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ALBERTO GIORDANO- fundador da NarcoNews

ENTREVISTA

Entrevista com o norte-americano ALBERTO GIORDANO, conhecido por Al Giordano. Ele é jornalista e fundador da Narco News. Dirige, também, a Escola de Jornalistas Autênticos da Narco News.

-por IBGF-WFM

WFM: Primeiramente, um perfil seu e como se envolveu nessa luta.

AG: Sou jornalista, mas no sentido autêntico porque, ao contrário de meus colegas que já estão controlados pelos poderes do mercado, acredito que o jornalismo deve ser a serviço do povo, das massas, de todo o povo, não só do povo que quer comprar produtos dos anunciantes de jornais, mas os jovens, os trabalhadores, toda a sociedade civil e os marginalizados também.

WFM: A sua publicação tem em quantos países?

AG – A Narco News é mundial. O site na internet, www.narconews.com, tem já três milhões de visitas a cada mês. Comecei esse projeto no ano 2000, sou jornalista desde os anos 80, tendo publicado no Washington Post e American Journal Review, trabalhei muitos anos num jornal de Boston chamado Boston Tines, muito destacado, um jornal que ganhou o Nobel em jornalismo (Pulitzer) e coisas assim. No ano de 96 escrevi uma crítica sobre os meios intermediários (ou imprensa alternativa) para uma revolução contra os atuais meios de comunicação, porque, no meu ponto de vista, o Estado já não se trata somente de governo, o Estado do mundo todo é a economia e a polícia desse mercado são esses meios. Quando querem derrotar um governo, usam os meios. Por isso o que aconteceu na Venezuela no ano passado é muito interessante, foi a primeira vez que o povo representou uma contra-força aos meios e ganhou, por isso a democracia venezuelana continua de pé hoje em dia. Eu fui ao México no ano 97, logo depois de publicar esse documento que já existe em português.

WFM: Seria interessante que dissesse o que é esse documento.

AG - Os meios são os intermediários?

WFM: Não, não, o seu objetivo no México. Foi para o México e mora no México ainda?

AG - Sim, porque a indústria midiática dos Estados Unidos foi tão afetada pelos meus escritos que os editores, que anteriormente sempre publicavam minhas textos, não atendiam mais minhas chamadas por telefone e atravessavam a rua para evitar-me. Fui ao México por necessidade econômica, como se fosse um exílio econômico. Fiquei um ano nas comunidades de Chiapas, nas comunidades indígenas de lá que são as bases de apoio dos zapatistas. Lá pensei e escrevi muito, mas não publiquei durante essa época, não muito, sobre esse problema dos meios, sobre como democratizar outra vez os meios de comunicação em massa, porque neles impera agora uma ditadura.

WFM: Nessa sua publicação específica sobre drogas, qual é a posição do seu veículo?

AG: Narco News tem uma posição fortemente antiprotecionista, estamos a favor da legalização e regulação das drogas para tirar a parte criminal disso, como aconteceu com o álcool no meu próprio país, os Estados Unidos, no ano de 33, quando o novo presidente, o Roosevelt, legalizou o álcool e acabou com as máfias. E a época depois foi uma época muito especial em meu país, de inclusão social dos imigrantes e trabalhadores nos programas de new deal. Realmente, foi a única vez na história de meu país em que a democracia funcionou.

WFM: O que você acha da política brasileira de drogas e da lei brasileira de criminalização ao portador de drogas, ao uso próprio?

AG: Primeiro, o problema com a política brasileiras das drogas é que nós, os gringos, retiramos o direito democrático dos brasileiros para decidi-la, é uma política impulsionada por Washington. Minha posição é muito simples, é pró-democracia, a decisão brasileira para os brasileiros. Os brasileiros precisam do direito e da vontade para formar uma política que sirva a seus interesses. Eu, Alberto Giordano, de Nova York, não vou decidir essa política, mas minha equipe e eu vamos dar cobertura. Inclusive Adriana Veloso, que é brasileira, é nossa diretora de estratégia e uma de nossos jornalistas autênticas. Também eu sou o presidente da escola de jornalismo autêntico, tenho 26 jornalistas de toda a América, inclusive seis do Brasil, entre os quais Adriana é uma, e todos nos juntamos em fevereiro passado no México.

