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Drogas Ilícitas

 

FALCÃO, os meninos do tráfico.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL



Um velho ditado castelhano ensina que as obras valem mais que as boas intenções. No documentário e livro Falcão – Meninos do Tráfico, os autores MV Bill e Celso Athayde produziram uma obra importante, enquanto não passam de boas intenções a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a própria Constituição da República, no que toca à obrigatoriedade de amparo às crianças e adolescentes carentes.

O documentário apresenta, em diferentes estados federados, os horrores de meninos desfrutados pela “indústria das drogas” e dependentes da criminalidade organizada.

Num país responsável e com jovens vulneráveis, o documentário Falcão levaria a uma emergência governamental. Isso no sentido de disparar, de forma reticular e sinérgica, ações especiais de proteção social. Além disso, contaria com um Observatório sobre o fenômeno das drogas, a exemplo do criado pela União Européia e sediado em Lisboa.

Infelizmente, o combate à febre aftosa preocupa mais as nossas autoridades do que os jovens drogaditos cooptados pela criminalidade organizada. A propósito, o Canadá já levantou o custo social das drogas ilícitas, depois de observar na população jovem o crescimento de vários indicadores: mortes por overdose, redução do aproveitamento escolar, crescimento no número de acidentes, atendimentos ambulatoriais, internações hospitalares etc. O custo pago pela sociedade representava de 4% a 5% do PIB canadense.

No Brasil, falta esse levantamento e fala-se, com irritante conformismo, na perda de algumas gerações. Por aqui, não se consegue reverter situações de baixa escolaridade, renda, acesso a saneamento básico e aos serviços de saúde. Os jovens carecem de educação, esporte, cultura, lazer, habitação, aprendizado profissional, justiça etc.

A política brasileira sobre drogas proibidas despreza pilares básicos: prevenção, terapia com integração social, redução de danos individuais e riscos coletivos, cooperação internacional, repressão à oferta e à economia criminal, mediante desfalque nos seus lucros e redução do seu poder corruptor.

Deve ser lembrada, ainda, a piora da nossa condição diante da planetária e crescente oferta de drogas ilícitas. Para essa piora contribui a Organização das Nações Unidas (ONU), com suas velhas convenções conservadoras e a permanente submissão à fracassada política norte-americana da War on Drugs.

A “indústria das drogas” movimenta anualmente mais de 300 bilhões de dólares, utilizando-se, para ocultação, movimentação e lavagem do dinheiro sujo, os sistemas bancário e financeiro internacionais.

A política brasileira antidrogas, concebida ao apagar das luzes do governo FHC e mantida por Lula, copiou o modelo norte-americano, que, dentre outros equívocos, trata a demanda como questão criminal e não de saúde pública. Com tal postura, o Brasil faz boa figura nos relatórios anuais divulgados pelo escritório da ONU que cuida da questão das drogas e da prevenção ao crime (UNODC). No último deles, o Brasil foi lembrado pelo elevado consumo de drogas para emagrecimento.

Em 2005, os EUA sustentaram o Unodc, sediado em Viena, na Áustria, com doações de 25 milhões de dólares. Na terça-feira 4, os jornais europeus anunciaram a recondução do czar Antonio Costa à frente do Unodc para mais quatro anos de mandato, com apoio de Bush.

A recondução foi antecipada em um mês, diante do escândalo noticiado pelo Financial Times, que terminou em pizza. O Financial Times divulgou que, em 2003, o czar Costa recebera uma pistola de presente da Glock, empresa austríaca exportadora de armas e, portanto, de violências.

Costa, incumbido de prevenir crimes, aceitou da indústria bélica o mesmo tipo de instrumento que o narcotráfico coloca nas mãos dos “meninos do tráfico”.



A investigação do czar foi iniciada em fevereiro deste ano, e Mark Malloch Brow, chefe-de-gabinete do secretário-geral, arquivou-a em março. Explicou ter ocorrido um “erro de avaliação” de Costa. O mesmo entendimento teve Gregor Schult, embaixador americano junto à ONU.

Certamente, gostaram dessas conclusões algumas das nossas celebridades: dona Lu Alckmin, a senhora dos 400 modelitos básicos, e o petista Silvinho Pereira, mestre em deontologia pela Land Rover.

Para Lula, a situação dos meninos do tráfico só será resolvida quando todos os brasileiros tiverem o “estômago cheio”. Por sua vez, os Garotinhos, pela boca de policiais, proclamam não existir crime organizado no Rio e que todos o chefões do tráfico estão presos. Ou seja, a culpa é da sociedade civil que compra drogas, como já sentenciou Bush, talvez depois de assistir a Cidade de Deus e ler Falcão – Meninos do Tráfico.


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