São Paulo,  
Busca:   

 

 

Entrevistas

 

GIANNI CARTA entrevista BOB DENAR, o mais famoso Cão de Guerra.

Por Gianni Carta

O jornalista Gianni Carta acaba de lançar a obra "Velho Novo Jornalismo", pela editora Códex. É respeitado correpondente internacional, tendo passado 14 anos nos EUA. Há 10 anos vive e trabalha em Londres, realizando pesquisas, reportagens e livros. É correspondente da Revista Carta Capital e, além de reportagens, assina uma coluna ´Trópico de Câncer". No capítulo 1 do livro (Guerreiros, aventureiros e armas) recém-lançado, Gianni Carta apresenta a entrevista com BOB DENARD, abaixo reproduzida.

BOB DENARD: CÃO DE GUERRA

Bob Denard, o mercenário veterano, está tomando chá no bar de um hotel parisiense. Ele está tranqüilo e você não diria que em poucos dias sentará num banco de réus acusado de assassinato.

“Estou acostumado a viver sob pressão”, explica o homem que diz sempre ter trabalhado sob as ordens do SDECE, o equivalente francês da CIA. “Estive preso, condenado, e fui absolvido em outras ocasiões.” Após uma pausa, o mercenário de 70 anos emenda: “Sempre trabalhei com a aprovação da França.”

Denard - que inspirou o romance de Frederick Forsyth, Cães de Guerra - está sendo acusado pela morte de Ahmed Abdallah, ex-presidente da República de Comoros, composta de ilhas no Oceano Índico, uma ex-colônia francesa.

Ele era o chefe da guarda presidencial de Abdallah e estava presente no momento do assassinato, mas nega cumplicidade. Nas suas memórias, Pirate de la Republique , ele descreve o evento daquela noite de novembro, dez anos atrás: Abdallah estava sentado falando com Denard e dois de seus asseclas quando escutaram explosões. Denard diz que tentou acalmar o presidente, àquela altura bastante agitado, quando Jaffar, o guarda-costas de Abdallah, entrou na sala e começou a dar tiros. As balas da Kalachnikov perfuraram o corpo de Abdallah.

Na entrevista, peço a Denard para repetir sua versão da história.

“Prefiro não falar sobre isso agora”, ele retruca calmamente. “E não acho que eu deva justificar algo que não fiz.” O homem assassinado, ele acrescenta, era seu amigo. “Seria um idiotice de minha parte matar um amigo para o qual trabalhei dez anos.”

Denard sabe que seus segredos bem guardados poderiam revelar como certos governos europeus e os Estados Unidos realmente atuaram na África nos últimos 50 anos. “Nunca falo sobre as pessoas para as quais trabalhei. Aprendi isso com meu pai, um ex-soldado que participou da Resistência (contra os alemães, na Segunda Guerra).”

Quando era menino, conta o entrevistado, seu pai lhe dava tapas na cara se ele contasse que alguém o tinha ofendido ou brigado com ele. “Aprendi minha lição”, explica, visivelmente orgulhoso da maneira como se comporta.

Embora discreto, Denard admite que trabalhou para o SDECE, MI6 (serviços secretos britânicos) e para a CIA. No Iêmen trabalhou para a inteligência britânica. Em Angola, com a aprovação da CIA, ajudou Jonas Savimbi, o líder da UNITA (União pela Independência Total de Angola). “Os serviços secretos franceses sempre sabiam quando eu estava trabalhando para serviços estrangeiros de espionagem. Havia um entendimento entre os serviços secretos de diferentes países.”

Um ex-agente da SDECE, Michel Roussin, descreveu Denard como ‘’um homem fiel, honesto e eficaz”. Segundo Roussin, o mercenário atuou sob identidade fictícias e passaportes falsos - e sempre respeitou prazos. O papel de Denard era “garantir a estabilidade geopolítica da região”.

Nas palavras do mercenário, seu objetivo era “conter” o crescimento do comunismo e do fundamentalismo islâmico na África. Ele diz que o papel de um soldier of fortune (ou “Corsário da República’’, como ele gosta de ser chamado) é simples: às vezes, governos querem proteger seus “interesses” e, ao mesmo tempo, não querem assumir a responsabilidade pelos seus atos. É nessas ocasiões que convocam Bob Denard. Tudo é feito da maneira mais secreta possível. “Nós não podemos admitir que somos contratados por eles (governos). É assim que funciona: ou você aceita ou cai fora.”

Denard pára de falar. Agora está encarando um homem sentado a uma mesa atrás de mim.

Ele estava escutando nossa conversa?

“Talvez não. Mas queria que se desse conta que percebi que estava olhando para mim.”

As coisas, claro, mudaram para o Denard de identidades fictícias e passaportes falsos. Na França, todo mundo o reconhece. Sua fama internacional se alastrou . Há pouco tempo, Clint Eastwood quis apertar sua mão e negociar o preço pelos direitos de sua história. Denard agora tem um site na Internet no qual detalhes sobre seu sinuoso percurso são descritos. No site, tem até um jogo virtual, em francês, no qual você pode descobrir se está em forma física e mental para ir ao combate. Mas o que leva uma pessoa reservada como Denard a publicar suas memórias e a lançar um site na Internet? “À uma certa altura você tem de existir”, retruca Denard, um homem do campo que tornou-se famoso devido às suas aventuras.

