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Drogas Ilícitas

 

OS MEGATRAFICANTES Don BEJA e Don DIEGO: retratos sem retoques da Colômbia, com tráfico, Plan Patriota e a divisão dos paramilitares das AUC

Por WFM-CARTACAPITAL

Está prestes a virar pó o “Plan Patriota” do presidente colombiano Álvaro Uribe Vélez. Um plano selado com o “nihil obstat” do governo George W.Bush.

Embora acene para a celebração de um processo de pacificação nacional, o “Plan Patriota” cuida, na verdade, da execução de uma estratégia antiguerrilha dirigida a aniquilar as Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia (Farc).

Em face do “Plan Patriota”, grupos militares móveis do exército colombiano foram adestrados por especialistas norte-americanos, cujo governo fornece, ainda, suporte financeiro e equipamentos bélicos e de espionagem. Não fosse o deslocamento da maior parte dos oficiais instrutores norte-americanos para o Iraque, o “Plan Patriota” teria conseguido, bem antes, o recuo de membros infiltrados das Farc em áreas urbanas.

As baixas nas hostes das Farc foram consideráveis e repercutiram. Um exemplo disso foi a prisão de Simon Trinidad, pertencente ao grupo de intelectuais que influencia o líder Manuel Marulanda, apelidado Tirofijo, fundador, em 27 de maio de 1964, dessa organização insurgente.

Simon Trinidad foi preso no Equador e, no governo Andres Pastrana que antecedeu ao de Uribe, participou, como representante das Farc, das negociações na chamada zona desmilitarizada de San Vicent del Caguàn.

No dia 31 de dezembro de 2004, Simon Trinidad foi extraditado para os EUA.

Além de Simon Trinidad, as Farc perderam cerca de sessenta importantes comandantes de frentes guerrilheiras, como Edgar Navarro Morales, apelidado El Mocho.

Isso levou, evidentemente, a um recuo das Farc para a região de selva, onde combatem há mais de 40 anos, com sucesso. Aí, os especialistas militares contam pouco, em termos de experiência e carregam na memória o sucedido no Vietnã.

O recuo guerrilheiro para as áreas de domínio foi ordenado por Marulanda, com 75 anos de idade completados em 2004. Conforme revelam os analistas, trata-se de uma chamada ao combate na selva, com ataques provocativos contra postos militares e de polícia, em centros rurais. E essa estratégia defensiva, e também de trégua nas práticas terroristas urbanas das Farc, surpreendeu os “generais gringos” idealizadores do “Plan Patriota”.

Outra surpresa desagradável para a dupla Uribe-Bush. No final de agosto, els acabaram de ouvir um retumbante “não” das Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia (Farc).

O direitista Uribe pretendia, como as Farc feridas e com baixas significativas, envolvê-las no referido processo de pacificação nacional. Isso para colocar fim à guerra civil iniciada em 9 de abril de 1948, quando foi assassinado, em período eleitoral, o líder popular Jorge Eliécer Gaitán, candidato imbatível à presidência.

O conflito colombiano, nas últimas avaliações, consome, anualmente, 25% do pib, ou seja, cerca de US$23 bilhões de dólares.

A desconfiança e o objetivo marxista da guerrilha representam componentes a impedir o diálogo. No ano de 1953, conservadores e liberais, abriram caminho para o general Gustavo Rojas Pinilla dar um golpe de estado, com a promessa de pacificar o país e conceder anistia aos grupos guerrilheiros de então. Os rebeldes acreditaram no ditador Rojas e os que depuseram as armas foram massacrados.

Nota-se, ainda, que a desconfiança decorre de um cenário bem transparente e revelador de injustiça social, de corrupção institucional galopante e de uma elite predadora. No último censo realizado em 2002, a Colômbia contava com 43,6 milhões de habitantes. Quase 33,0 milhões de colombianos vivem diariamente com menos de US$2,0. A propósito vale lembrar as riquezas colombianas extraordinárias em água, petróleo, esmeraldas, metais preciosos, e uma biodiverrsidade amazônica quase inexplorada.

O “Plan Patriota” tem o lado das organizações dos paramilitares de direita, sempre simpáticas ao governo Uribe, que deseja envolver 1 milhão de civis no combate às guerrilhas de esquerda. Aliás, uma velha tradição da elite colombiana. Os latifundiários, os ricos e os poderosos, sempre criaram “exércitos privados”, a título de defesa da guerrilha e da delinqüência, comum e organizada.

Desde o início do governo Uribe, começou uma disputa interna nas diferentes organizações paramilitares, onde as Autodefensas Unidas da Colômbia (AUC) são as mais fortes e organizadas.

O líder das AUC, Carlos Castaño, desapareceu em abril de 2004, depois da chegada à Colômba de um pedido de extradição dos EUA. Pelo Tribunal norte-americano da Flórida, Castaño está definitivamente condenado por tráfico internacional de toneladas de cocaína.

