São Paulo,  
Busca:   

 

 

Drogas Ilícitas

 

MACONHA: Retrato da Feira de Amsterdã.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Na sexta feira 20 (janeiro de 2006), foi aberta em Amsterdã a 9ª.edição da anual Feira Internacional da Maconha, que ocupa uma área de 15 mil metros quadrados.

Fumar maconha, só nos cafés do recinto da Feira.


São 150 estandes que vendem tudo do gênero canábico: de camisetas estampadas a fertilizantes, com propagandas do tipo “por que a erva do jardim do meu vizinho é mais verde”.

Funcionam, ainda, coffee-shops, restaurantes, auditórios, discotecas. Pelo recinto, também, estão espalhados palcos, abertos para bandas e quem mais quiser subir para se apresentar.

Interessante é que enquanto a Feira rola, o governo continua com uma mundialmente inédita campanha preventiva. Essa campanha decorre do aumento significativo de holandeses presos no exterior por tráfico internacional drogas.

O Spot da campanha levada à televisão mostra imagens chocantes, como se tivessem sido colhidas das nossas carceragens policiais e das celas do presídio Urso Branco, de Porto Velho.

No curso da exibição do spot, uma voz grave alerta: “Atenção holandeses, os cárceres no exterior são muito diferentes dos nossos. Os narcotraficantes recebem tratamento muito pior. As autoridades estrangeiras não se preocupam com o sustento dos filhos menores dos presos. Nas celas falta higiene e privacidade. Há superlotação, os encarcerados dormem no chão, em turnos e convivem com assassinos e violentadores sexuais”.

A Holanda sempre teve uma política progressista sobre o fenômeno das drogas, ao contrário da ONU, EUA e Brasil. Nesta semana, o ministro da saúde holandês frisou: “-Nossa política de drogas é um sucesso quando confrontada com a de outros países”.

maconha, nas farmácias.


Para se ter idéia, a erva canábica é vendida nas farmácias para fins terapêuticos e mediante prescrição médica. Nas residências, pode-se cultivar até cinco pés de maconha, não importando se para consumo lúdico ou medicinal. Mais de 800 coffee-shops estão autorizados a vender meio-quilo de maconha por noite, para consumo recreativo, no próprio estabelecimento e para maiores de 18 anos.

O porte de maconha fora de casa ou dos cafés é crime e há mais de oito anos, é vedada a comercialização de sementes e mudas, no particular sem nenhum sucesso.

A linha liberal holandesa não se circunscreve às políticas de drogas: legalizações da eutanásia e da união de homossexuais.

No século passado, os Países Baixos, que adotaram a monarquia constitucional como forma de governo, colocaram em prática os valores principais de uma sociedade moderna: pluralismo, democracia, liberdade de expressão, tolerância e busca da paz.

A história holandesa é pontilhada de episódios de respeito a direitos humanos. Por exemplo, o acolhimento dos judeus expulsos da unificada Espanha (1492) e de Portugal (1495). Mais de 80 mil judeus banidos pelo rei português dom Manuel I foram recebidos na Holanda, “o país mais tolerante da Europa e onde havia uma identidade liberal para se contrapor aos valores ibéricos”, como ensina a inglesa Karen Armstrong, no seu precioso livro “Em Nome de Deus” (edição Companhia das Letras).

Nos portões de ingresso à Feira, cartazes lembram que fumar maconha só pode nos espaços onde funcionam os cafés. A primeira novidade da Feira de 2006 consistiu na sua transferência de Utrecht. Motivo: ficou pequeno o parque de feiras de Utrecht, primeira cidade do planeta a contar, desde 1968, com um coffee-shop de venda de maconha, o Café Sarasani.

Holanda: até 5 pés de maconha por residência.


Todos os anos a Feira atrai empresários, ambientalistas, químicos, médicos, artistas, intelectuais, além, evidentemente, de consumidores e turistas.

Neste ano de 2006, muitos temas foram selecionados para agitar o fórum de debates: 1) a maconha no tratamento da anorexia, 2)a legislação alemã que permite a posse de 10 gramas de maconha para uso próprio, 3) a experiência do referendo de Denver, com 54% favoráveis à legalização de até 28 gramas da erva para consumo pessoal, 4)o pronunciamento de Antonio Costa, czar antidrogas da ONU, que anunciou, sem confirmação da Holanda, a reforma da lei de drogas,com proibição de venda de maconha em coffee-shops.

O mercado da erva canábica na Holanda movimenta milhões de dólares, ou seja, valores próximos aos auferidos no Marrocos, maior produtor mundial: 3 mil toneladas, cultivadas no Vale do Rif e Yebala.

As indústrias químico-farmacêutica, têxtil, alimentos, cosméticos, bebidas tem especial interesse na Feira e nos componentes da maconha.

A Highlife Cup continua a ser a grande atração da feira. Ganha o produtor da melhor maconha da Holanda, que passa a ser assediado pelos donos dos coffe-shop e vendedores por internet..


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet