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Drogas Ilícitas

 

Bodes expiatórios- o usuário como culpado

Por IBGF/WFM

Demonizar condutas para culpar pessoas é uma fórmula que resiste aos séculos e continua empregada largamente. No Brasil e em outros países do Terceiro Mundo dependentes da política norte-americana da War on Drugs (Guerra às Drogas), uma questão sanitária, relativa ao uso de substâncias naturais ou sintéticas, foi recém-eleita como causa principal da escalada da violência e do fortalecimento da criminalidade organizada.
A culpa, por evidente, recaiu no consumidor lúdico e no dependente químico. São eles os novos bodes expiatórios e, por isso, conduzidos à execração pública, aproveitada para impactar a passagem do primeiro aniversário do assassinato do jornalista Tim Lopes e os recentes episódios de violência e corrupção nos nossos grandes centros urbanos.
A tarefa de demonizar o consumidor está a cargo das agências norte-americanas de inteligência (CIA) e de drogas (DEA), que usam como caixas de ressonância os adeptos brasileiros da estratégia gringa da Tolerância Zero às substâncias proibidas nos EUA. Dentre os adeptos, estão os virtuosos Garotinhos, governadora e secretário, sempre prontos a pegar carona para transferir culpas e responsabilidades.

Enquanto o foco da culpa se concentra no consumidor de drogas, bilhões de dólares sujos são reinvestidos nos sistemas bancário e financeiro internacionais, sempre fora do foco.
Segundo estimativa do National Intelligence Council, um movimento anual de US$ 100 bilhões a US$ 300 bilhões deriva da reciclagem do dinheiro das drogas proibidas. Para a Organização das Nações Unidas (ONU), o montante varia de 3% a 5% do PIB planetário e, no ano de 2002, a lavagem do dinheiro das drogas alcançou a casa dos US$ 400 bilhões. Na avaliação do Banco Mundial, as cifras são pouco superiores a US$ 100 bilhões anuais.
Pelos mencionados sistemas passam, também, US$ 290 bilhões do tráfico ilegal de armas de fogo e perto de US$ 12 bilhões referentes aos deslocamentos proibidos de lixo tóxico radioativo.
Como se nota, relações promíscuas de interesses financeiros enlaçam os Senhores do Crime e os Senhores dos Negócios Lícitos.
Narcotraficantes fardados de generais contribuem para o “enriquecimento” dessas relações promíscuas, como sucede com a junta ditatorial de governo de Mianmar (ex-Birmânia) e ocorreu com antigos generais latino-americanos, tipo Noriega.

Também fortalecem os sistemas referidos os países com economia dependente do mercado das drogas e a venda camuflada de insumos produzidos pelas indústrias químico-farmacêuticas, pois sem esses precursores não há refino de drogas nem composição de drágeas sintéticas.
Nesse contexto em que imperam o cinismo e a ambigüidade, nada melhor do que deixar as pessoas pensarem que a culpa é do usuário de drogas. Daí as lições, as campanhas e as parcerias extraídas do manual apologético imposto pelos governos americanos, a partir de Richard Nixon, e que na verdade esconde o que está por trás das drogas.
O fenômeno das drogas é usado como fachada para esconder interesses hegemônicos, estratégicos e econômicos. Em maio passado, Antonio Maria Costa, responsável pelo escritório da ONU sobre drogas ilícitas e prevenção à criminalidade, constatou ter o Afeganistão voltado a ocupar o posto de maior produtor mundial de ópio, destinado ao tráfico ilegal. A respeito, os norte-americanos avisaram Costa que, no momento, estão preocupados com o terrorismo e não com o aumento, no Afeganistão, da área de cultivo de papoula e a extração do ópio, destinado, como se sabe, à Europa.
Quando da luta para a expulsão do Exército russo do Afeganistão, o tráfico do ópio serviu para financiar os talebans e o grupo de Bin Laden, ambos aliados da CIA, que nunca se incomodou com isso. Agora, no Afeganistão, depois da expulsão dos talebans e da fuga de Bin Laden, os narcotraficantes ajudam na consolidação de um governo filo-americano.
Não são novos a cumplicidade e o incentivo da CIA aos traficantes de drogas e de armas de fogo. Nos anos 40 e 50, a CIA apoiou o chamado Exército Nacionalista Chinês (Kuomintang), que combateu ferozmente os maoístas. Os recursos do Kuomintang provinham de “taxas” cobradas pela produção e pelo tráfico do ópio. Portanto, procedimento igual ao empregado, na Colômbia, pelas guerrilhas e pelos paramilitares.

Nos anos 60, a CIA apoiou, no Laos, a guerrilha anticomunista conduzida pelo Patet Lao e as ações eram financiadas pelo comércio ilegal do ópio. A mesma CIA, nos anos 80, consentiu a venda de crack nos guetos pobres de Los Angeles e os temporários traficantes nicaragüenses repassavam os lucros às milícias anti-sandinistas. Esse episódio, denunciado no Congresso americano, foi apurado pela própria CIA e arquivado sem satisfações.
No Peru, Vladimiro Montesinos, ministro e agente da CIA, sustentou a ditadura Fujimori, apesar de ser apontado como traficante internacional de drogas. E Montesinos só se complicou quando vendeu armas para a guerrilha colombiana e acabou descoberto pela própria CIA.
O militarizado Plano Colômbia, rebatizado por Bush de Iniciativa Regional Andina, tem um rico budget destinado à erradicação química da folha de coca, matéria-prima para o preparo do cloridrato de cocaína e fonte de sustentação das guerrilhas colombianas de esquerda. Na invasiva política de drogas dos EUA, o tratamento dado atualmente ao Afeganistão, maior produtor de ópio, difere substancialmente do conferido à Colômbia, maior produtora de cocaína. Nos anos 80, o então presidente americano Ronald Reagan tornou-se famoso ao declarar “Guerra contra as Drogas Internacionais”. Para justificá-la, culpou os países que permitiam a oferta e prometeu, manu militare, erradicar as áreas de cultivo e combater os traficantes, sem fronteiras. Na verdade, Reagan usou a droga como fonte geradora de capitais para contrastar o “perigo comunista”. E também como pretexto para controlar territórios e violar soberanias. Diante de tantas ambigüidades, não se deve estranhar o fato de os norte-americanos continuarem a ser os maiores consumidores de drogas do planeta. Pior é que essa oportunista política de culpas, militarizada e criminalizante, acabou sendo imposta, em 1961, aos Estados membros da ONU, por meio da ainda vigorante Convenção Única sobre Entorpecentes.

Essa Convenção inspirou a lei brasileira sobre drogas, em vigor desde 1976. Ampliada e sempre à americana, serviu de paradigma à política nacional sobre drogas decretada pelo ex-presidente FHC.
Como para a alteração da referida Convenção há necessidade de unanimidade entre os Estados membros da ONU, diversos países europeus entenderam em abandonar essa linha política, buscando caminhos próprios. E nenhum país europeu carregou culpas nos usuários. Ao contrário, muitos países descriminalizaram ou despenalizaram o porte da droga para uso próprio. Iniciaram práticas redutoras de danos ao usuário e de riscos à sociedade.
A última novidade é o Pill Testing. Na Holanda, França, Áustria e Espanha, permite-se o funcionamento de laboratórios móveis, operados exclusivamente por agentes de saúde pública. Eles são levados a locais de concentração de jovens e testam as drogas que estão sendo utilizadas, de modo a evitar overdoses, internações e inúmeras causas derivadas do emprego de drogas contaminadas. Em outras palavras, não se buscam culpados que, efetivamente, estão em outros lugares.
Com efeito, a culpa atribuída ao usuário representa mais uma tentativa oportunista norte-americana que, pela desinformação e pânico no Brasil, procura conquistar a opinião pública. Isso tudo a fim de pressionar o Brasil a manter uma legislação criminalizante e a política adesista de FHC.


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