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Drogas Ilícitas

 

DROGAS: Amazonas. Tráfico internacional, homicídio, corrupção e ocultação de cadáver.

Por DANIEL FLEMING




*Da redação do Diário do Amazonas.

A juíza Jaiza Faxe do Tribunal Regional Federal sentenciou, anteontem, três policiais e um traficante pela morte do informante da Polícia Civil Santos Clidevar em maio de 2004.

Os pronunciados Felipe Arce Rio Branco (Coronel Arce), Ivan Cheley Castro e Costa de Moraes (Cheley), Rodolfo Lemos Soprano (Godô) e Ezequiel Araújo Melo (Kéia) vão à julgamento no Tribunal do Júri Popular por homicídio qualificado para ocultar tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico e corrupção ativa e passiva. Santos Clidevar, ex-policial civil, era reconhecido pela Polícia Federal como traficante internacional de drogas. Foi seqüestrado, algemado, morto e enterrado no Ramal do Toco, na BR174, Km 28 sob encomenda de Kéia, que pagou R$12 mil pelo assassinato.

O executor, segundo a sentença da juíza Jaiza Fraxe, foi Cheley, policial militar, autor dos disparos a queima roupa, sob o comando do Coronel Arce, Tenente Coronel e chefe do Departamento de Inteligência da Polícia Militar na época. Godô, também, policial militar, foi responsável pelo seqüestro de Clidevar. Os três dividiram o dinheiro pago pelo traficante do bairro do Coroado, zona leste. Clidevar foi assassinado por ameaçar delatar o crime de tráfico internacional de drogas chefiado pelo Coronel Arce.

No depoimento prestado à polícia Federal, Kéia mostra como foi a negociação para o homicídio “Ele (Clidevar) queria nos denunciar, gravou uma fita numa conversa minha, do coronel (Arce) e dele, fomos pagar uma propina para ele onde trabalhava. O Santos Clidevar era um homem muito perigoso, participou de grupo de extermínio e muitas coisas mais” informou o traficante. Clidevar era padastro de Kéia, que denunciou o esquema feito com os policiais militares. Na sentença, a juíza afirma não haver dúvida quanto à materialidade dos crimes cometidos, baseando-se no cruzamento dos depoimentos prestados ao Ministério Público Federal (MPF) e à ela, além de uma gravação telefônica onde Kéia negocia com Godô a morte de Clidevar. Apesar do silêncio do Coronel Arce durante os interrogatórios, a sentença afirma a responsabilidade dele. “Utilizando-se de sua posição na carreira de policial militar, valia-se da farda para acobertar traficantes de droga e cometer assassinato mediante pagamento de recompensa” escreveu a juíza na sentença. Os policiais Christian Zerbini Barros Ferreira, Luiz Neudison Azevedo da Silva e Carlos Faria da Silva, acusados de conduzirem Clidevar ao local onde foi enterrado e terem cavado o buraco, foram inocentados com base no artigo 22 do Código Penal, que prevê a exclusão de culpabilidade por obediência hierárquica. “Por fim, ao tomarem consciência de um ilícito, por espontânea vontade, interromperam a escavação correndo o risco de sofrerem penalidades em virtude do não cumprimento da ordem dada pelo Coronel e acusado Felipe Arce” sentenciou Jaiza.

- Coordenada.

Sentença mostra como funciona o tráfico em Manaus.

A sentença do Coronel Arce, do traficante Ezequiel de Araújo Melo (Kéia) e dos outros dois policiais militares revela, em seus interrogatórios, como funcionava o esquema de tráfico de drogas com o envolvimento de autos escalões da Polícia Militar em Manaus.

Tabatinga- Amazonas.




Kéia recebia a droga proveninente da Colômbia. Elas eram trazidas pelos Colombianos designados pelo traficante como Oscar Porra e Aguilar, que ficavam nas cidades de Tabatinga e Letícia. A droga era enviada à Manaus por barco. “Eles traziam até o porto e me entregavam. Eu pagava e ia embora” disse Kéia em depoimento ao Ministério Público Federal. Os contatos eram feitos por telefone que ele afirmou não possuir mais na ocasião. Quando a pasta base e a maconha chegavam em Manaus eram levadas para um sítio de propriedade de Kéia e processada para ser distribuída.

O traficante afirmou que ganhava dinheiro com o negócio e denunciou o envolvimento da polícia. “ Eu ganhava muito dinheiro com esse tráfico, mas a polícia me roubava todo”, disse.

Kéia relatou, ainda, que pagava uma mensalidade aos policiais para poder realizar o tráfico de drogas livremente e obter proteção policial.

Na sentença ficou claro a corrupção ativa e passiva do Coronel Arce. “Não fui eu que fui atrás desse homem (Arce) para correomper ele. Esse homem foi atrás de mim e, na primeira vez que ele me pegou, tive que pagar um bom dinheiro. Aí de lá ficamos acertados em R$1 mil por semana. Perto de eu ir preso ele me tomou R$50 mil” informou Kéia.

Histórico.

Dia 2 março de 2004 - Santos Clidevar é sequestrado, morto e enterrado pela quadrilha chefiada pelo Coronel Arce. Clidevar é dado como desaparecido.
Dia 14 de outubro de 2005 - Godô e Cheley são presos na carceragem da Polícia Federal durante a Operação Centurião.
Dia 29 de outubro de 2005 - Corpo de Santos Clidevar é encontrado pela Polícia Federal.
Dia 19 de dezembro de 2005 - Ezequiel Araújo Melo, o Kéia, denuncia todo o esquema.
Dia 10 de novembro de 2005- Coronel Arce é preso.
Dia 7 de dezembro de 2005 -
Inquérito da PF comprova participação dos policiais, que são indiciados.
Dia 29 de dezembro de 2005 - Coronel Arce depõe na Justiça Federal.
22 de março de 2006 - Clidevar é enterrado por seus familiares.
Daniel Fleming é jornalista, atualmente em Manaus, autor de dadosinversos.com, colaborador de narconews.com.
e-mail: dadfleming@yahoo.com.br
danielfleming82@hotmail.com


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