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NARCOMILITARIZAÇÃO andino-amazônica, no governo colombiano de Pastrana, antecessor de Uribe

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

Narcomilitarização andino-amazônica

O governo Pastrana está terminando e o seu processo de pacificação pouco avançou nos três anos de vigência. Nesse período, os conflitos provocaram 3.500 mortes e 1,2 milhão de colombianos deixaram o país por causa da violência.

Os paramilitares, no ano passado, mataram um sindicalista a cada três dias. São oito as organizações paramilitares -as AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) é a principal-, as quais praticam o chamado terrorismo de Estado, pois têm o velado apoio do Exército e gozam da simpatia norte-americana.

Com razão, os paramilitares acusam as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) de lucrar com o tráfico de drogas, por meio do "imposto revolucionário", e de promover extorsões mediante sequestro, mantendo as vítimas em cativeiros na zona desmilitarizada. Apenas não contam os paramilitares que fazem as mesmas coisas nos territórios que dominam.

A situação colombiana agravou-se com as últimas declarações de W. Bush, que considerou as Farc uma organização terrorista e, com isso, aproveitou para reforçar a recém-criada IRA (Iniciativa Regional Andina), que absorverá o Plano Colômbia, de Clinton.

Assim, colocou W. Bush o terrorismo ao lado do narcotráfico, criando mais um pretexto intervencionista na América Latina. Algo capaz de ocultar interesses estratégicos, econômicos e militares: 75% da reserva de água doce do mundo encontra-se na região amazônica. A biodiversidade mantém-se inexplorada e outros recursos naturais abundam, como petróleo, minérios, madeira etc.

Coube à embaixadora americana Anne Petterson abrir caminho. Em Bogotá, insinuou ligações das Farc com o Taleban e do septuagenário guerrilheiro Manuel Marulanda, apelidado de "tiro-certo", com Osama bin Laden.

Os candidatos à sucessão de Pastrana não pretendem manter a política de pacificação, que, segundo pesquisas, não conta com a aprovação da população.

O conceito de terrorismo de W. Bush, no entanto, não coincide com o dos juristas europeus. Distinguem eles a eversão do terrorismo. Na eversão, busca-se subverter a ordem constitucional para alcançar o poder, atuando dentro dos limites territoriais do Estado: caso das Farc, que não dão suporte ao terrorismo internacional. O contrário verifica-se na organização terrorista Al Qaeda, que difundiu o medo pelo planeta, valendo lembrar os recentes ataques aos EUA e os anteriores às embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia.

Em 1998, Pastrana encontrou-se com Marulanda. Para obter tranquilidade no curso do processo de paz, cedeu às Farc, em 1999, um território de 242 mil km2. Governo e guerrilha relacionaram 47 questões fundamentais, mas o processo de paz pouco avançou. Por causa de posições inconciliáveis e por causa da pressão americana para que as Farc abandonassem as armas. A respeito, foi marcante o alerta de Pastrana: "O Estado colombiano não tem autoridade moral para pedir o abandono às armas. Das vezes anteriores, houve concordância e a guerrilha quase acabou dizimada".

Os EUA intensificarão a estratégia que usa o narcotráfico como um pretexto e a militarização como um método

O governo Pastrana e as Farc mantiveram um diálogo de surdos. Pretendeu o governo adotar o sistema centro-americano, com a incorporação da guerrilha ao sistema político, como na Guatemala, na Nicarágua e em El Salvador. Para as Farc, isso resultaria em poucas cadeiras no Parlamento e na impossibilidade de promover seu projeto de justiça social, com reforma agrária nos latifúndios improdutivos, suspensão das privatizações, democratização do Exército e reformas judiciária e fiscal.

Pastrana, é certo, terminará seu mandato assistindo a disputas internas.

Até o final de seu governo, os paramilitares continuarão tentando eliminar as Farc e o ELN (Exército de Libertação Nacional). Os norte-americanos manterão a guerra de baixa intensidade, treinando o Exército e apoiando o fumigamento nas áreas de plantio de coca -acreditam que a eliminação do plantio cortará a principal fonte de sustento financeiro da guerrilha.

Seguirá o governo Pastrana controlando uma porção territorial onde estão localizadas plantações de café, usinas hidrelétricas, portos e aeroportos, indústrias e parte da pecuária. As Farc permanecerão na zona sul-oriental, onde estão reservas de petróleo, importantes rios amazônicos, parte significativa da pecuária, plantações de coca e laboratórios de refino de cocaína. O ELN ficará na zona norte-ocidental e em parte do Orinoco, regiões ricas em algodão, café, coca e papoula, para produção de heroína. Os AUC manterão a zona do médio Madallena, de produção de açúcar, café, coca, heroína e gado.

Com essa divisão, guerrilha e paramilitares continuarão a receber, como as máfias, comissões sobre o produzido nos territórios dominados.

No período pós-Pastrana, intensificarão os norte-americanos a estratégia que usa o narcotráfico como pretexto e a militarização como método. O centro de interesse permanecerá sendo a rica e estratégica região andino-amazônica.

Em outras palavras, a narcotização da Colômbia -empregada como propaganda e disfarçada em luta a favor da humanidade- e a militarização -encoberta com a máscara da guerra às drogas e voltada ao adestramento e à cooptação das Forças Armadas. O terrorismo, entrará como soldado de reserva, a justificar atos de império.

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