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Drogas Ilícitas

 

O Mercado das Drogas

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

*Publicado no jornal CORREIO BRASILIENSE, 3/11/2004.

O mercado de oferta de drogas ilícitas e os lucros obtidos pelas associações delinqüenciais transnacionais continuam a crescer pelo planeta.

Em levantamento recente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou que o volume de dinheiro sujo das drogas ilícitas, lavado e reciclado pela criminalidade organizada, representa de 2% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Alguns anos antes, em junho de 1998, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, por ocasião de uma Assembléia Especial, anunciou que o narcotráfico movimenta de 3% a 5% do PIB planetário.

Essas avaliações evidenciam a vulnerabilidade dos sistemas bancário e financeiro. Aliás, fato sabido e discutido na Convenção de Viena de 1988, voltada ao contraste ao tráfico ilícito de drogas.

Como se percebe, ficou para trás a fase de a criminalidade organizada no modelo mafioso roubar bancos. Modernamente, ela deposita o dinheiro sujo nessas instituições.

Para a National Intelligence Council, o mercado das drogas movimenta anualmente de US$ 100 bilhões a US$ 300 bilhões. As Nações Unidas estimaram a movimentação anual em US$ 400 bilhões, enquanto para o Banco Mundial o teto anual é de US$ 100 bilhões.

Como conseqüência desse fenômeno, o número de países com economia dependente das drogas aumenta significativamente. Nas proximidades, sempre funcionam lavanderias: na África Ocidental, lava-se na Ilha da Madeira e, no lado Oriental, em Madagascar.

Dois dados divulgados nessa última semana de outubro mostram o resultado da geoestratégia do narcotráfico.

Na Espanha, conforme revelado pelo secretário de Estado Antonio Camacho, o tráfico ilegal de drogas movimenta mais de 7,3 milhões de euros por ano. Por outro lado, na Holanda, em dois anos, circularam 300 toneladas de diversos tipos de drogas proibidas. E das 4,6 toneladas de anfetaminas apreendidas no âmbito da União Européia, cerca de 45% provinham da Holanda.

Enquanto a Albânia é chamada de Colômbia européia, o Paraguai, na América do Sul, desponta como grande produtor de maconha transgênica, para atender à demanda no Brasil, na Argentina e no Uruguai. Apenas no Chile houve queda no consumo de maconha.

Na cidade paraguaia de Capitán Bado, próxima ao Brasil, plantam-se sementes de maconha geneticamente modificadas há um ano. A erva canábica de Capitán Bado tem cheiro de menta, para afastar os cães da polícia. Além disso, o primeiro corte ocorre em 90 dias do plantio, enquanto, com a semente comum, o prazo era de seis meses.

Vale lembrar, ainda, a nova forma de pressão empregada pela criminalidade paraguaia. Ela vende proteção aos fazendeiros, a pretexto de evitar invasões por “campesinos sin tierra”. Em troca, os fazendeiros fingem não perceber, no interior das matas dos seus latifúndios, o cultivo da marijuana em pequenas clareiras.

No Departamento (Estado) paraguaio de Canindeyú, as sementes geneticamente modificadas permitiram adaptações climáticas dos plantios. Assim, conseguiu-se um ciclo contínuo e lucrativo de produção durante os 12 meses do ano. Os plantios de marijuana migraram de Amambay para Canindeyú, que faz fronteira com o Mato Grosso do Sul.

Do lado colombiano, enquanto prosseguem os despejos de herbicidas em áreas de plantio de coca por aviões da empresa norte-americana Dyn Corp, os cartelitos investiram US$ 150 milhões em pesquisas. Tiraram a cocaína transgênica, encontrada em Sierra Nevada, na região de Santa Marta.

O componente estimulante da folha de coca transgênica colombiana varia de 97% a 98% contra 25% da folha normal. A folha normal é colhida em oito meses e a transgênica, na metade do tempo. Em síntese, lucros a compensar perdas com a forma militarizada de fumigação, introduzida pelo Plan Colômbia.

No mês de junho, a Organização Aduaneira Mundial (WCO), sediada em Bruxelas, alertou para o crescimento do tráfico ilegal de haxixe (derivada da cannabis), que atingiu 335 toneladas em 2003. Essa droga, originária do Marrocos, passa pela Espanha e se espalha por toda a Europa Ocidental.

O Marrocos tem a sua economia dependente da cannabis. O cultivo ocorre nas zonas de Rif e Yebala. O impacto social desse cultivo é visível: um milhão de pessoas dependem diretamente da cultura da cannabis e mais de 1,5 milhão sobrevive do transporte e do tráfico

A área de cultivo de cannabis no Marrocos ultrapassa os 250 mil hectares, gerando uma oferta anual de 3 mil toneladas de haxixe. Em dinheiro, representam um total de US$ 10 bilhões por ano.

No Afeganistão, os senhores das guerras, aliados dos norte-americanos, são também os senhores do ópio. O total obtido com o tráfico do ópio é bem superior à ajuda internacional de reconstrução do país, após o regime dos talebans.

O quadro internacional acima mostra que o passar do tempo e os múltiplos interesses em jogo, de ordem econômica, estratégica e hegemônica, impedem modificações das ultrapassadas Convenções da ONU.


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