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Drogas Ilícitas

 

Rede Furada:narcotráfico continua imbatível

Por WFM-CARTACAPITAL

Acontece como num jogo de futebol. O chute potente pode romper algumas malhas da rede, mas a partida não acaba. Na repressão às drogas ilícitas, é comum a polícia romper malhas de redes internacionais de narcotráfico, sem comprometer a oferta.

Por todo o planeta, as polícias conseguem apreender de 5% a 10% do colocado anualmente no mercado planetário de drogas ilícitas. Ou seja, o “bolso” das organizações criminosas sofre desfalque de migalhas.

A falta de efetiva cooperação internacional contribui para o insucesso da redução de oferta. Dois exemplos, tirados da semana passada, ajudam a compreender esse problema. O primeiro deles ocorreu no Brasil, com a “Operação Esteira Livre”. O outro resultou do meeting vienense patrocinado pelas Nações Unidas, numa tentativa de fazer decolar o “Pacto de Paris”.

Por partes. A Operação Esteira Livre(divulgada em outubro de 2004), depois de dois anos de percuciente trabalho investigativo da Polícia Federal, resultou em 21 prisões, com peixes graúdos. Uma associação de traficantes-investidores, baseada no Rio, adquiria cocaína na Colômbia, no Peru e na Bolívia. O Brasil era o corredor para passagem da cocaína endereçada a Portugal, Espanha e Holanda.

Segundo a PF, há dez anos caminhões e automóveis transportavam mensalmente de 10 a 60 quilos de cocaína para descarregamento no Rio. Com a conivência de empregados da empresa prestadora de serviços de manuseio de cargas para a Infraero, no Aeroporto Internacional Tom Jobim, a droga era embarcada nas bagagens dos “mulas”.

O empresário Ricardo Dantas Valente foi preso sob suspeita de financiar as ações criminosas. Outro financiador seria Leonardo dos Santos Aquino, dado como contraventor do jogo do bicho e explorador suburbano de 60 pontos de máquinas eletrônicas de caça-níqueis.

Sônia White e John White Junior cuidavam da parte administrativa. Por coincidência, são mulher e filho do norte-americano John Michael White, preso em 1999 na Barra da Tijuca. John usava aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para traficar cocaína para as Ilhas Baleares, tudo com a conivência de dois oficiais da Aeronáutica.

Um dos executivos dessa associação de narcotraficantes, Wilson Vasconcelos, “lavava” o dinheiro da droga na compra de armas de fogo na Argentina. As armas eram vendidas no Complexo da Maré e no Morro do Turano, tudo consoante o divulgado pela polícia.

Analisados o organograma dessa associação de narcotraficantes e as prisões, fica evidente ter faltado à nossa Polícia Federal a desejada cooperação internacional. Nos dois anos de investigações, a PF não conseguiu chegar aos responsáveis pelas organizações de refino e de oferta de cocaína na Colômbia, no Peru e na Bolívia. Da mesma forma, não logrou chegar à identificação dos grupos de distribuição de cocaína em Portugal, na Espanha e na Holanda.

Com atuação no território brasileiro, a Operação Esteira Livre individualizou seis “mulas”, três pessoas que realizavam o “contato” com os europeus e um marroquino incumbido do transporte terrestre da droga.

Como se percebe, apenas a malha da rede brasileira de passagem da cocaína foi desmantelada, com pleno êxito e competência pela Polícia Federal. Pela falta de cooperação internacional, os pólos originários de oferta e os de distribuição capilar européia continuam íntegros.

Não só o Brasil enfrenta dificuldades com a cooperação internacional. A Europol, como polícia da União Européia, encontra resistência das polícias dos Estados membros. E essas não se comunicam a contento. Nas Américas, prevalece a influência norte-americana, com a conhecida estratégia de colaborar apenas quando lhes interessa. Pior, agora se empenham em colocar o presidente venezuelano Chávez como omisso e até fautor do tráfico.

Em maio de 2003 foi celebrado o chamado “Pacto de Paris”, subscrito por 55 países. O pacto resultou da Conferência Ministerial sobre Rotas de Drogas Ilícitas da Ásia Central à Europa. Havia necessidade de cooperação internacional, em especial pelo fato de o Afeganistão, pós-talebans, ter voltado a se transformar no maior produtor mundial de ópio e heroína. A movimentação financeira com o ópio suplanta a ajuda internacional para a reconstrução do Afeganistão.

Apesar do Pacto de Paris, os campos de papoula e a oferta do ópio só aumentaram no Afeganistão. Daí a reunião do grupo consultivo do Pacto de Paris. Pretende o escritório de drogas e prevenção ao crime da ONU tornar efetiva a cooperação, a começar com o controle de fronteiras. Só falta saber como os senhores da guerra e do ópio, aliados da Casa Branca, vão permitir.

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