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Drogas Ilícitas

 

OVERDOSE: Passada a tempestade, reflexões sobre o caso Lapo, maneger e herdeiro da Fiat.

Por Dionnara Castro

AS ARMADILHAS DO ESCÂNDALO DE LAPO.

O escândalo do Lapo abalou a Itália: trata-se de um dos herdeiros da FIAT, dentre outros empreendimentos, como futebol e jornal impresso.

A cobertura do caso, no Brasil, foi feita de forma exemplar, passo a passo, em tempo, pelo nosso IBGF, que hoje atua como vetor formador de opinião.

Lapo Elkan, já está nos EUA, em tratamento.


Neste sentido é preciso lembrar que os meios de comunicação são eminentemente dialéticos: produzem fatos, ao mesmo tempo em que são produzidos por eles. E, ainda nesta perspectiva, destacamos alguns pontos para análise.

O escândalo de Lapo trouxe à tona novamente a figura do usuário como personagem central do palco da problemática droga (1). Como afirmou Lapo, tratou-se de uma estupidez consumir “speed-ball" - mistura de heroína, cocaína e metanfetanima. Uma estupidez de rico, destacou o IBGF, o que evidencia o mundo das drogas próximo das elites (2). Merece destaque, ainda, o exemplo trágico: que os usuários estejam atentos ao consumo de substâncias, cujos efeitos são desconhecidos.

Não existem estudos, obviamente, relativos aos efeitos do coquetel ingerido e, em geral, sobre as drogas criminalizadas, após o processo de refinamento e/ou conservação. É sempre um risco, incluído as incertezas sobre o quadro de overdose (3). Cabe-nos registrar a associação entre o tráfico relacionado à figura do migrante.

Como mostrou o IBGF: “Nos dois locais indicados de tráfico, operaram traficantes nigerianos e marroquinos” (4). Lapo estava em companhia de travestis, dentre elas uma brasileira, no que expressamos preocupação com as conseqüências desta cena para sua vida futura.

A última campanha de Toscani na Itália que nos diga! Além do que, o fato compõe escândalos sucessivos envolvendo usuários de drogas e, novamente, uma brasileira (5).

A cena deu-se no o contexto italiano, recentemente em alerta de ataque terrorista, já que participa, enviando tropas, de intervenções militarizadas, em outras Nações. Itália e Brasil têm mantido estreitas ligações de cooperação internacional, incluindo a prisão arbitrária e o pedido de extradição do sociólogo italiano, Pietro Mancini, naturalizado brasileiro, pois vive há 25 anos no Brasil, é casado e pai de uma brasileira com 24 anos. Conforme documentou o Grupo Tortura Nunca Mais - Rio de Janeiro, “a prisão de Pietro Mancini, ocorrida em 22 de junho passado, foi solicitada pelo governo italiano que, até hoje não anistiou os militantes dos movimentos sociais dos anos de 1970 naquele país, caçando-os pelo mundo afora” e apresenta Pietro Mancini como “terrorista perigoso”. No Brasil, como sabemos, a Lei da Anistia, tratou de anistiar, sobretudo, o próprio Estado de seus crimes truculentos, servindo ao interesse de calar os arquivos do período ditatorial, trancafiando nossa história, deixando mortos e desaparecidos políticos eternamente no lugar ambíguo: seriam criminosos ou não?

Durante as décadas ditatoriais, fomentou-se a cultura do sentimento de distanciamento da vida política do país, gerando a despolitização das classes sociais. Concomitante ao surgimento de grupos de estudantes militantes políticos, ocorreu o surgimento de grupos, nos quais o uso das drogas ganhava o caráter de aventura existencial.

Atualmente, a Política de Redução de Danos destina-se ao controle de epidemias, relacionadas ao uso de drogas, por exemplo, injetáveis, como no caso do vírus HIV/AIDS, e ao tratamento do uso abusivo de drogas. Ou seja, busca-se evitar que o uso abusivo de substâncias psicoativas, criminalizadas ou não, seja extremamente lesivo, aos próprios usuários e à sociedade. Coloca-se, ainda, em xeque a criminalização de substâncias inertes por natureza. Numa análise mais ampla: trata-se, ainda de perguntarmo-nos por que o fenômeno das drogas, criminalizadas ou não, repetimos, ganha tamanha dimensão na contemporaneidade? Parece-nos possível que o contexto de banalização dos valores embutidos na lógica neoliberal global (especificamente após o período ditatorial na América Latina), dentre eles a alta competitividade e o individualismo, esteja apresentando seus efeitos. Lesivos a todos, em menor ou em maior grau.

Concluindo, merece destaque a atuação do Ministério Público Italiano, mundialmente reconhecido pela sua atuação antimáfia. Podemos ainda aprender com a Itália sobre legislação acerca da lavagem de dinheiro, haja vista o contexto brasileiro de corrupção sistêmica e impune, bem como a cultura de criminalização da pobreza.

O caso de Lapo, considerando seus familiares e amigos, não pode vir a servir, tal qual o referendo de armas no Brasil, para esconder ou desfocar questões da maior gravidade. Afinal, a cultura bélica capitalista mundial parece colocar a todos na UTI. Por overdose.


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