WFM: Como foi esse encontro no México?

AG: Foi o primeiro encontro em favor da legalização das drogas de toda a América Latina, com gente da Colômbia, do Peru, da Bolívia, da Venezuela, da Argentina e, é claro, do Brasil. Também muitos do México e também dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa, mas o primeiro encontro de maioria latino-americana.

WFM: Saíram algum documentos, algumas posições?

. AG: Sim, está tudo no Narco News, fizemos uma cobertura total de cada discurso e entrevistas com todos. O ex-fiscal geral da Colômbia Gustavo Negris esteve presente, Felipe Kispe da Bolívia esteve presente, Nancio Regon do Peru, também Luís Paulo Guanabara, da área de psicotrópicos do Rio de Janeiro. E a comunidade da sociedade civil da província de Iucateca compareceu significativamente, porque o jornal local, o terceiro maior do país, o Diario Por Esto, de Mario Menendez Rodriguez, apoiou como anfitrião desse evento. Eu conheço Don Mario, isso é muito importante na história do Narco News. Narco News começou como um site pequeno sobre a guerra das drogas na América Latina, porque o que vi muito rapidamente, logo que cheguei ao México, foi que os meios de comunicação gringos não faziam uma boa cobertura do que se passa ao sul da fronteira. É pura mentira o que dizem o New York Times e a CNN, tudo é indicação das embaixadas, não estão dizendo a verdade. Comecei, eu sozinho, com um laptop, sem dinheiro, sem nada, a dar cobertura e a traduzir as obras de jornalistas autênticos latino-americanos, do espanhol para o inglês. Narco News começou em abril de 2000 e em agosto de 2000 o Banco Nacional do México, Banamex, impetrou uma ação contra mim por dano moral e contra o Narco News como pessoa jurídica, duas ações contra mim e uma contra Don Mario. Nos demandaram por 17 vezes no México, mas não aconteceu nada, sempre digo não ao Banamex. Em agosto de 2000 nos demandaram na Corte Suprema de Nova York, para que realmente perdêssemos, porque é muito caro fazer uma defesa nessa Corte. Tivemos uma batalha muito forte, eu me representei, mesmo não sendo advogado, frente à juíza, uma senhora muito simpática, a favor dos direitos humanos.

WFM: De que o acusavam?

AG: De difamação, por publicar fotos e traduções das reportagens que concluíram que as propriedades litorâneas do dono do banco, Roberto Hernandez Ramirez, eram utilizadas para tráfico de toneladas de cocaína da Colômbia. Lanchas rápidas saíam da Colômbia, paravam na Ilha de Salandrez para abastecer com combustível e chegavam à Península do Iucatã, onde na propriedade desse banqueiro, Hernandez Ramirez, descarregavam toneladas de cocaína que, por aviõezinhos e caminhões, eram transportadas para o norte, com impunidade total. WFM: Como se chamava esse banco?

AG: Banco Nacional de México. Na mesma semana em que fomos à Corte de Nova York, em junho de 2001, o Citibank comprou o Banamex. Interessante, não? Em dezembro de 2001, a Corte Suprema de Nova York desistiu da demanda, o presidente disse ao Banamex que essa demanda era ilegal, que os jornalistas disseram a verdade. As fotos não mentem. Pela primeira vez na história da lei gringa, estenderam os direitos da Primeira Emenda, a First Emend, de liberdade de expressão da imprensa, a jornalistas da internet. Você sabe como são os julgados: quando um juiz decide todos os juízes seguem. Pois pela primeira vez, jornalistas de internet nos Estados Unidos têm direito a ser jornalistas com proteção da lei. Ademais, disse um outro presidente da Corte que não saiu a demanda contra mim porque o acusado Mario Menendez é mexicano e não pode demandar para um jornal mexicano em Nova York. Dois importantes presidentes - que protegem até jornalistas do Brasil - tornaram muito mais difícil isso. Se um grande poder econômico quer demandar esta revista, a Folha ou O Globo, em Nova York, já não pode fazê-lo tão facilmente. Essa é uma grande vitória. O que aconteceu? Durante essa batalha, a imprensa de todo o mundo escreveu sobre o nosso caso e isso despertou muita atenção sobre o Narco News. Quando começou a demanda, tinha só três leitores por dia. Logo, ao fim da demanda, 30 mil por dia ou um milhão por mês. Agora tem uma média de 120 mil leitores diários em três línguas. Crescemos muito graças a essa repressão que fracassou.

