São Paulo,  
Busca:   

 

 

Drogas Ilícitas

 

Afeganistão: ópio, heroína e 23% do pib

Por IBGF/WFM

"A situação é delicada e eles poderão voltar a governar.” O receio é de George Robertson, secretário- geral da Otan, a organização militar do Ocidente. Ao soltar a frase acima, Robertson estava pensando no Afeganistão. Ou melhor, no retorno dos talebans do mulá Mohamed Omar e na influência e reinstalação dos campos terroristas da Al-Qaeda de Osama bin Laden.

Na sua avaliação, falta estabilidade ao governo de transição do presidente Hamid Karzai, encarregado de preparar as eleições gerais de 2004. Na realidade, as ordens de Karzai não têm qualquer influência além dos limites da capital Cabul.

Não existe uma unidade de objetivos entre os representantes dos grupos étnicos e dos clãs formados pelos chamados Senhores das Guerras. Esses voltaram a expandir o tráfico de ópio e heroína e, além de Senhores das Guerras, tornaram-se Barões das Drogas.

A preocupação de Robertson justifica-se porque os países integrantes da Otan participaram, aliados aos EUA, das operações que derrubaram o regime Taleban. Só com as tais “bombas inteligentes” despejadas no Afeganistão, os norte-americanos gastaram US$ 10 bilhões. Agora, para a reconstrução do país, a ONU estimou serem necessários investimentos de US$ 15 bilhões, em dez anos.

As ações bélicas no Afeganistão tiveram início em 7 de outubro de 2001, depois que o mulá Omar se negou a entregar Bin Laden, seu genro e acusado de ser o mandante dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

Os talebans caíram em 13 de novembro de 2001, mas o fim da guerra ocorreu formalmente em 5 de dezembro daquele ano com a Conferência de Bonn, na Alemanha. Nela se proclamou o fim do Estado teocrático do Afeganistão e decidiu-se pela retomada da forma republicana (democrática) de governo.

A Conferência de Bonn levou à convocação da Loya Jirga, uma tradicional assembléia composta de chefes tribais, o ex-rei Zahir Shah, notáveis chefes dos clãs e 1.551 delegados representando as etnias pashtun (38%), tajique (25%), hazari (19%), usbeque (6%), turcomena (2%), além de outras minorias. Coube à Loya Jirga eleger o presidente Karzai e fixar em três anos o período de transição.

O desastre temido pelo secretário da Otan foi previsto logo depois que a dupla Bush-Blair, influenciada pelo secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, autorizou negociações sigilosas, por meio da CIA, com os Senhores das Guerras.

Dessa maneira, permitiu-se a transformação do Afeganistão em um narco-Estado. Pior, os investidores estrangeiros mudaram seus planos e abandonaram os projetos para o Afeganistão, como frisou Marc W. Herold, do departamento de economia da University of New Hamspshire.

De acordo com Herold, no tempo dos talebans as empresas norte-americanas, autorizadas pelos mulás, investiram US$ 24 milhões em telefonia e outros milhões na construção de um gasoduto. Depois da queda dos talebans, os investimentos privados internacionais limitaram-se a duas empresas de telefonia celular, duas de serviços aéreos expressos, três hotéis, alguns restaurantes, o restabelecimento de três linhas aéreas, projetos de construção de um hotel da rede Hyatt, em frente à embaixada norte-americana, e dois bancos, um britânico e outro paquistanês.

Ainda segundo Herold, um aparelho celular, hoje, custa US$ 290 e uma hora de internet num cybercafé de Cabul não sai por menos de US$ 5. Para complicar, o salário médio diário, em Cabul, caiu para um centavo de dólar. Em resumo, a ajuda dos países aliados, responsáveis pela queda do regime dos talebans, representa 42% do PIB do país.

Nos dois anos pós-Taleban, o Afeganistão voltou à condição de maior produtor mundial de ópio, matéria- prima para a elaboração de heroína. A produção aumentou em 825% entre 2002 e 2003. O quilo da heroína era vendido por US$ 30. Em 2003, o preço saltou e estabilizou-se em US$ 283, tendo chegado a US$ 700 em 2002.

