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Drogas Ilícitas

 

Narcotráfico e Ocasiões

Por WFM-CORREIO BRASILIENSE

http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20020817/pri_opi_170802_94.htm

Correio Braziliense, Opinião

Percebe-se, muitas vezes, que a cooperação internacional no combate ao narcotráfico é utilizada como máscara para esconder os interesses econômicos, estratégicos e hegemônicos dos norte-americanos.

As formas tradicionais empregadas para impedir a difusão das drogas proibidas têm conduzido a modestíssimos resultados. Não precisa uma pessoa ser estudiosa do fenômeno das drogas para notar que a rede criminal de sustentação do narcotráfico opera em escala global, enquanto a repressão age quase exclusivamente em escala nacional, dentro das fronteira do país.

Essa network planetária do narcotráfico enseja lucro vultoso, estimado pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas como variando de 3% a 5% do PIB mundial. E cresceu o número de países envolvidos no mercado das drogas ilícitas. Com isso apareceram os narco-Estados, os países cúmplices e os novos centros para lavagem de dinheiro e reciclagem de capitais branqueados, como as ilhas de Madagascar e da Madeira. Elas atendem ao narcotráfico africano, pelos lados dos oceanos Atlântico e Índico.

A economia submersa alavancada pelo narcotráfico reforça o PIB de vários países e já existem nações com economia dependente da movimentação da droga. Na Bolívia, o ex-presidente Hugo Banzer, quando promoveu a erradicação forçada de coca na região do Chapare, calculou que o PIB do seu país sofreria queda de 10%.

A marcante dependência abriu espaço para os ‘‘senhores do narcotráfico’’ tornarem-se ‘‘senhores da política’’, encantando as elites governantes com o repasse de generosas quantias de narcodólares. O dinheiro do tráfico de drogas, incluída a troca destas por armas, sustentou recentes conflitos, como os ocorridos na Albânia, no Kosovo, na Sérvia, na Turquia, na Macedônia, na Birmânia e no Afeganistão.

Vale ressaltar, portanto, que, sem a corrupção, não existiria o narcotráfico. No caso, uma corrupção endêmica a afetar países de produção, consumo e passagem de drogas e precursores químicos. E os insumos químicos são indispensáveis ao refino e à composição de drogas sintéticas.

Com efeito, as máfias descobriram, há tempo, que o cânhamo da Índia e a papoula do Oriente poderiam ser cultivados em outras distantes regiões. O cânhamo acabou virando maconha no Brasil e marijuana no México. O ópio passou a ser extraído da papoula cultivada na Colômbia e no México, ou seja, em locais distantes do Oriente.

A mesma estratégia de transferência geográfica foi utilizada pelas máfias com relação ao arbusto da coca. Colocou-se de lado a crença de o desenvolvimento da coca apenas ocorrer na região andina. Assim, a folha de coca vingou também na Geórgia (próximo à fronteira com a Turquia), na ilha Samoa (Pacífico) e na República Democrática do Congo (ex-Zaire), onde se instalou uma rede de laboratórios de refino da cocaína na capital Kinshasa, segundo apurou o extinto Observatório Francês de Geopolítica de Drogas.

Para enfrentar o Plano Colômbia, agora chamado por W.Bush de Iniciativa Regional Andina (IRA), os capitalistas do narcotráfico investiram em modernas técnicas agrícolas. Procuraram alcançar aumento na produção de folhas de coca. Eles sabiam que os norte-americanos iriam aumentar o despejo de potentes herbicidas nas áreas de cultivo da coca, apesar dos danos ambientais. Melhoraram as técnicas e plantaram em áreas sob proteção da guerrilha. Sucesso pleno.

Para se ter idéia, a produção anual colombiana de cloridrato de cocaína oscilou entre 500 e 700 toneladas nos anos 90. Entre 1995 e 2001, as áreas de cultivo cresceram e atingiram 170 mil hectares. E os norte-americanos reconheceram, por publicação do seu Departamento de Estado que circulou em março de 2001, ter a produção de folhas aumentado, na Colômbia, 6%.

É certo que as fumigações aniquilaram cerca de mil hectares na Colômbia, entre janeiro de 2000 e junho de 2001. Mas as áreas de plantio deslocaram-se para outras áreas protegidas e atingiram 169.566 hectares no final de 2001.

Por outro lado, o lucro obtido pelos narcotraficantes internacionais não foi afetado pelas erradicações de coca realizadas no Peru e na Bolívia, em operações realizadas com o auxílio financeiro da ONU e dos EUA. Nesses dois países, anunciou-se que as áreas de cultivo de coca reduziram-se de 150 mil para 40 mil hectares.

Mais ainda, os norte-americanos e a ONU não contaram que as reduções no Peru e Bolívia foram compensadas e superadas pelos aumentos ocorridos na Colômbia. Também não revelaram que na Bolívia e no Peru, de 1999 a 2001, os cartéis já recuperaram 20 mil hectares.

Como se verifica, as estratégias mafiosas são mais eficientes do que as encampadas pelos norte-americanos e as convenções das Nações Unidas que influenciam. Percebe-se, muitas vezes, que a cooperação internacional no combate ao narcotráfico é utilizada como máscara para esconder os interesses econômicos, estratégicos e hegemônicos dos norte-americanos. No tempo em que os fundamentalistas do Talibã eram aliados dos norte-americanos, nunca houve despejo herbicida nas áreas de cultivo de papoula e o Afeganistão era o maior fornecedor mundial de ópio.

Wálter Fanganiello Maierovitch, ex-secretário Nacional Antidrogas, é juiz do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, presidente do Instituto Giovanni Falconi de Ciências Criminais e professor visitante da Universidade de Georgetown (Washington)


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