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Drogas Ilícitas

 

Preso o n.1 das Drogas. Don Diego Montoya Sanchez

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

Reprodução de artigo de 6/11/2002.

Don Diego, 45 anos, fundador e chefe do Cartel do Valle Norte.



"Diego Montoya Sánchez, de 41 anos (em 2002), está com a cabeça a prêmio. Cabeça que vale US$ 2 milhões, mas que deve subir de preço.

Há dois anos o colombiano Don Diego está sendo caçado pela DEA, pela CIA, pelo FBI e pela polícia colombiana. Existe um mandado internacional de captura contra ele. Motivo: Diego Montoya é o número 1 do tráfico internacional de drogas e controla o Cartel do Valle Norte.

A heroína que começou a chegar ao Brasil provém de papoulas cultivadas nos seus campos e é refinada nos seus laboratórios. Don Diego está apostando no mercado brasileiro, em face da redução do consumo dessa droga narcótica (depressora, reduz a atividade cerebral e dá sonolência de um Morfeu) nos EUA e na Europa.

Os consumidores americanos e europeus migraram para as metanfetaminas, que são drogas sintéticas psicoativas. Preferem ficar agitados, ligados. Daí o Cartel do Valle Norte estar ofertando a heroína aos brasileiros. Antes, forneciam 90% da produção aos EUA e o restante ao México.

O cartel de Don Diego usa o Brasil como corredor de passagem da cocaína destinada à Europa. Ele sabe da regra que todo país de trânsito vira grande consumidor. Isso já aconteceu com o Brasil, uma alegria para o bolso de Don Diego e seus dependentes.
O prêmio pela sua captura está estampado em panfletos espalhados pelas regiões colombianas de plantio e refino de coca, papoula e marijuana. Poderá subir e aproximar-se do oferecido por Pablo Emilio Escobar Gaviria. Em 1993, a encomenda pela morte de Escobar chegou a valer US$ 6 milhões.

Para localizar Escobar, os norte-americanos selecionaram e treinaram um grupo policial de elite, imune à força corruptora do Cartel de Medellín. Essa elite integrou o comando batizado como Bloque de Búsqueda.

Esse comando de elite sustentou-se nas informações dos paramilitares de direita, envolvidos no combate às duas guerrilhas de esquerda. As Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), por meio do seu coordenador, Carlos Castaño, tiveram papel fundamental na eliminação de Escobar.

Na busca de Escobar, a norte-americana Drug Enforcement Administration (DEA) chegou a empregar aviões dotados de equipamentos radiogoniométricos. A DEA procurava captar, em algum lugar da Colômbia, a voz de Pablo Escobar. Também os sonoros estampidos de uma pistola Sig Sauer, de 9 milímetros, sua inseparável arma.

A captação de voz foi eficaz quando, avisados pelos paramilitares de Castaño, os vôos deixaram a região de selva e concentraram-se no espaço de Medellín. Escobar escondia-se numa casa da sua propriedade, no bairro Los Olivos, e comunicava-se por rádio. Tal sistema de triangulação radiogoniométrico não serviu para surpreender o terrorista Bin Laden.

A premiação ou a troca sempre integram as estratégias norte-americanas. O dinheiro serve para atrair mercenários e incrementar a deduragem, quer pela cupidez individual, quer pelo desejo hegemônico de organizações criminosas rivais.

Exemplo conhecido de troca envolveu Carlos Lehder, um dos maiores narcotraficantes do século passado. Lehder escolheu as Bahamas para montar seu entreposto de cocaína.

Preso e extraditado para os EUA em 1987, Lehder acabou condenado a 135 anos de prisão. Delatou o ditador panamenho Manuel Noriega. Recebeu, em troca, a redução da pena, de modo a ganhar a liberdade vigiada. Noriega, o general narcotraficante, continua preso. Está condenado à pena de prisão perpétua, graças à contribuição de Lehder.

Com o El Patrón, apelido de Escobar, a população silenciou. Nada de delações. Ele era considerado um benfeitor, como ficou evidente no seu concorrido funeral. Escobar criou 3 milhões de empregos, para dar sustentação ao seu Cartel de Medellín. Para isso, transferiu o plantio e o refino da coca do Peru e do Equador para a Colômbia.