Nascido em Grayan, um vilarejo na região de Bordeaux, Denard tinha 10 anos quando a Segunda Guerra Mundial começou. Seu pai sugeriu que ele um dia fosse para o exército - “meus genes e as circunstâncias fizeram de mim um soldado” - e, ao completar 16 anos, realizou seu sonho: virou soldado e foi enviado para a Indochina. Certa noite, após ter sorvido generosas quantidades de álcool com alguns colegas, Denard destruiu a murros e pontapés um bar em Saigon. Ao ser questionado, ignorou o conselho de seu superior e contou a verdade.

Resultado: passou dois meses atrás das grades. Foi então - após ter arruinado sua carreira de soldado - que começou seu perscurso como soldier of fortune.

O próximo emprego de Denard foi na polícia do Marrocos. Quando o premiê francês Pierre Mendès-France visitou Rabat, a capital, Denard foi cúmplice numa tentativa para assassiná-lo. O plano, motivado pelo fato de Mendès-France ter deixado o Marrocos cair “nas mãos de terroristas”, foi um fiasco. O premiê já não estava em Rabat quando eles entraram em ação. Denard, o motorista na operação, foi preso durante quatro meses.

“Eu não queria fazer parte daquilo”, admite Denard. “Mas estávamos frustrados porque os terroristas que prendiamos eram soltos no dia seguinte. E quando nos viam nos mandavam para aquele lugar.”

De volta à França, Denard viu um anúncio num jornal que o interessou: precisa-se de mercenários para ir ao Congo Belga (agora República Democrática do Congo). Numa questão de semanas, Denard se viu lutando, sob a liderança de Moise Tshombe, pela independência de Katanga. De lá rumou para o Iêmen para restabelecer a monarquia de el-Badr.

Mas o verdadeiro amor de Denard sempre foi a África.

Ele regressa para o Congo, onde, dessa vez, trabalha para Mobutu Sese Seko, um dos mais violentos ditadores na história da África - “um grande homem”, segundo Denard. Mas o mercenário foi obrigado a virar a casaca quando, mais uma vez, os serviços secretos franceses o forçaram a lutar do lado de Moise Tshombe. Ferido em combate, em 1967, Denard foi levado para um hospital na Rodésia (agora Zimbábue), onde foi operado.

“Posso emprestar teu dedo indicador?” Ele o coloca em cima de sua cabeça. Fico impressionado com o tamanho do buraco. Denard sorri. “É um milagre que eu esteja vivo.”

Outra conseqüência do acidente é mais óbvia. Denard, que quase ficou paralisado, manca. Mas apesar disso, ele está em excelente forma para sua idade. E, aprovemos ou não seu passado, sua maneira passional de contar histórias do passado é aliciante. Ele explica, por exemplo, como conseguiu levar armas para Biafra, na Nigéria, e como, sob ordens do Rei Hassan, do Marrocos, organizou um golpe - abortado - contra o líder líbio Muamar Kadhaffi.

Mas, inevitavelmente, a conversa nos conduz de volta para as Comoros. Consta que em 1975 Denard foi instruído a depor Abdallah, o primeiro presidente eleito nas ilhas. No seu lugar havia sido colocado um jovem populista, Ali Soilih. Três anos mais tarde, Denard, comandando 46 homens, derrubou Soilih - então chamado de o Pol Pot do Oceâno Índico - e reinstalou Abdallah. Durante a próxima década, a Garde Presidentielle de Denard, financiada por Pretoria (em troca do direito, concedido por Denard, de usar as Comoros como um entreposto para contrabandear armas para o Irã), era a força militar e econômica do país. Denard, chamado de “vice-roi de Comoros”, estava contente. Acabava de se casar com uma beldade local (sua sexta mulher) e parecia disposto a viver para sempre nas Comoros. No entanto, em 1989 Abdallah comecou a ser pressionado pelo presidente Frederik Willem de Klerk para que se desfizesse dos mercenários.

Será que Denard ficou furioso porque Abdallah achou que poderia governar sem a Garde?

“São histórias fabricadas pela imprensa”, diz, levemente irritado com minha pergunta. “Claro, nós tínhamos uma certa autonomia, mas construimos hotéis e uma fazenda”. Ele acrescenta que quando foi embora as coisas desandaram. Passaram a comer touros, conta o mercenário. Não havia mais vacas. “Você tem que enteder que os habitantes das Comoros são calmos demais, e eles não têm o senso de nação.”

Após a morte de Abdallah, Denard passou três anos em Pretoria. Em 1993 voltou para a França, ano em que foi julgado por um golpe em Benin, 18 meses antes. Muita gente acha que houve um acordo nos bastidores: em troca do silêncio, Denard foi absolvido.

Três anos mais tarde, Denard voltou mais uma vez para as Comoros, dessa vez para derrubar o sucessor de Abdallah, o ex-ministro da Justiça das ilhas, Mohamed Djohar. Denard gastou mais de 10 milhões de reais de seu próprio bolso para financiar o novo golpe. “Foi basicamente uma questão de honra.” Atrocidades, sustenta Denard, estavam sendo cometidas por Djohar. “Eu precisava fazer algo.” Porém, o Exército francês interveio e trouxe Denard para a França. Os serviços secretos sabiam que ele estava preparando mais um golpe? “Se não sabiam seria algo muito surpreendente”, retruca Denard. Ele toma mais um gole de chá, e, com um sorriso de Mona Lisa, conclui: “Eu acredito no sistema judicial francês.”

No julgamento que aconteceu após nossa entrevista, Denard foi absolvido por falta de provas.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet