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Brasileiro na cúpula da máfia Cosa Nostra

Por Wálter Fanganiello Maierovitch e Izilda Alves

Tomasso Buscetta preso na Polícia Federal
A melhor definição sobre Antonino Salamone foi dada por Tommaso Buscetta: "é uma esfinge. Tão sútil, que pessoa alguma consegue decifrá-lo".

Condenado defintivamente por tráfico internacional de drogas e por ser mafioso, recebeu Salamone, em 1992, a pena de doze anos de reclusão.

Esperto, já possuía a cidadania brasileira. Cuidou de obter a cidadania para tentar livrar-se de condenações pela Justiça Italiana e aparentar estar distante das operações terroristas da Máfia, determinadas pelo sanguinário Totó Riina, apelidado "Ù Curtu" (o pequeno) ou "La Belva" (a Feira)

Agora, portanto, consegue driblar o Estado Italiano, evitando a execução da sentença e a extradição.

Participou, morando em São Paulo, no bairro do Paraíso, de um esquema gigantesco de tráfico de heroína e lavagem de dinheiro, que chegou a preocupar o Fundo Monetário Internacional.

O esquema de bilhões de dólares envolvia, diretamente, Itália, Estados Unidos e Suiça, que era o país da lavagem do dinheiro da heroína. Por via oblíqua, envolveu Venezuela e Brasil, que, frise-se mais uma vez, concedeu cidadania e abriga, em seu território, Salamone. Os governos dos USA e Itália montaram a famosa operação Pizza Con-nection e, com exceção de Salamone, todos os demais envolvidos foram presos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o velho Gaetano Badalamenti foi condenado à pena de trinta anos de reclusão. Com seus setenta e três anos de idade (nasceu em 1923) encontra-se preso. Era amigo de Buscetta e Salamone. Freqüentador de Copacabana e também um dos governadores da Cosa Nostra até o início da segunda gran-de guerra mafiosa (1981 a 1983), nunca foi notado pelas autoridades brasileiras.

Nas investigações realizadas em razão da operação "Pizza Connection", deflagrada pelo juiz Giovanni Falcone, descobriu-se os bancos suiços onde Salamone mantinha contas e sacava dinheiro. Quando ingressava na Suiça, esquecia-se da condição de brasileiro naturalizado e declarava-se italiano.

Vários cheques que emitiu encontram-se copiados fotostaticamente no processo italiano onde foi condenado. Existem tes-temunhos de policiais e filmagens da sua presença, ora com o irmão, ora com o filho brasileiro, na Suiça.

Salamone é conhecido, também, como "il furbo", ou seja, o super es-pertalhão, capaz de enganar qualquer pessoa. Enganou o governo brasileiro, obtendo naturalização apesar de condenado definitivamente na Itália. Fugiu, quando cumpria pena em regime aberto, com obrigação de permanência obrigatória no território siciliano. Pro-curado na Itália, conseguiu, apesar dos seus antecedentes, a naturalização no Brasil.

No livro "Cose de Cosa Nostra", elaborado pela jornalista Marcelle Padovani depois de colher entrevistas e escritos de Giovanni Fal-cone, são apre-sentados quadros com os nomes dos integrantes da Cúpula de Governo da Cosa Nostra. Pois bem, Salamone, nascido em 1918, é citado como integrante do governo em 1963; 1-974;1975;1976; 1977; 1978;1979 e 1980. Quando dirigia a Máfia, a par-tir de 1974, já ostentava a condição de cidadão brasileiro, empresário no ramo da construção civil e morador na Capital de São Paulo.

Na Itália, Salamone comandava a celula mafiosa "fa-miglia" de San Giuseppe di Iatto. Nos períodos que fugia da Justiça Italiana e refugiava-se no Brasil, aqui como cidadão brasileiro, deixava em San Giuseppe di Iatto seu lugar-tenente Bernardo Brusca.

Encontra-se Bernardo Brusca encarcerado em face de condenação à prisão perpétua. Participou de vários atentados, inclusive daquele onde foi morto Giovanni Falcone, em 23 de maio de 1992.

O filho Giovanni Brusca assumiu o lugar do pai Bernardo. Gi-ovanni Brusca, que acionou o telecomando fazendo explodir o carro em que viajava Falcone, a mulher Francesca e três policiais da escolta, todos mortos, foi preso no último dia 23 de maio de 1996. Era o responsável pelo comando do exército terrorista mafioso, executando as ordens, de Totó Riina, o chefe dos chefes "il capo dei capi" e Michele Greco, apelidado de "Papa", pela sua influência dentro e fora da organização criminosa.

Como não poderia deixar de ser, Antonino Salamone foi casado com a irmã de Totó Riina, apelidado de A Besta" por ser sanguinário. Ao se tornar viúvo, casou com a irmã de Michele Greco, o "Papa". Tanto Michele Greco como Salvatore Riina "Totó" encontram-se encarcerados, condenados à prisão perpétua.

Voltando a Giovanni Brusca. da célula de Salamone de San Gi-useppe di Iato, sequestrou o filho de sete anos de Santo Di Matteo, por ter o pai tornado-se colaborador da justiça. Durante quatro anos a criança, Giuseppe Di Matteo, permaneceu em cativeiro. Quando o seu pai confirmou, em juízo, suas anteriores declarações, o mafioso Giovanni Brusca, em represália, estrangulou o menino com as próprias mãos. Depois do es-trangulamento do menino Giuseppe, de onze anos, dissolveu o corpo em áci-do. Em breves pinceladas, assim comporta-se a famiglia mafiosa" de San Giuseppe di Iato, anteriormente guiada por Antonino Salamone, conhecido na organização por "Don Tonino".

Quando começou a sua colaboração com a Justiça Italiana, con-tou Tommaso Buscetta que as ordens da Cúpula tinham de ser cumpridas, sem discussões. Mais contou: ninguém, salvo Antonino Salamone, conseguiu enganar a cúpula mafiosa. E Salamone descumpriu ordem da cúpula simulando ter sido preso, quando voluntariamente entregou-se ao policial da cidade de Africo, na Calábria.

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal, pelo voto do Ministro Marco Aurélio, negou, por maioria, a extradição de Antonino Salamone ao governo italiano. O acórdão "teor da decisão" ainda não foi publicado, mas, para os que assistiram o julgamento, reconheceu-se a prescrição dos crimes de tráfico internacional de heroína e de associação mafiosa.

Em síntese: a Máfia já foi governada de São Paulo.

* Wálter Fanganiello Maierovitch é coordenador de pesquisas do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone. Izilda Alves é sócia fundadora do IBGF e jornalista da Radio Jovem Pan-SP


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