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Drogas Ilícitas

 

Os cocaleiros e os gringos

Por IBGF/WFM

O dinheiro evaporou. Meteram a mão numa grana alta, US$ 180 milhões, como concluiria, com som musical de fundo, qualquer cucaracho. Este, um apelido dado pelos norte-americanos aos nascidos na América Latina e, em especial, aos imigrantes e descendentes, moradores nos bairros de língua espanhola de Nova York, Los Angeles e algumas outras regiões do sul. Os da América anglo-saxônica, nascidos nos EUA, acabaram consagrados como gringos. Coube a Gonzalo Sánchez de Lozada, no curso do seu primeiro mandato como presidente da Bolívia, ou seja, de 1993 a 1997, receber os mencionados US$ 180 milhões fornecidos pelos norte-americanos. Em troca, assumiu o compromisso de na Bolívia erradicar áreas de plantio de coca, cuja folha é a matéria-prima para o fabrico do cloridrato de cocaína.
O interesse norte-americano era justificável. Nos EUA, o mercado da cocaína é forte. Movimenta anualmente cerca de US$ 50 bilhões. Campeões mundiais de consumo de todo tipo de droga ilícita, os gringos já chegaram a consumir, num ano, cerca de 500 toneladas de cocaína, quantidade suficiente para destruir muitas narinas e produzir milhares de pedras de crack, inventado nos EUA e cujo nome decorreu do barulho produzido pelo aquecimento da cocaína petrificada, no momento do consumo.

Os movimentos populares levaram Mesa à Presidência
Os dólares não chegaram à paupérrima região boliviana do Chapare, que no mapa fica abaixo de Cochabamba. Um lugar que tem papel fundamental para a Bolívia ocupar o 104º posto na classificação mundial realizada com base em índices de desenvolvimento humano: 0,648 boliviano ante 0,75 do Brasil, que ocupa o 69º posto.
Os miseráveis camponeses do Chapare vivem com menos de US$ 2 ao dia e têm como único cultivo de subsistência a folha de coca. Ou melhor, uma cultura de sobrevivência, pois outro produto agrícola não encontra espaço para venda no mercado interno.
Na verdade, os dólares encaminhados ao então governo de Lozada não significavam cooperação, mas uma forma de intromissão na Bolívia, em cima de um então presidente de perfil filo-americano, ainda dono da maior mineradora boliviana e que fala espanhol com sotaque inglês em razão de sua formação nos EUA.
Uma comparação para melhor explicar essa intromissão sobre a erradicação do plantio da coca: seria algo semelhante ao oferecimento de recursos financeiros para o governo norte-americano acabar, no seu território, com os consumos tradicionais do café, tabaco, vinho, cerveja e gim. A intromissão gringa, então, desconsiderou estudos antropológicos e, também, desprezou testemunhos arqueológicos, ambos reveladores do fato inconteste de a mastigação da folha de coca representar hábito dos nativos andinos, desde 3000 a.C. Ou seja, 5003 a.B.P.B.J. (antes de Bush Pai e Bush Júnior).
A folha de coca sempre significou símbolo de identificação cultural dos povos andinos, como se pode extrair de leituras e pesquisas fundamentais, como La Coca y el Mundo Andino, Las Mejores Tradiciones y Leyendas de Bolivia, La Coca, Producción y Consumo en Bolivia, respectivamente de Baldomero Cáceres, Diaz Villamil e Vargas Romero. O seu emprego, mediante mastigação ou infusão, teve finalidade terapêutica, ritual e mística. Os camponeses usam a mascagem, ainda, para suportar a altitude, o frio, a fome e as adversidades do trabalho.
Os índios aimara e quéchua foram desfrutados como escravos nos 300 anos de dominação espanhola e, logo após o período colonial, na exploração das minas por Simon Patiño, mundialmente conhecido como o Rei do Estanho e cuja ajardinada mansão aristocrática, a mais bela de La Paz (sede do governo), foi comprada pelo nosso Itamaraty e é empregada como residência oficial do embaixador brasileiro.