WM: Aqui no Brasil, que adota uma política de modelo norte-americano, as autoridades do governo anterior falavam muito que uma descriminalização ou uma legalização aumentariam a demanda às drogas?

AG: Isso é falso. Temos alguns dados para ver, por exemplo, o que aconteceu na Holanda ao descriminalizar a maconha. Lá se pode entrar num bar e fumar em público, sem repressão da polícia. É interessante, o nível de uso de maconha pelos jovens baixou, é menor do que o dos Estados Unidos e de outros países similares. Por quê? Não sabemos, mas eu creio que se trata de que a fruta proibida sempre brilha mais para os jovens. Se já não é proibida, é como o cigarro, as culturas estão ganhando a batalha contra o tabaco com os jovens, os programas de educação estão baixando a quantidade de jovens utilizando essa droga legal. Mas eu creio que essa é uma tática de medo para dizer: "Se legalizamos as drogas, vamos ter drogados por todos os lados". Não, não é certo. O outro fator é que já não será o motivo econômico para entrar. O que sucede hoje em todo o Brasil, não só nas favelas, é que não há oportunidade econômica para os jovens, eles vão trabalhar no McDonald's, na Boomps ou algo assim, com baixos salários, trabalho não divertido e que não leva o jovem a um melhor trabalho logo. No narcotráfico, o jovem pode ganhar mais dinheiro vendendo cocaína ou qualquer droga. Os jovens entram na droga não para utilizá-la, mas para ganhar dinheiro. Mas enquanto eles estão trabalhando no mercado da droga, a cada dia aumentam as possibilidades de experimentar e utilizar. Realmente, é invertido o que dizem: a proibição leva o jovem a utilizar por ser fruta proibida, então é algo de rebelião; pelo lado econômico, por vender primeiro e utilizar depois.

WFM: O que o senhor achou das declarações do governador Garotinho de jogar a culpa da violência ao desenvolvimento do crime organizado, no usuário de drogas?

AG: É um discurso muito fascista e é um discurso com um roteirista na embaixada gringa, estou certo de que este é o mesmo discurso que faz o governo Bush. Bush, logo depois do 11 de setembro, em janeiro de 2002 usou os anúncios do Superbol norte-americano, veiculados na televisão nacionalmente, dizendo: "Se você fuma maconha, está apoiando terroristas, seqüestros, violência, caos". Não sei se Garotinho sabe como está sendo manipulado pela embaixada nesse assunto. Recentemente o governo gringo anunciou que vai retirar esses anúncios da televisão. Por quê? Porque suas pesquisas de marketing lhes mostraram que essa campanha tornou as drogas mais populares entre os jovens. Os jovens estão dizendo: "Vou fumar maconha e ser como Bin Laden". Por que os jovens são assim? Esse discurso é demagógico, equivocado e mentiroso, isso é certo. Mas eu não creio que Garotinho está escrevendo suas próprias palavras, o que está por trás é a ingerência do governo gringo. Fazendo promessas, estão dizendo a Garotinho: "Em 2006 vamos te colocar como presidente do país". Mas não têm nenhum poder para impor o presidente do Brasil. Garotinho vai aprender isso de uma maneira muito dura, porque está muito equivocado agora. Ademais está piorando a situação do Rio de Janeiro com sua tática de guerra total nas favelas e tudo isso. Isso só vai fazer o narcotráfico armar-se mais, comprar mais armas, mais fuzis, para fazer uma defesa mais forte e uma ofensiva mais forte, como vemos agora. Essa política está matando o turismo. As únicas notícias que lêem hoje nos Estados Unidos e na Europa sobre o Rio tratam de ônibus queimando e dessa pobrezinha da (universidade) Estácio de Sá que saiu do coma ontem. Isso está espantando o turismo e o governo é quem está fazendo o terror nesse sentido.

WM: E com relação à segunda declaração de Garotinho, no sentido de que ele não poderia de imediato atuar em cima dos narcotraficantes, porque os usuários, os dependentes químicos entrariam em pânico no Rio de Janeiro? Será que a droga leva a esse tipo de dependência química que gera um descontrole?

AG: Isso faz parte do grande mito sobre o homem e a mulher pobre nas classes médias e altas, sempre tem sido um discurso classista que o pobre é naturalmente criminoso. Isso não é o que eu vejo, o que vejo é quem está trabalhando nos restaurantes, quem está limpando as ruas, dirigindo os ônibus e os táxis, são trabalhadores, é gente pobre e são trabalhadores honestos. Esses não são viciados loucos, são pessoas dignas. Mas o discurso dos Garotinhos é para demonizar não só o criminoso, mas uma classe que é maioria. Já se sabe que Garotinho não ganharia só com a cidade do Rio de Janeiro, dependeria da votação no campo, onde ele tem o apoio religioso. Ele está fazendo esse discurso para impressionar essa gente, mas o discurso não significa nada na cidade.

WFM: Nos Estados Unidos, desde Nixon começa a proibição de uma maneira mais forte, jogando o problema das drogas, demonizando drogas e depois vem Reagan, uma série de presidentes que investem muito na proibição e tentam influenciar outros países com relação a sua política de proibição. Por que os governos norte-americanos, desde Nixon para cá, com a exceção de Carter (vamos fazer justiça), investem tanto na proibição? Existe algum interesse econômico, hegemônico, intervencionista, a droga é usada para quê?

AG: Três motivos principais. O primeiro era, durante os anos 60, durante a época de Nixon, controlar a comunidade negra urbana, em pura rebelião depois do assassinato de Martin Luther King. Apareceram os Panteras Negras e grupos muito radicais em todas as cidades dos Estados Unidos. A guerra da droga era um pretexto para fazer pressão na cidade. Nixon usou uma estratégia (isso está totalmente documentado) muito brilhante, usou mal mas foi brilhante. Fechou a fronteira do México à maconha e a própria CIA foi trazendo ópio do Vietnã, inundando as ruas dos negros com heroína, o que deu início à epidemia de heroinismo nos Estados Unidos. Com esse pretexto fizeram a repressão contra um crime que o próprio governo gringo criou e com isso conseguiram, é claro, controlar os movimentos sociais. Segundo, alguém em Washington teve uma idéia muito brilhante, mas aplicou mal também. Isso pode ser um pretexto não só para controlar os pobres dos Estados Unidos, mas também para controlar os países vizinhos como o México, a América Latina toda, um grande pretexto para invadir. Na época de Reagan, com o caso dos contras da Nicarágua, a Guerra Fria em voga e tal, o Congresso americano disse que não ia colocar recursos contra os direitos humanos. Jimmy Carter, presidente antes de Reagan, aprovou uma lei que limitou o dinheiro que podia gastar a CIA nesses países. Depois quiseram derrotar o governo esquerdista da Nicarágua.

WM: Como é que foi esse episódio em Los Angeles, nos guetos de venda de crack para financiar os contras na Nicarágua? AG: Ele saiu disso. Um professor de nossa escola Narco News de jornalismo autêntico, Gary Welp, foi o jornalista que fez essas reportagens e enfrentou uma perseguição muito forte do setor privado, dos grandes meios de comunicação, por dizer a verdade.

WFM: Ele foi expulso de vários jornais e sofreu várias perseguições em decorrência disso. Qual a solução? Me pareceu muito estranha a solução do próprio Congresso norte-americano, encaminhando uma demanda a própria CIA, a própria CIA ter dito ao Congresso que fez as apurações e que as apurações não provaram nada.

