 anos, está na relação dos 500 mafiosos mais procurados em diversos países da Europa e da América Latina.

Ele foi preso em agosto, na Bahia, onde morava havia dois anos. Antes, Abate morou na Zona Sul de São Paulo, onde se passava por comerciante de calçados. Agentes da Polícia Federal receberam o mandado de prisão preventiva expedido pelo Supremo Tribunal Federal rasileiro, que decretou a pedido da Justiça italiana. O mafioso está condenado a 24 anos e será extraditado.

Antonino Salamone, de 76 anos, um dos mafiosos do alto escalão da Cosa Nostra, é fugitivo da prisão italiana. Em abril de 1993, foi preso pela Polícia Federal em São Paulo quando voltava do cooper diário no Parque do Ibirapuera, Zona Sul da Capital. Estava entrando em seu prédio, o condomínio Outeiro, de classe média alta no bairro do Paraíso, quando os federais o algemaram.

Salamone comprara o apartamento por US$ 400 mil em 1990 e dizia aos vizinhos que era aposentado e vivia do dinheiro que recebia da Itália. Sua segunda mulher, Girolama Greco, também é de família mafiosa e os dois filhos, Francesco e Pietro, moram em São Paulo.

Nascido na Sicília, Salamone dividia as honras de capo com Stefano Bontade, Totó Riina e Gaetano Baladamenti. Era o chefe da família de San Giuseppe Jato, e sua última prisão na Itália, em 1984, obedeceu mandado expedido pelo Tribunal de Palermo. Lá ele conseguiu prisão domiciliar e, com a ajuda da Cosa Nostra, fugiu para o Brasil.

A cúpula o encarregara de matar Tommaso Buscetta, que estava em São Paulo montando uma empresa para enviar cocaína para a Itália e os Estados Unidos. Mas, Salamone não teve coragem de castigar por traição o amigo de velhos tempos. Para escapar das punições da máfia por não ter cumprido suas ordens, o mafioso fez um acordo: voltou para a Itália em 1986 e recomendou às autoridades anfimáfia que anunciassem a sua prisão.

Teve a pena reduzida e conseguiu fugir da permanência domiciliar meses depois. Voltou ao Brasil e, foi condenado na Sicília a 12 anos. No começo de 1992, os carabinieri souberam que estava em São Paulo e passaram as informações para o Ministério da Justiça.

Os federais o prenderam e, depois de passar algum tempo na cadeia, Salamone foi libertado e está vivendo em São Paulo sem problemas. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio de Mello, não concordou com a extradição de Salamone.

* Renato Lombardi é conselheiro do I.B.G.F; jornalista do jornal do ESTADO DE S. PAULO.


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