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Drogas Ilícitas

 

OVERDOSE DE DINHEIRO

Por WFM-CORREIO BRASILIENSE

-publicado no CORREIO BRASILIENSES

O narcotráfico movimentou US$ 322 bilhões em 2004. Do lado da demanda, o número de consumidores de drogas ilícitas atingiu 200 milhões de cidadãos, a formar um universo composto por 110 milhões de usuários constantes e 22 milhões de dependentes.

Costa: o czar da ONU coloca todos os trabalhadores sob suspeita.


Os dados acima integram o relatório anual da Organização das Nações Unidas (ONU), apresentado no domingo 26, declarado o Dia Internacional de Combate às Drogas.

O czar antidrogas da ONU, Antonio Costa, escolheu a comunidade terapêutica San Patrignano, em Rimini, na Itália, para sediar a 17ª Jornada Internacional de Combate às Drogas. Dentro desse espírito, o mote da campanha antidrogas de 2005 privilegiou a saúde: “Dê valor a você mesmo e faça uma escolha sadia”.

A comunidade terapêutica de San Patrignano é a maior do mundo e abriga 1.800 pacientes. Pelo seu programa, San Patrignano representa “uma família que quis se abrir aos problemas da sociedade. Nela, cada jovem verifica seus próprios limites, adquire conhecimento de si e do seu potencial. Assim, cada um deles poderá retomar o caminho do crescimento interrompido pelas drogas”. Para ser aceito nessa comunidade terapêutica, exige-se o respeito à própria pessoa e aos outros, presente a ética da responsabilidade e o espírito de serviço às pessoas com dificuldades maiores, como avisa sempre Andréa Muccioli, responsável por San Patrignano.

Como se nota, o lugar foi bem escolhido. Faltou apenas o czar admitir que as políticas da ONU, apoiadas nas Convenções de 1961 e 1988, estão ultrapassadas e só conseguem, pela criminalização do usuário, estratégias militarizadas e foco inadequado acerca do fenômeno, colher os resultados catastróficos revelados no relatório de 2004.

com o dinheiro lavado, ninguém segura o narcotráfico.


Costa demonstrou que a indústria das drogas ocuparia o 18º posto, caso fosse possível coloca-la na tabela que classifica os países conforme o seu Produto Interno Bruto (PIB). Apesar disso, o czar antidrogas não mostrou disposição para atacar a economia movimentada pelo narcotráfico, que lava o dinheiro sujo e recicla capitais lavados nos sistemas bancário e financeiro internacionais.

Diante do quadro mostrado, o czar Costa recomendou a adoção do modelo norte-americano, ou melhor, que as empresas e repartições submetam seus empregados e funcionários a permanentes testes químicos antidrogas. A propósito, essa parece ser uma idéia fixa de Costa que, há pouco tempo e quando da sua primeira visita a San Patrignano, recomendou a testagem das crianças nas escolas.

Na visão míope do czar, é melhor colocar todos sob suspeita e violar direitos individuais e liberdades públicas, em vez de suspeitar da facilidade para a lavagem dos narcodólares e da reciclagem em atividades formalmente lícitas.

War on drugs: pelo relatório, as drogas e os lucros avançam. É a guerra desejada pelo narcotráfico.


O respeitado Transnational Institute (TNI) concluiu que as políticas da ONU causam mais danos do que benefícios. Pediu mudanças e a substituição, com nova filosofia e roupagem, da jornada de combate às drogas pelo “Dia Internacional de Políticas Humanas sobre Drogas”. Choveram apoios às propostas do TNI.

Apesar de o perfil do usuário ter mudado, as Convenções e as políticas continuam iguais, remontando a 1961 e 1988. Só para lembrar, atualmente, o jovem consumidor faz uso alternado de diferentes drogas, isto é, ele escolhe aquela que vai consumir conforme a ocasião e o seu estado de espírito. Dessa maneira, o seu cardápio inclui ecstasy, heroína, álcool, cocaína etc. E a idade do consumidor baixa a cada ano, já tendo chegado a menos de 13 anos.

No Brasil e segundo relato da ONU, o consumo de drogas não é grave, ou destoante. Típica conclusão de quem nunca circulou pelos nossos centros urbanos e pela Capital Federal, locais onde não faltam drogas proibidas. Quanto à maconha, a ONU concluiu no relatório de 2004 que, num futuro próximo, o incremento de consumo poderá alcançar o Brasil, Leste Europeu e Ásia.

Enquanto a ONU apresenta relatórios e sugere propostas aviltantes no trato com o usuário e complacentes com o sistema financeiro, países progressistas projetam novos pilares de sustentação das suas políticas públicas, fato não percebido no governo do presidente Lula.

Pelo projetado, o fenômeno das drogas passa a ser encarado como um todo, de modo a contemplar qualquer substância que atue no cérebro. As leis passam a funcionar, no campo preventivo, como confiável guia informativo à população, sem criminalizar o consumidor. Investe-se na prevenção à saúde. Às terapias junta-se a integração social. Fomenta-se as estratégias redutoras de danos individuais e de riscos sociais. E se opta por uma repressão inteligente a contrastar, principalmente, a economia movimentada pelas drogas.

*Wálter Fanganiello Maierovitch, magistrado aposentado, é presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone (www.ibgf.org.br). Foi secretário nacional antidrogas no governo FHC.


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