No ano de 2002, cerca de 70 mil famílias cultivavam a papoula para a extração do ópio. Em 2003, o número de famílias produtoras pulou para 264 mil. Segundo os cálculos mais pessimistas, perto de 7% da população do Afeganistão, estimada em pouco mais de 23,5 milhões de habitantes (censo de 2001), fornece ópio bruto para os Senhores das Guerras, que depois refinam a droga em inúmeros bazares ou em laboratórios instalados em áreas tribais fechadas.

Durante o regime dos talebans, as plantações de papoula existiam em 18 províncias. Depois da sua queda, 28 províncias continham plantações. O jornalista Abubaiter Saddique, da Eurásia Net, entrevistou Jalaludin Khan, um camponês da Província de Helmand. Khan disse que estava disposto a plantar papoula porque não obtivera qualquer ajuda do governo. Segundo o entrevistado, o ganho com a extração do ópio é 38 vezes maior do que o obtido com os grãos.

O governador da Província de Helmand, também entrevistado, destacou que os aliados não cumpriram as promessas de ajuda, como investimentos na agricultura (plantio de trigo, arroz, uva, cana, algodão, linho), criação de animais (camelos, ovelhas e cabras), a manufatura têxtil e a mineração, com engarrafamento de gás natural, etc.

A respeito, o recém-empossado embaixador norte-americano no Afeganistão, Zalmay Khalilzad, manifestou sua intenção de estimular investimentos privados e lutar pela vinda de mais recursos, além dos US$ 25 milhões de emergência já enviados pelos EUA.

Por outro lado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou para a transformação do Afeganistão em um narco-Estado. Segundo o FMI, o mercado do ópio pós-Taleban está movimentando US$ 2 bilhões por ano. Enquanto isso, o giro de capitais de origem legal no país não ultrapassou US$ 1,8 bilhão no biênio 2002/2003.

Para muitos especialistas, o Afeganistão, desde 2002, já é um narco-Estado responsável pela produção ilegal de 75% do ópio mundial. O sociólogo Pino Arlacchi foi quem mais lamentou a situação, já que dirigiu o órgão da ONU responsável pelas drogas ilegais e a prevenção à criminalidade organizada (1997/2001). Coube a Arlacchi negociar com o mulá Omar, em 1997, a erradicação das áreas de plantio de papoula.

Em face do acordo conseguido por Arlacchi, referente às zonas controladas pelos talebans, a produção de ópio, estimada em cerca de 4 mil toneladas em 1997, caiu a zero em 2001. O sociólogo conseguiu mapear, com o auxílio de satélites, as áreas de plantio e os centros de depósitos na fronteira com o Tajiquistão (que continham 100 toneladas em armazenagem).

Para Arlacchi, o Afeganistão virou um narco-Estado graças à postura adotada, pós-Taleban, pelos governos britânico e norte-americano. O pior é que o seu trabalho, de amplo sucesso, virou pó. Nele se usou um sistema de pressão internacional, a partir dos seis países asiáticos diretamente afetados e do Conselho de Segurança, aliado à habilidade de lembrar aos talebans que a produção de ópio e heroína não era autorizada pela religião islâmica. Em 2000, os Senhores das Guerras faturavam US$ 100 milhões com a venda anual do ópio e da heroína. Em 2003, embolsarão cerca de US$ 1,18 bilhão: somada à renda dos camponeses, a movimentação chegará aos US$ 2,3 bilhões. Pelos últimos levantamentos, 95% da heroína consumida na Europa e na Rússia provém do Afeganistão. Detalhe: essa droga não chega aos EUA, que a recebem da Colômbia e do México.

A produção de ópio e de heroína, hoje, compõe 23% do PIB afegão, segundo especialistas. Levando em conta a cautela terminológica do FMI, pode-se concluir que os especialistas acertaram ao concluir que o Afeganistão se transformou em narco-Estado, depois de dois anos de tutela anglo-americana.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet