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Drogas Ilícitas

 

NOVA ameaça Amazônica

Por WFM-CARTACAPITAL

Na última semana de outubro, passou a tramitar pelo Senado norte-americano um inusitado projeto de lei. Ele vem subscrito por parlamentares alinhados com o presidente Bush na sua planetária War on Drugs (guerra às drogas).

Tal projeto propõe a deflagração de uma “guerra biológica” na Colômbia. Isso a fim de acabar, por tabela, com a oferta e o consumo de cocaína e crack nos EUA.

coca em Parque Ecológico colombiano


Esse projeto entrou no vácuo deixado pelo término do fracassado Plan Colombia, que em cinco anos consumiu US$ 5 bilhões. O Plan Colombia consistiu, basicamente, no derrame de herbicidas nas áreas de plantio de coca.

Nos últimos 25 anos, os EUA gastaram US$ 25 bilhões na tentativa de eliminar a coca da região andina. Apesar dos gastos, há 20 anos a área de cultivo de coca no local continua a mesma, 200 mil hectares.

No curso do Plan Colombia, constatou-se a substituição da coca-cana pela peruana coca-tingomaria, mais resistente às fumigações. E a Colômbia tornou-se, segundo a ONU, o país de maior consumo de cocaína da América do Sul.

O presidente Álvaro Uribe jogou todas as fichas na prorrogação do Plan Colombia. Perdeu, pois mudou a estratégia do seu amigo Bush. Em 2006, a Colômbia receberá apenas US$ 553 milhões e essa importância sairá dos US$ 735 milhões destinados à Iniciativa Regional Andina (IRA), que se volta ao combate às insurgências de esquerda e, num segundo plano, às drogas ilícitas.

Numa tentativa de buscar mais recursos, Uribe tem levado à Casa Branca soluções pouco originais e algumas de tirar o sono dos ambientalistas. Primeiro, propôs a compra da produção de toda a coca colombiana, para posterior incineração. Coube a John Walters, czar antidrogas de Bush, refutar a proposta por temer o aumento da produção.

Além disso, o ex-presidente Andrés Pastrana, em 1998, havia sugerido ao presidente francês, Jacques Chirac, a compra de toda a produção da coca colombiana e o fornecimento de empréstimo para construção de fornos para queimar as folhas. No Afeganistão, em 2002, também se aventou a compra de papoulas produtoras de ópio, para destruição em fornos crematórios.

Até o presidente do Banco Central da Colômbia, José Dario Uribe, tentou ajudar Uribe. Ele revelou que os cartelitos colombianos movimentam, pelo sistema, cerca de US$ 3 bilhões, equivalentes a 0,61% do PIB. Mais ainda, nos últimos 18 meses, o Banco Central detectou 15 mil operações voltadas à reciclagem de capitais sujos das drogas.

Uribe, em viagem ao rancho de Bush, reivindicou todos os US$ 735 milhões destinados à IRA. Para isso, destacou a necessidade de continuar as fumigações. De volta a Bogotá, ameaçou derramar herbicidas nos parques e reservas ambientais, para onde o cultivo de coca migrou, na fuga às fumigações.

A última de Uribe coincidiu, na essência, com um projeto que tramita no Senado norte-americano, ou seja, a guerra biológica para eliminar a coca. Para liquidar com as folhas e sementes de coca, Uribe acenou em soltar a lagarta Elória noyesi nas áreas de cultivo de coca. Talvez tenha lembrado dela nos desenhos de Walt Disney e sua aparição no filme Alice no País das Maravilhas.

Elória noyese, no filme de Dysnei.


Pelos estudos encomendados por Uribe, a lagarta Elória vira mariposa, pronta a voar e depositar ovos nas folhas de coca. Dos ovos nascem as lagartas esfomeadas e devoradoras de folhas e sementes de coca.

Sucede que o ciclo não se fecha com o fim dos arbustos de coca. A Elória não é lagarta de cardápio único. Há todo o verde da selva amazônica para lhe servir de alimento. Como frisaram os ecologistas, a Elória só é boazinha nos filmes de Disney.

Os parlamentares norte-americanos, no projeto de lei e ao contrário de Uribe, preteriram a Elória. Preferiram o fungo Fusarium oxyporum, na espécie apelidada de “comedor de coca”. Em 1984, ele apareceu, como praga, na região cocaleira peruana do Alto Huallaga. Liquidou com a coca, mas espalhou-se para outras culturas.

O senador colombiano Jorge Enrique Robledo protestou contra o projeto de lei norte-americano, em especial quanto à ingerência e aos riscos ambientais para toda a Amazônia. Ganhou opositores, aliados de Uribe.

A respeito do Fusarium, o certo é que foi identificado por David Sands, que, associado à empresa Ag/Bio, tentou, em 1999, vender ao governo federal um projeto de sua disseminação nos cultivos de maconha da Flórida. Valor do projeto: US$ 10 milhões.

Com efeito, o Brasil deveria, pelo risco na região amazônica, protestar e ficar atento ao projeto de lei do Senado norte-americano. Até a vegetação amazônica sabe que o Fusarium não vai querer morrer depois que a coca acabar.


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