As AUC nasceram pelas mãos de Felipe Castaño, morto pelas Farc. O seu irmão e sucessor Carlos transformou, nos últimos dez anos, as Auc em cartel de drogas.

Para isso, Castaño trouxe para a organização Diego Murillo Bejarano, membro do operante Cartel do Vale Norte e do extinto cartel de Medellín, fundado por Pablo Escobar.

Diego Murillo Bejarano, apelidado Don Berna, aliou-se a Diego Montoya Sanches, Don Diego, financiador das AUC e considerado o maior traficante de drogas ilícitas do planeta.

No site da Embaixada dos Estados Unidos em Bogotá pode ser visto o pedido de extradição de Don Berna, que “ sustena el titulo de Inspector General de las AUC”, e está acusado, perante a corte federal de Manhattan, de tráfico de toneladas de cocaína para os EUA. Consta da acusação que o tráfico internacional, por intermédio do cartel das AUC, serve “para financiar sus actividades terroristas paramilitares y enriquecer a sus jefes”.

Com efeito, a divisão interna das AUC deriva de duas posições inconciliáveis. Um dos grupos, integrado por Castaño e o megatraficante Don Berna, pretende continuar as negociações de “paz” (Plan Patriota) com o governo Uribe.

Essa “pacificação”, numa correta chave de leitura, significa anistia, não extradição aos EUA e formação de um partido político de direita, sem esquecer que o narco-chefão Pablo Escobar já foi deputado colombiano. Em outras palavras, um partido de traficantes de drogas, apagado com a borracha do Plan Patriota os antecedentes criminais dos seus membros, autores de toda sorte de violação de direitos humanos.

Nas Auc, o grupo de oposição a Castaño e a Don Berna é formado por Salvatore Mancuso, um imigrante italiano dos anos 60, latifundiário e até pouco tempo atrás um “longa mano” de Castaño.

Uma outra olhada do site da Embaixada Americana em Bogotá, mostra um registro interessante, em termos de “caradurismo”, em especial pelas esquecidas alianças: “As AUC foram reconhecidas como organização terrorista internacional pelo secretário de Estado Colin Powel, em setembro de 2001. O secretário Powell ressaltou que as AUC realizaram numerosos atos de terrorismo, incluído o massacre de civis, a expulsão em povoados e o seqüestro para fim de extorsão de políticos”.

Numa das reuniões realizadas, no bojo do processo de pacificação e entre membros do governo Uribe e das AUC, descobriu-se a presença de dois negociadores com nomes falsos. Na verdade, eram traficantes internacionais procurados pela Justiça norte-americana.

Como se nota, prevalece nas AUC a busca da impunidade por meio do processo de paz, contra a linha de Macuso. Ou seja, objetiva o grupo de Mancuso a continuação da autoproclamada “luta patriótica” contras as Farc, com a continuação, na clandestinidade, do tráfico de cocaína, heroína e marijuana.

O grupo contrário, quer a anistia e não se importa em declarar, da boca para fora, que deixará as armas. Evidentemente, não vai abdicar do narcotráfico, com Don Diego e Don Berna. No mês de dezembro de 2004, as televisões mostraram Mancuso chorando, enquanto presidia uma solenidade de deposição de armas. Puro jogo de cena, com o objetivo de agradar e sair da lista dos extraditáveis por tráfico de drogas e seqüestros

Apesar do quadro desfavorável, o presidente Uribe aparenta confiança, mais para ampliar as doações para o seu Plan Patriota e cativar a platéia internacional, em especial a União Européia.

Enquanto isso tudo ocorre, o coronel Diego Caicedo, da polícia antidrogas, encontrou na Sierra Nevada, região de Santa Marta (norte), vasto plantio de coca transgênica.

Conforme noticiou a agência AdItália, os chefes dos “cartelitos” colombianos já investiram US$150 milhões em pesquisas. Chegaram à semente geneticamente modificada. Os arbustos de cânhamo chegam a atingir três metros de altura. As folhas, que são mais claras, podem ser colhidas em quatro meses, ou seja, metade do tempo das folhas naturais.

Enquanto a oferta internacional da cocaína não sofre abalos com o Plan Colômbia, como acaba de reconhecer no México o czar norte-americano antidrogas John Walters, nota-se que a dupla Don Diego e Don Berna fixam-se como chefões do Cartel do Vale Norte e já re-inauguraram o Cartel de Medellín.

A droga ilegal continua a ser a principal fonte de financiamento das guerrilhas e dos paramilitares. E o pib colombiano, há anos, acaba dependente desse tipo de atividade.

Enquanto o Plan Patriota capenga, a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, continuam a desmascarar a beligerância de Uribe. A população civil continua vítima do conflito, que o governo continua a tratar militarmente, com os paramilitares a matar civis e a expulsar camponeses das suas terras. Por outro lado, não revela Uribe preocupação com os refugiados desse conflito, que vivem como miseráveis.


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