AG: Já chegamos à terceira época. Primeira época: guerra contra drogas como pretexto de controle social dentro dos Estados Unidos. Segunda época: guerra contra drogas como pretexto de controle social em toda a América Latina. Estamos agora na terceira época. O que aconteceu é que o narco floresceu com a cocaína, o que fazer com tantos bilhões de dólares, o que fazer com tanto dinheiro sem ser capturado? Começaram a explorar a indústria de lavagem de dinheiro, dos ativos. Esse é o processo em que um processo de ganho de dinheiro ilegal é convertido para parecer como legal, para evitar impostos ou talvez pagar impostos para parecer legal. O Observatório Geopolítico das Drogas da França estima que, dos bilhões de dólares ganhos a cada ano com drogas ilegais, 80% dos ganhos vão para os banqueiros e para os que lavam dinheiro, a maioria disso aos banqueiros gringos e europeus. Isso inundou a economia gringa com um apoio muito grande. Nós publicamos no Narco News um trabalho de uma ex-subsecretária da Fazenda no primeiro governo de Bush pai, Kathleen Norstenfist, que chama-se Narcodólares para Principiantes. Em sua análise, a Bolsa de Valores de Nova York e o sistema bancário nos Estados Unidos dependem do dinheiro da droga tanto como o viciado depende da droga. Já é mel o que diz Garotinho: o que aconteceria se o drogado de repente não tivesse droga? Não se aplica ao drogado, mas talvez se aplica ao banqueiro: o que aconteceria com a Bolsa de Valores americana se não tivesse esse grande influxo de capital que vem da droga? Os Estados Unidos já não produzem, é uma economia reprodutora, não uma economia produtora, só produzem armas, tabaco, filmes e televisão, tudo o mais da economia gringa é importado. As drogas são um apoio artificial à economia gringa. Os banqueiros sabem disso. Para ser congressista nos Estados Unidos, deputado ou senador, precisa de milhões de dólares para comprar anúncios na televisão, não são grátis como em outros países, têm que pagar. Se você ou eu queremos ser congressistas, temos que ser supermilionários ou temos que nos vender aos supermilionários. Por exemplo, quando o Banamex me demandou, contratou um escritório de advogados em Washington chamado Eckingold. Esse escritório lobista em Washington, o terceiro maior do mundo, por um lado dá dinheiro aos democratas e por outro dá aos republicanos. É sem ideologia alguma e os congressistas são iguais a viciados por esse dinheiro. Agora já não temos democracia nos Estados Unidos, todos os poderes econômicos são parte dessa máfia. Por isso, Bush pôde roubar de Al Gore na eleição e nem Gore protesta sobre esse roubo, porque o dinheiro atrás de Gore é igual ao dinheiro atrás de Bush e muito disso é narcodinheiro.

WFM: Eu gostaria de saber algumas coisas sobre o documento que foi elaborado, o conteúdo do documento, já que o presidente Lula foi um dos signatários do documento.

AG: Em 98.

WFM: Em junho de 98, quando da Assembléia Especial das Nações Unidas. O que diz esse documento, qual o compromisso das pessoas que assinaram esse documento?

AG: Esse documento era muito curto mas muito claro, não há muito espaço de manobra. Diz: a guerra das drogas e a política proibicionista são piores que os efeitos das drogas. Arruinaram a paz, a tranqüilidade, causaram muita violência, tiveram efeitos sobre a saúde pública e a saúde dos jovens, foram pretextos contra a democracia e é porisso que há que se fazer uma nova política que não seja proibicionista. Isso é o que diz esse documento.

WFM: Fora o Lula e o ex-secretário geral das Nações Unidas, assinou esse documento um grande financista e especulador da bolsa, George Soros. Qual é essa posição de George Soros a respeito da liberação das drogas?

AG: Ele é o fundador de vários esforços para acabar com a política proibicionista, claramente atrás de redução de danos e atrás de muitas organizações que apóiam a legalização. Ele financia uma organização que se chama Tait, que dá bolsas de estudo para várias coisas e até deu bolsas para a minha escola de jornalismo. Eu suponho que isso significa que ele não tem problema com a nossa posição de legalização das drogas. Mas há muitos como ele. Ele é mais famoso porque é mais rico, mas esse tipo de gente são os chamados sábios.

WFM: É que nós no Brasil tomamos um certo conhecimento de algumas informação vindas ao tempo do general Bary McCaffrey, de que ele era um lavador de dinheiro a favor do narcotráfico.

AG: Não há nenhuma prova disso. Ao contrário, Soros foi demandado na França, tem alguns problemas na Europa, não com o narcotráfico mas com seu lado capitalista, porque é supercapitalista. Sua política econômica não é a minha política econômica, mas eu creio que, se Soros esteve envolvido em algo muito ilegal, esse indivíduo tem tanto dinheiro que não necessita fazer esse tipo de coisas. Ele ganhou seu dinheiro como qualquer outro capitalista selvagem, legalmente.

WFM: O que achas da intervenção ou da forte presença da DEA e da CIA no Brasil? A DEA entrou no Brasil com a ditadura militar, também com o pretexto de ajudar na proibição das drogas. Por que não se consegue mudar as convenções da ONU, a linha da ONU, principalmente a de Nova York?

AG: Isso é muito interessante. O Brasil não é país produtor, Colômbia, Bolívia e Peru são países produtores da folha de coca e a Colômbia mais e mais de ópio. Mas o Brasil não. O que faz a DEA aqui? A DEA não está aqui para impedir a colheita e confecção de drogas, a DEA está aqui para comprar polícias e militares e construir uma máquina de pressão para impedir uma política democrática, está aqui como uma força invasora, está aqui tentando exercer pressões políticas. Esse é seu trabalho. Seu trabalho não tem nada a ver com impedir a colheita da droga, porque a droga não se colhe aqui. A luta dos Estados Unidos não é pelo Brasil, o Brasil é uma luta da Europa. A luta dos Estados Unidos na Colômbia é mais direta, pelo Pacífico, pelo Caribe e pelo México. Essa é a luta. Não tem justificativa sua presença aqui, estão aqui por outro motivo.

WFM: Na Colômbia, por exemplo, não existe indústria química, não são feitos insumos químicos. Como explicar essa venda norte-americana de insumos químicos para a Colômbia, quando se sabe que esses insumos se perdem?

AG: É muito interessante. Durante as eleições na Colômbia, publicamos no Narco News os dados ligando a campanha de Alvaro Rive, o novo presidente, com a companhia na Colômbia que tem a maior quantidade desses aditivos necessários para se fazer cocaína e correlatos. Precisa ver como gritaram, nos ameaçaram com ações e tudo. Mas isso é normal para um jornal de investigação. Está muito claro que o governo dos Estados Unidos, enquanto mantém um discurso contra as drogas, está atrás do comércio das drogas, lhe convém que as drogas sigam para as ruas dos Estados Unidos porque é um grande comércio para os banqueiros. Até estão tentando aumentar o mercado de consumidores no México agora e há um grande perigo, se continuarmos com a política proibicionista, que se abra um mercado de heroína no Brasil. A única maneira de evitar que a heroína se converta em uma droga popular no Brasil é com rapidez acabar com essa política proibicionista, senão dentro de três ou quatro anos vai haver muita heroína aqui.

WFM: Com essa sobra de mercado, quer com relação à heroína, quer com relação à cocaína, pela presença de drogas sintéticas nos países do Primeiro Mundo, como vai se fazer essa construção nova de geopolítica? Os países pobres do Terceiro Mundo vão estar inundados com heroína e cocaína. Como esse jogo vai acontecer?

AG: Explique-me a pergunta.

WM: Essa migração nos Estados Unidos para as drogas sintéticas vai fazer com que haja uma queda com relação a consumo de cocaína e de heroína, vai baixar o consumo. Não há substituição por drogas sintéticas?

AG: Eu não vejo uma concorrência entre drogas, não creio que ao aumentar o consumo de Ecxtasy baixa o de cocaína.

WFM: Não?

AG: Não, porque são drogas diferentes.

WFM: Mas o relatório deixado pelo presidente Clinton fala em redução nos Estados Unidos de consumo de cocaína, uma redução de 50%.

AG: É mentira, eles não sabem. Eles fazem pesquisas assim, vão aos bairros e dizem: "Olá senhor, olá senhora, olá jovem, utilizas drogas, utilizas cocaína?" Mas cocaína é ilegal, quem vai dizer que consome para uma pesquisa do governo?

WFM: Esse tipo de verificação por pesquisas foi muito feito aqui no Brasil, no modelo americano chamado de consultação domiciliar. Funciona isso?