A tradicional mascagem da folha de coca nada tem a ver com o consumo lúdico-recreativo do cloridrato de cocaína, produzido pelos economicamente potentes narcotraficantes, capazes de contrabandear insumos químicos necessários ao refino da folha de coca. E os narcotraficantes, organizados em sindicatos do crime ou em máfias, não se confundem com os indigentes campesinos do Chapare, organizados pelo aimara Evo Morales, de 43 anos, no Sindicato dos Campesinos Produtores de Folha de Coca da região do Chapare.
Foram encontrados na península de Santa Helena, no sudeste do Equador, potes de cerâmica, datados de 2100 a.C., utilizados para armazenar folhas de coca secas ao sol, para mastigação. Portanto, um antigo hábito andino. Outro bom exemplo é o da peça em cerâmica, elaborada entre 1600 a.C. e 1500 a.C., a representar a figura do mastigador de coca, em estilo chagras e com destaque às salientes bochechas onde o bolo de fibras de coca misturado ao calcário adoçante permanecia depositado para a sucção no curso do dia. Pelos cálculos atuais, cada nativo boliviano, por dia, masca de 25 a 75 gramas de folhas de coca. A mastigação da coca preservou os dentes dos nativos íntegros e sem cáries, como demonstrado em estudos de fósseis. Sem coca não teriam dentes, escreveu Klepinger, em 1977 e no seu consagrado livro Preistoric Dental Calculus Gives Evidence for Coca.

Banzer havia sido ditador e suspeito de ligações com os narcotraficantes e também com a Operação Condor
O respeitado pesquisador boliviano Vargas Romero, por sua vez, frisou em obra editada em 1986 “que a folha de coca integrou-se, no curso de milhares de anos, à vida diária das populações andinas”. A erradicação de Lozada levou a uma divisão topográfica em duas partes: cultivos lícitos e ilícitos. Ao tempo do primeiro mandato de Lozada e com os US$ 180 milhões recebidos, ficou definitivamente demarcada a divisão topográfica boliviana: área de cultivo permitido de coca e área de cultivo proibido, ilegal.
Na região de Los Yungas de La Paz admitiu-se o cultivo da coca para comercialização: a região escolhida talvez tenha sido em homenagem ao norte-americano John Pemberton, que lançou, em 1886, a Coca-Cola, à época rica em extrato de coca boliviana e cafeína. E o Chapare virou o lugar do cultivo proibido.
Na primeira tentativa de erradicação empregou-se o Exército e a polícia e houve trágicas violações de direitos humanos. A violência empregada acabou levando Evo Morales a fundar o primeiro sindicato de cocaleiros campesinos produtores de folha de Coca.
Pelo voto popular, o general Hugo Banzer Suárez sucedeu Lozada em 1998. Antes, Banzer havia sido ditador e suspeito de ligações com os narcotraficantes e também com a Operação Condor, voltada à eliminação física, pelas ditaduras latino-americanas arregladas com o governo norte-americano, de líderes revolucionários de esquerda.
O Exército do governo Banzer invadiu o Chapare e matou cocaleiros, numa frustrada tentativa de erradicação, mascarada de preparação à introdução de cultivos agrícolas substitutivos à coca. Chamou-se a isso Plano Dignidade, em que a ONU e os EUA enfiaram mais de US$ 700 milhões, parte desviada pela corrupção: até uma gigantesca frota de táxis foi constituída em La Paz – muito distante do Chapare – com dinheiro desviado do Plano Dignidade.

Para os cocaleiros do Chapare, o segundo governo Lozada preparava com a Drug Enforcement Administration (DEA) nova erradicação. Seria uma espécie de extensão ao Chapare do militarizado Plano Colômbia. Feita uma analogia com o presidente da Colômbia, Lozada seria o Álvaro Uribe boliviano: ambos a desfraldar a bandeira norte-americana da War on Drugs (Guerra às Drogas).
A recente revolta popular, apoiada pelos cocaleiros, levou, numa solução constitucional, Carlos Mesa, vice e do mesmo partido de Lozada e do falecido Banzer, à Presidência da Bolívia. Um país de 8,3 milhões de habitantes, onde 65% da população composta de índios é governada por uma elite que representa apenas 5% e sempre pronta a entregar os recursos naturais para exploradores estrangeiros, como aconteceu com a privatização da exploração do gás natural no primeiro governo de Lozada.
Por enquanto, a CIA esforça-se para passar, aos vizinhos países sul-americanos, a falsa imagem de um Evo Morales como traficante de drogas. Não vai demorar para ser rotulado de terrorista. Não há surpresa alguma: quem não sabe do que os gringos são capazes?


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