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Drogas Ilícitas

 

COCA ZERO x MAMA-COCA

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

OLHO.
Os antecessores de Evo Morales fracassaram no combate ao narcotráfico ao aderir à política da Casa Branca.

Mama-Coca.Tradição milenar.


O aimará Evo Morales vai tomar posse na Presidência da Bolívia no dia 22. No primeiro turno, ele venceu Jorge Quiroga, que ficou com 31,9% dos votos.

Morales sempre defendeu a preservação do cultivo da folha da coca, considerada símbolo de identificação cultural do povo andino, a “Mama-Coca”. Quiroga implantou em 1998 o falido Plan Dignidad, conhecido por “Coca Zero”, arquitetado por Washington juntamente com o Plan Colombia.

Em 1997, e a fim de atender aos seus interesses estratégicos e hegemônicos na América Latina, os EUA incensaram e cooptaram Quiroga, então vice-presidente do general Hugo Banzer. O objetivo era fincar bases militares na Bolívia, submeter as Forças Armadas, controlar as reservas naturais de gás e petróleo e espalhar os arapongas da CIA e da Drug Enforcement Administration (DEA) para o trabalho de informações e contra-informações.

O pretexto para essa ingerência violadora da soberania foi, mais uma vez, a War on Drugs: a Bolívia refinava cerca de 250 toneladas de cloridrato e só perdia para a Colômbia.

Ao se aproximar de Quiroga, os norte-americanos sabiam que o presidente eleito Hugo Banzer estava com câncer no cérebro e pouco tempo de vida, pois fora diagnosticado e tratado com quimioterapia em um hospital dos EUA.

A CIA sabia que o enfermo Banzer desejava melhorar a biografia e se redimir do apoio dado aos narcotraficantes durante o seu longo e sangrento período de ditadura militar (1971-1978). Os assessores diretos do ditador Banzer tinham sido indicados por Roberto Soares, o “rei da cocaína e da borracha”, que atuava em Guajará-Mirim, na fronteira do Brasil.

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Quiroga convocou os cidadãos bolivianos para um “Diálogo Nacional”, em 1997. Seu discurso centrava-se em tirar a Bolívia do circuito internacional do narcotráfico. O “Diálogo Nacional” preparava o anúncio do militarizado Plan Dignidad, com cinco anos para “zerar” a coca.

No Plan Dignad, o maior aporte financeiro veio dos EUA, com iniciais US$ 54 milhões para erradicações forçadas, manu militari, e US$ 47 milhões destinados aos cultivos substitutivos à coca, com grande parte desviada para diferentes bolsos.

Uma ajuda menor coube às Nações Unidas, cujo escritório antidrogas (atual UNODC) já havia fracassado no projeto de cultivos substitutivos à coca, realizado em Yungas de La Paz, de 1985 a 1991. O projeto, batizado de Agroyungas, levou à falência 1,5 mil agricultores aderentes.

O Plan Dignidad apoiava-se em quatro pilares: 1. Emprego das Forças Armadas nas erradicações de coca da região do Chapare. 2. Interdições de laboratórios e armazéns sob controle da criminalidade organizada. 3. Projetos de prevenção para reduzir o consumo de drogas no país. 4. Cultivos substitutivos à coca, no Trópico de Cochabamba, ou seja, no Chapare, e a começar pela Vila Tunari, do líder cocaleiro Evo Morales.

O governo norte-americano esqueceu que a mastigação da coca nos Andes data de 3000 a.C. e a coca tornou-se inseparável da vida de camponeses e mineiros, usada no trabalho, como medicamento, nos ritos religiosos etc. Com 25 gramas de coca mastigada, o nativo consegue percorrer até 25 quilômetros na altitude andina de pouco oxigênio.

Segundo o respeitado Transnational Institute, a erradicação foi acelerada, causou o empobrecimento e a criminalização dos camponeses. Houve mortes e outras graves violações a direitos humanos. O desarollo alternativo de cultivo carecia de participação de organizações campesinas, colocadas de lado. Mais de 36 mil famílias que dependiam da venda da folha de coca ficaram sem fonte de subsistência. Os produtos substitutos, como o abacaxi, a laranja, a pimenta-negra, o maracujá e o café, não encontraram mercado e os produtores amargaram o perecimento das safras.

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Antes do Plan Dignidad, os norte-americanos tinham imposto ao Parlamento boliviano a draconiana Lei 1.008/1988. Ela dividia a Bolívia em duas áreas de cultivo de coca. A legal ficava em Yungas de La Paz, admitindo um cultivo não superior a 12 mil hectares. A área ilegal era o Chapare, de conhecido cultivo. A própria lei estabeleceu um marco de tolerância para o plantio nos Yungas, que era o previsto na Convenção da Organização das Nações Unidas, de 1961.

A Convenção da ONU entrou em vigor em 1964 e equiparou a coca à cocaína. Nessa Convenção ficou assinado o prazo de 25 anos para a erradicação dos cultivos de drogas em todo o planeta. Dessa forma, e para a Bolívia, o prazo de total erradicação, o “Coca Zero”, findou em 1989.

Diante desse quadro de insucessos e interesses do Império, convém esperar pelas novas políticas de Morales. Seus antecessores fracassaram no combate ao narcotráfico ao aderir à War on Drugs, ditada e comandada pela Casa Branca.


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