AG: Não. Essas consultas no Brasil encontraram 1% de usuários no país. Você acredita nisso? (risos) Enquanto Garotinho diz que há 700 mil usuários no Rio. Ele não conta álcool e cigarros, há cinco milhões. Mas não sabemos, não podemos precisar esse número. Se legalizamos, vamos ter tudo controlado, registrado, arquivado, com pesquisas, vamos saber precisamente onde estão as drogas, quantas drogas são e blá, blá, blá. Se não acabar com a proibição, nunca saberemos nada com precisão.

WFM: Como se dá uma legalização total, como se imagina que seja isso? Nós temos na Holanda uma determinada forma, vamos ter na Inglaterra agora uma outra forma.

AG: E talvez no Canadá.

WFM: Como seria esse sistema de legalização?

AG: Cada país necessita fixar seu processo apropriado. Há modelos muito positivos na Holanda e em Portugal que podem ser aplicados ao Brasil. Mas essa é uma decisão dos próprios brasileiros. Se eu dou um conceito, é para não buscar a solução na Europa ou na América do Norte, porque eles fracassaram. Os que estão liberalizando estão vivendo melhor, algumas cidades na Alemanha têm bons programas de redução de danos, mas a França tem uma política antidrogas que é uma merda, na Itália é pior, na Espanha é terrível. Esses não são modelos, esqueçam, os Estados Unidos têm a pior política do mundo e estão influenciando outros. Vocês têm no Brasil gente como Fábio Mesquita, gente como o grupo Aborda, Reduc e Relar, gente que tem trabalhado durante muitos anos com o usuário, com os médicos, com os professores nas salas de aula e que têm um bom entendimento disso. O Brasil tem todo o talento técnico e experiência no tema para desenvolver sua própria política. E tem todo o direito democrático para fazê-lo. A nossa posição no Narco News é para defender a democracia nesse assunto em qualquer país, defendemos o direito de brasileiros e brasileiras em fazer sua própria política, senão não podemos nos chamar de democratas.

WFM: O que achas do que vem ocorrendo no Brasil com relação a essas cortes para dependentes químicos?

AG: Isso está baseado na política gringa. Foi criada uma indústria, como o monstro de Frankenstein, que já caminha com suas próprias pernas e ganha muito dinheiro. Essa indústria não quer acabar com uma política equivocada porque dá dinheiro para eles; não se deve confiar no que dizem as pessoas que recebem dinheiro dessa indústria. Como jornalista, eu sempre vejo quais são os conflitos de interesse quando alguém fala. Se um grande comerciante que produz resíduos tóxicos fala contra uma lei para proteger o meio ambiente, eu não posso, como jornalista, crer nas suas palavras, há que ver cada palavra que diz o indivíduo e revisá-la cuidadosamente, porque é mentira atrás de mentira. Creio que igualmente temos esse problema com a dita justiça terapêutica, que nem é terapêutica nem é justa. Há um papel para programas de tratamento dos viciados, mas como dizem os alcoólatras anônimos honestos, os narcóticos anônimos honestos, os programas honestos, nunca funcionam esses programas sem a vontade do indivíduo participante. O indivíduo que entra em uma reunião de narcóticos anônimos ou alcoólicos anônimos por sua própria vontade, sim, tem grande chance de conseguir um benefício e sair de seu vício. Mas um indivíduo que é obrigado, se lhe é dito: a cadeia ou esse programa...

WFM: A cadeia ou o tratamento.

AG: Sim, esse indivíduo vai entrar no programa, vai dizer todas as palavras boas e, logo que sai, volta para sua praça de cocaína outra vez. Isso é certo, porque não entra por vontade própria. Um programa para ser efetivo tem que ser voluntário.

WFM: Um país que não investe, como o Brasil, com uma política deixada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso que não destina nenhuma verba para informação, é um país que acaba, por essa via indireta, apoiando a criminalização, dando uma importância maior à criminalização e não dando nenhuma informação. A falta de informação é que sustenta as políticas de criminalização, a falta de informação, a falta de educação?

