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Drogas Ilícitas

 

A Bolívia e a War on Drugs

Por IBGF/WFM

Depois da revolta popular resultante na morte de 80 civis e na renúncia do ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, ficou a impressão do estertor da elite que sempre governou a Bolívia seguindo a cartilha imposta por Washington. No ano de 1999, antes de deixar a Presidência boliviana em face de um câncer fatal, o general Hugo Banzer Suárez mandou o Exército erradicar as áreas de cultivo de coca – chamada pelos nativos de “folha sagrada” – na miserável região do Chapare. Também ordenou a eliminação de cocaleiros resistentes, tudo para cumprir, após o recebimento de US$ 700 milhões, o militarizado e eufemisticamente batizado de Plano Dignidade. Inferiorizados em armas, os cocaleiros, depois de algumas mortes, resolveram armazenar sementes de coca, até a saída do Exército.
A renúncia de Lozada conduziu ao poder seu colega de partido e vice-presidente Carlos Mesa, que prometeu convocar eleições para uma Assembléia Constituinte e passar a Presidência ao eleito pela população. Tudo antes do término do seu mandato.
Diante das promessas, os rebelados voltaram para as suas casas. O deputado e líder cocaleiro Evo Morales embarcou para o México a fim de ministrar conferências sobre seu projeto de a maioria indígena assumir o poder na Bolívia. Por seu turno, o ex-presidente Lozada, com duplo domicílio, rumou para aquele situado nos EUA. Enquanto isso, os jornais norte-americanos revelaram ter a CIA escondido o real motivo do levante – as erradicações manu militari – e conseguido plantar na mídia uma farsa: venda de gás para os EUA. Mais uma vez, prevaleceu a lógica, pois no território norte-americano existem reservas naturais de gás maiores do que as bolivianas.

A calmaria levou Mesa a mudar de idéia e declarar a intenção de permanecer na Presidência até o fim do mandato. Também mudou de postura o recém-empossado ministro do Interior, Alfonso Ferrufino.
Quando da posse, Ferrufino prometera uma revisão na Lei 1.008, que regulamentou o cultivo de folha de coca e dividiu a Bolívia em áreas de cultivo lícito (até 12 mil hectares na região de Yungas) e de culturas proibidas (região do Chapare, no Departamento de Cochabamba). Ainda mais, ressaltou que o problema do plantio excedente de coca existente na região dos Yungas seria tranqüilamente resolvido em reuniões amigáveis com os cocaleiros.
Numa solenidade de aniversário da Unidad Móvil de Patrullaje Rural (Umopar) e aproveitando a presença do embaixador norte-americano, David Greenlee, o ministro Ferrufino recuou. Anunciou que as erradicações não seriam interrompidas. Frisou que não apresentaria projeto para mudança da Lei 1.008, pois isso seria uma iniciativa da competência exclusiva do Parlamento.

Sabe-se que o governo George W. Bush vai continuar, na Bolívia, a insistir com as erradicações forçadas, mascaradas com o oferecimento de ridículos projetos de cultivos substitutivos, como plantios de palmito, pimentão, abacaxi e banana. Até agora, pouco mais de 30 mil famílias residentes no Chapare optaram pelos cultivos alternativos. As poucas que conseguiram escoar e vender as safras só lucraram 20% do que conseguiam com a folha de coca.
Os cocaleiros do Chapare não dominam as técnicas agrícolas para os plantios propostos, que precisam de adubagem e irrigação: a coca cresce naturalmente. Até meados do século XX, o cocaleiro do Chapare trabalhava nas minas de estanho, prata e ouro de Oruro e Potosí. Em resumo, só sabe realizar a ceifa e a colheita das folhas de coca.
Para fechar esse trágico quadro a minar esperanças, o ex-presidente Lozada, na sua primeira entrevista nos EUA, admitiu que a economia boliviana depende da coca. Segundo declarou, a coca movimenta, anualmente, US$ 500 milhões e o total dos produtos bolivianos, incluída a coca, chega a US$ 1,5 bilhão.
No fim do primeiro mandato presidencial de Lozada (1993 a 1997), a Bolívia produzia, por ano, 270 toneladas de folha de coca. No Chapare, com as erradicações militarizadas, a produção caiu, em 2001, para 20 toneladas e os laboratórios de refino foram sustentados pela coca da região dos Yungas. No ano de 2002, como resultado da migração do plantio de coca em face das fumigações com herbicidas na Colômbia, as áreas de plantio na Bolívia cresceram em 60%, no Chapare e nos Yungas.
Como se percebe, as revoltas poderão voltar à Bolívia, pelo alinhamento do governo Mesa com a política da War on Drugs (Guerra às Drogas), ou seja, erradicações burras.


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