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O Espólio do Bicheiro Maninho e os números da Zebra

Por IBGF/Jornal do Terra

O crime organizado tem as suas próprias regras. E essas são apartadas das vigentes num Estado-democrático. Portanto, não se pode esperar que os membros da "Famiglia Garcia", até há pouco dirigida pelo fuzilado Maninho, corra atrás da polícia e a Justiça, para investigar e condenar os mandantes e os executores do homicídio. Uma organização mafiosa despreza e corrompe as autoridades. Assim, o silêncio das testemunhas e familiares de Maninho não é de se estranhar.

Os chamados "bicheiros cariocas" seguem o modelo e as regras da Máfia. Vivem à margem do Estado de Direito. Têm a própria "justiça", pois exercem controle de territórios e social.

Nos anos 80 e por ocasião da segunda grande guerra de máfia na Sicília, que produziu milhares de morte, a polícia limitou-se a recolher e realizar autópsias nos corpos. Os grandes chefões, que pressentiam a derrota, fugiram para outros países, caso, por exemplo, de Tommaso Busceta. Só para lembrar, ele fugiu para o Rio de Janeiro. E a segunda guerra de máfia só foi desvendada quando Buscetta virou colaborador da Justiça (delator).

Com efeito. O combalido patriarca Miro, pai de Maninho e ex-membro do órgão de "Cúpula dos Banqueiros do Bicho", já ordenou providências. Miro mandou os seus investigarem: nada de polícia, mas sim aos policiais pertencentes ao clã. Miro também convocou o filho mais novo (apelidado Bid) para assumir o posto de Maninho e o governo da "famiglia". Bid morava em Goiás para cuidar dos diversificados negócios da "famiglia".

Caberá a Bid reorganizar o clã e punir os traidores internos. Numa "famiglia" mafiosa que se preze, vale o provérbio: "um homem avisado está salvo pela metade" (uomo avvisato è mezzo salvato). Isso quer dizer que o traidor paga com o seu sangue e o de seus familiares.

O velho Miro inventariou os bens e repassou a Bid o comando de 1.400 bancas de jogos de bicho, 7.000 máquinas de jogos eletrônicos de azar. Em resumo, um faturamento estimado em mais de R$120 milhões de reais por mês. Negócio lucrativo que se espalha,--com exclusividade---, pela zona Sul, Centro, Santa Cruz, Estácio e parte da Tijuca, tudo a incluir as favelas da Rocinha e do Vidigal.

Como a zebra estava à solta, os "negócios" da "famiglia" funcionaram com muitas restrições. Não foram aceitos jogos com números que recordassem os da chapa da motocicleta de Maninho (ele foi executado quando manobrava a moto) ou do dia e do mês do crime. Ainda mais, havia restrições para o 13 e o número da sede da academia de ginástica, onde Maninho esteve. Comentou-se que nas bancas rivais, em territórios de outras "famiglia", as mesmas restrições ocorreram. Usou-se o eufemismo da solidariedade e do respeito, mas tudo não passava do medo da zebra.

Como se percebe, enquanto a sociedade ordeira entrega as suas armas de fogo ao governo federal, -- que exulta com a campanha---, esse mesmo governo faz de conta que o crime organizado não existe. Afinal de contas, é mais fácil receber armas de uma sociedade civil educada á legalidade do que tirar as armas das "societas criminis", como as que infestam e governam o Rio de Janeiro.


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