AG: Mas os grandes meios têm parte da culpa, porque especialmente as televisões mostram a guerra da droga como um videogame: vamos seguir a polícia na favela, sempre com a câmera atrás. Há um comércio já entre as emissoras de televisão e a polícia nesse assunto. A polícia convida a televisão, prende sua câmera e seu repórter a essa guerra artificial para produzir imagens muito impactantes para ganhar ibope.. Como contrapartida, sempre a televisão fala do trabalho valente, honesto e efetivo da polícia. É um videogame, não tem nada a ver com a realidade. É preciso ter os meios de comunicação em massa, numa sociedade democrática, que mostrem o outro lado disso. Publicamos um estudo de um jornalista, de muitas páginas, enaltecendo essa novela O Clone, em que Globo disse: "Vamos entrevistar e estudar o tema". Mas o que resultou foi uma ficção baseada desses mitos. O reino das drogas é mitologia. Publicamos um ótimo artigo de Adriana Veloso sobre esse problema dos meios grandes do Sudeste e como devem ser mais honestos quanto ao tema das drogas. Está em português e pode ser lido no narconews.com.

WFM: E a presença de policiais nas escolas para tratar de assuntos relativos à prevenção, nesse modelo norte-americano chamado Proer?

AG: Não funciona. Esse é outro pretexto para a polícia receber dinheiro do governo americano. Há muitos abuso.

WFM: E essa disseminação desses programas todos? Estão no Brasil inteiro, pelas polícias militares de vários Estados federados nossos.

AG: E claramente não funcionou.

WM: Qual o resultado disso nos Estados Unidos, funcionou lá?

AG: Não funciona.

WM: Passar esse símbolo do policial para uma criança, o símbolo da lei e da ordem, por que não funciona e no que está errado? Qual é a alternativa correta?

AG: Porque o jovem sai das escolas, vai jogar seu videogame e o videogame trata de como matar um policial. É uma brincadeira esse programa nos Estados Unidos, os meninos começam a rir disso, é muito mau para a imagem da polícia. A polícia é como no programa Casseta & Planeta, o Fucker e o Sucker, esses dois policiais gringos, imagine Fucker e Sucker entrando na escola dizendo: "Meninos, não consumam drogas". É uma brincadeira. Também nos Estados Unidos há alguns abusos, em que alguns desses policiais dizem aos meninos, contra a lei: "Diga se seu pai ou sua mãe utilizam maconha". Logo conseguem uma ordem do juiz, invadem a casa e prendem os pais que fumam marijuana. O que acontece com a criança então? O governo fica com a guarda, porque já não tem família. Isso vai salvar a criança? Não.

WM: Algo mais, que desejaria falar?

AG: Só que Narco News é um projeto de jornalismo autêntico. Dizemos a verdade, mas temos conhecimento de que essa é nossa verdade e todos vocês têm sua própria verdade. Se juntamos a sua verdade com a minha verdade, já temos uma verdade maior. O veículo para construir uma verdade muito maior, com participação das massas, é o jornalismo autêntico. Precisamos de colaboração, buscamos jornalistas brasileiros honestos e não só jornalistas, cidadãos que possam contar suas histórias e fazer sua análise sobre esse problema da política da droga e nós publicamos no Narco News. Se é bom, publicamos em espanhol e em inglês também. Se qualquer pessoa quiser nos contatar, nossa página está na internet, Adriana Veloso é nossa diretora internacional e é brasileira, trabalha conosco no Brasil mas também em toda a América Latina, realmente em todo o mundo. Seu endereço na internet é adriana@narconews.com. Podem nos escrever, queremos colaborações.

WM: Algo mais específico do Rio sobre a necessidade de legalização?

AG: Tenho uma estudante no Rio, uma bolsista da escola de jornalismo autêntico que estuda jornalismo na Estácio de Sá. Como todos os estudantes, está um pouco traumatizada com o que aconteceu, pode ser a próxima vítima em coma ou morta. O que me dizem é que há que se legalizar a droga, senão outras alunas minhas vão morrer e talvez eu vá morrer. Já é uma questão de vida ou morte. Se continuamos com a política proibicionista, significa mais morte, mais penas, mais famílias arruinadas e essa violência vai aumentar. A única maneira de diminuir a violência e ter controle é legalizar.


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