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Drogas Ilícitas

 

DROGAS. Campanhas Opostas. Narcossalas e Fumódromos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF-junho de 2006.

: Nem a Copa do Mundo conseguiu reduzir na mídia os espaços dedicados às drogas proibidas. Enquanto seleções disputavam vagas para passar às oitavas-de-final, muita droga rolou no noticiário. Com base em pesquisas sobre o emprego da maconha para fins terapêuticos, divulgou-se uma vitoriosa experiência científica, capaz de resolver casos de hipertensão arterial, até em pacientes cuja medicação tradicional não produz efeito.

Com o discurso de secar as fontes de financiamento do terrorismo fundamentalista e da insurgência, os EUA estão aportando mais 94 bilhões de dólares na War on Drugs. No fundo, trata-se de uma “guerra às drogas” que nunca chega ao fim e é velho pretexto, desde os tempos do presidente Ronald Reagan, para intromissões na América Latina.

Na Bolívia, o presidente do país e do sindicato dos cocaleiros do Chapare, Evo Morales, iniciou, no domingo 18, uma campanha para valorizar a folha de coca. Enquanto isso, no Velho Continente, aceita-se discutir como questão sanitária as narcossalas, ou shotting room. A experiência com as narcossalas nasceu na Basiléia, na Suíça, em 1986, e foram colhidos ótimos resultados em diversos países.

Sobre esses espaços assistidos para uso de drogas proibidas, a evitar danos individuais no consumidor e riscos para terceiros, a bola fora ficou com a Itália. Depois de cinco meses, a “sala segura” de Turim acabou fechada, por força de recente lei elaborada pelo neofascista Gianfranco Fini e endossada pelo ex-premier Silvio Berlusconi. Ao contrário, o Parlamento britânico já está pronto para discutir projetos sobre a implantação da shotting room.

Afinal, os fumódromos para tabagistas existem em toda parte e representam recintos especiais. Neles são tragadas drogas lícitas, prejudiciais à saúde e causadoras de dependências química e psicológica. Nas narcossalas, a fumaça é substituída pela picada. E a droga injetada também causa danos e dependências, mas são reduzidos drasticamente os riscos de contágio e de overdose.

Em Israel, o professor Yehoshua Maor, da Universidade Hebraica de Jerusalém, conseguiu sintetizar um dos diferentes canabinóides encontrados na maconha. O medicamento elaborado, depois de pesquisas feitas com rato-quino, destina-se a reduzir a pressão sanguínea.

Em razão da descoberta, Maor ganhou o concorrido prêmio Kave Innovation Awards, de 2006. O sintético produzido leva o nome de cannabigerol e, em pequenas doses, reduz a pressão, relaxa os condutores sanguíneos e não causa efeito psicotrópico.

Enquanto o uso terapêutico da maconha difunde-se pelo mundo, com as propriedades da erva canábica sendo sintetizadas e exploradas comercialmente por laboratórios, o presidente George Bush continua a insistir na proibição total: Delenda Cannabis.

Numa tentativa de sensibilizar a comunidade internacional para alterar a Convenção das Nações Unidas de 1961, ainda em vigor e que lista a folha da coca como droga proibida, Evo Morales usa promocionalmente o octogésimo natalício de Fidel Castro, que só ocorrerá em agosto, enviando-lhe presentes.

Em maio, Morales presenteou o líder cubano com três quadros. Neles, as imagens de Fidel, Che Guevara e do herói José Martí foram feitas com folhas verdes de coca. Morales frisou que a coca, símbolo de identidade cultural do povo andino, servia também para produções artísticas. No último domingo, na cidade de Irupana, situada na região cocaleira dos Yungas, Morales mandou preparar um bolo de aniversário com farinha de coca para Fidel. Assim, iniciou uma campanha internacional com o seguinte mote: “Não se fabrica só cocaína com a folha de coca”.

Enquanto Morales se empenha na campanha, Bush conseguiu, na House International Relations (HIR) da Câmara dos Deputados, por 351 votos a favor e 67 contrários, um reforço de 94 bilhões de dólares para a War on Drugs.

Uma fatia de US$ 9,2 milhões será destinada à polêmica Drug Enforcement Administration (DEA), isso para emprego no Afeganistão, pois os talebans controlam o sul do país, onde estão, próximas a Kandahar e Herat, as áreas de cultivo de papoula e de extração do ópio bruto.

Para a Marinha da Colômbia, serão encaminhados 13 milhões de dólares, para investimento na operação casada de compra de aviões norte-americanos de vigilância. Serão fiscalizadas as áreas cocaleiras e procurados os corredores de ingresso da droga no México. Segundo o deputado republicano Dan Burton, relator na HIR, 90% da cocaína consumida nos EUA é colombiana e ingressa pelo México.

No Afeganistão, só para lembrar, os Senhores da Guerra e da Droga não admitem erradicações dos campos de papoula. Há pouco, restabeleceram antiga aliança com os talebans, que recebem dólares para proteger as áreas de cultivo.


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