As coisas estão acontecendo de forma diferente na busca a Don Diego. Os representantes do governo W. Bush vacilam, pois são conflitantes muitos dos interesses políticos em jogo. Tudo porque Don Diego financia os paramilitares das AUC, chefiados por Carlos Castãno, sempre em luta permanente contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Don Diego injeta pesadamente dólares no Bloque Calima, das AUC, que atua no Departamento de Cauca, onde se encontra parte substancial da reserva petrolífera colombiana. Financia, ainda, as Autodefensas Campesinas Rojo Ata (Acra), no Departamento de Tolima. E é Don Diego quem, na região do Valle, investe no refino e plantio de papoula em Tolima, Cauca e Nariño.
Uma outra peça desse quadro interesseiro diz respeito ao recém-empossado presidente Álvaro Uribe. Sempre gozou da fama de aliado dos direitistas das AUC. Quando era governador, armou civis num projeto para enfrentar a violência dos insurgentes das Farc.

Vale acrescentar possuir Don Diego um coeso e bem armado ‘exército privado’. Recentemente, colocou seu potente ‘exército’ para combater o denominado Bloque Ocidental das Farc, chefiado pelo guerrilheiro comunista Pablo Catatumbo.
Os chefes militares do Cartel do Valle atendem pelos apelidos de Chocolate e Pelé - mas não são brasileiros. O brasileiro que negocia a compra de drogas com o Cartel do Valle é conhecido por Pedro Brá (de Brasil). Desconhece-se até hoje a identidade real de Pedro Brá.

A batalha entre o Cartel do Valle e o Bloque Ocidental das Farc iniciou-se após o grupo de Catatumbo seqüestrar, em 11 de abril passado, 12 deputados regionais do Departamento do Valle.

Fora do campo de batalha, Don Diego e Catatumbo figuram como os maiores suspeitos do assassinato do monsenhor Isaías Duarte Cancino, de muito prestígio na região. As suspeitas recaíram em Don Diego e em Catatumbo em face de o clérigo criticar com veemência, nas prédicas, o narcotráfico promovido pelo Cartel do Valle e a guerrilha do bloco ocidental das Farc. Desejava motivar uma reação social.

Evidentemente, os paramilitares não têm interesse na prisão de Don Diego. Muito menos os mercenários, que são financiados pelas AUC, com dinheiro dele e não do Plano Colômbia, hoje rotulado de IRA (Iniciativa Regional Andina).

Muitos dos mercenários integram a força armada do cartel de Diego Montoya. Pelo divulgado na imprensa colombiana, os comandados de Don Diego massacraram 107 camponeses, na cidade de Trujillo, pertencente ao Departamento do Valle. Os camponeses executados eram considerados simpatizantes das Farc.

Em 1999, Don Diego acendeu ao high-ranking elaborado pela DEA e pela Interpol. Além da cocaína, seu Cartel do Valle fornece heroína e marijuana aos EUA e ao México. A carreira delinqüencial de Don Diego Montoya Sánchez começou no Cartel de Cáli, subordinado aos irmãos Rodríguez Orejuela. Atuou com os maiores nomes do narcotráfico internacional, como Alejandro Bernal Madrigal (Juvenal), Hermano Gómez (Rasguño), Helmer Pacho Herrera, José Santacruz Condono, Victor Julio Patino (Fomeque).

Esteve ligado aos irmãos Ochoa, potentíssimos narcotraficantes do Cartel de Medellín, que, depois das extradições para os EUA, se tornaram colaboradores da Justiça norte-americana.

Hoje, os três irmãos Ochoa - Fabio, Juan David e Jorge Luis - exploram suas grandes fazendas e criam cavalos de raça. No acordo com os norte-americanos, conseguiram preservar a fortuna conseguida com o tráfico de cocaína.


O Cartel do Valle do temido Don Diego estabeleceu-se na região ocidental colombiana, onde a principal unidade militar do país conta, na cidade de Tulua, com 110 homens. Os domínios do Cartel do Valle alcançam, também, parte do importante vale do Rio Magdalena.

O cartel domina plantios em Cauca, Tolima e Nariño e controla todas as saídas da droga pelo Pacífico. Mantém mais de 50 laboratórios de refino de heroína e cocaína nas áreas rurais de Roldanillo, El Guamo, Ortega e Ibaguè. Seus laboratórios refinam grande parte da coca produzida em Guaviare, Vaupes, Caquetà e Putumayo.

Ao Cartel do Valle atribuiu-se o aumento internacional de oferta da cocaína. No último ano, a Colômbia conquistou outros 5% do mercado consumidor de cocaína. Ou seja, a Colômbia já fornece 85% da cocaína consumida no planeta.


Por baixo, a ONU, pela sua agência de drogas sediada em Viena (UNDCP), estimou em 1.200 toneladas a quantidade de cocaína exportada anualmente pela Colômbia.

Nos EUA, Don Diego foi condenado por liderar organização criminosa colombiana dedicada ao tráfico internacional de cocaína e heroína. A sentença é de 4 de novembro de 1999. A pena imposta pelo juiz federal Stephen Brow foi a de prisão perpétua.
O processo condenatório derivou do fato de Don Diego ter exportado para os EUA mais de mil toneladas de cocaína pura em um ano. Essa droga foi embarcada em portos do Equador e do México.

No México, houve acordo entre os cartéis do Valle e de Tijuana. Este último cartel foi mostrado no filme Traffic e leva o nome da cidade que faz fronteira com a norte-americana San Diego. O cartel de Tijuana sempre cuida da remessa de drogas, a partir do Golfo da Califórnia.

Em termos de fortuna, Don Diego está distante da amealhada por Escobar. O Cartel do Valle não possui frota de aviões, preferindo terceirizar o transporte e usar pilotos autônomos. Ao contrário, Escobar mantinha uma frota de pequenos aviões, conhecida como Expresso da Cocaína. E a cocaína acabava chegando a Miami, Los Angeles, Nova York, Chicago, etc. Com o tempo, a apelidada ‘Rota da Farinha’ alcançou a África e a Ásia.

Assim como Escobar, Don Diego celebrou acordo com as máfias da Galícia - espanhola - que anualmente redistribuem 650 toneladas de cocaína colombiana para a Europa.

Por Cauca e Tolima, Diego Montoya circula em um velho jipe Willys. Muitas vezes, ao lado de uma conhecida modelo fotográfica. Como todos nessas cidades sabem, o casal passa os finais de semana às margens do Lago Calima.

No Brasil, a propaganda norte-americana pretende vincular as Farc com personagens sem importância no tráfico internacional, como Fernandinho Beira-Mar. E nada revelam a respeito das ligações entre Diego Montoya Sánchez e os paramilitares das AUC. A heroína que está chegando ao Brasil é refinada pelos laboratórios do Cartel do Valle, de Don Diego.

Como se pode perceber, Don Diego tem papel relevante com os paramilitares. Sua imagem, no entanto, macula a de Carlos Castaño, que se apresenta como o chefe de uma organização paramilitar que conseguiu, patrioticamente, vencer o narcotraficante Escobar.

As organizações paramilitares dependem dos financiamentos de Don Diego e, por si, não conseguem, no caso da sua prisão ou eliminação, operar internacionalmente o tráfico. Não conseguiriam sair da venda a varejo, no seu próprio território.

Importante lembrar que as novas e principais rotas de drogas percorridas pelos cartéis colombianos passam pelo Brasil. Do nosso país seguem em direção à Europa. No traçado das rotas, o Brasil conecta-se com países africanos: Senegal, Guiné, Libéria, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Gabão, Angola, Namíbia e África do Sul.

No Senegal, parte da droga é remetida para a Argélia e, pelo Mediterrâneo, chega à Espanha e a Portugal. Numa outra rota, há um giro pela Nigéria e ingresso na Ásia pelo Sudão e pela Somália.

São os cartéis que operam as redes internacionais e cuidam da reciclagem do dinheiro da droga em atividades formalmente lícitas. Para seus chefes, os movimentos rebeldes, de esquerda (insurgentes) ou de direita (paramilitares), promovem a extorsão, ou seja, exigem dinheiro para permitir o plantio, o refino e a circulação da droga.

Um dos lavadores do dinheiro da droga do Cartel do Valle chama-se Ever Villafagne. Foi preso na Colômbia no fim de 2000 e teve sua extradição para os EUA aceita pelo Judiciário. Antes de ser extraditado, no entanto, fugiu, em maio deste ano, do presídio colombiano de segurança máxima de Itagüí. Desde os tempos de Escobar, um presídio em muito similar ao nosso Bangu."
Wálter Fanganiello Maierovitch.


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