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CRIME ORGANIZADO: Últimas coisas da Cosa Nostra

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Livro testamento do juiz FALCONE, em relatos a Marcelle Padovani, do Nouvel Observateur.



Numa mesa de refeições da Cosa Nostra não pode faltar a marancitula. Nos restaurantes sicilianos é conveniente usar outra terminologia para pedir a mesma pasta al ricci, ou seja, massa com molho de ovas extraídas de ouriços (ricci) do Mar Mediterrâneo.

Num restaurante da palermitana Pizza Sant’Andrea, e enquanto passava o pão no molho de ricci (faceva la scarpetta), o jornalista siciliano Francesco La Licata, certa vez, fez considerações precisas sobre o fenômeno mafioso.

La Licata é um dos maiores expertos em criminalidade organizada e autor de várias obras, dentre elas a Storia di Giovanni Falcone, publicada pela editora Rizzoli. Hoje, ele é alto diretor e editorialista do jornal La Stampa, depois de passagens pelos Giornale di Sicilia e L’Ora, este fundado em 1900, na cidade de Palermo.

Num breve resumo, ele confirmou que a máfia de agora prefere o mouse à metralhadora, isto é, a tecnologia à brutalidade. La Licata frisou, também, que todos os velhos capi-mafie foram intuitivos e buscavam orientações com técnicos de ponta, para evitar riscos, em especial interceptações telefônicas e escutas ambientais.

Li Gotti, de defensor de mafiosos a secretário de Justiça.


Para a lavagem de dinheiro, a Cosa Nostra, desde que virou transnacional, convoca grandes especialistas em finanças e operadores de ponta de infovias eletrônicas de circulação de capitais.

Com efeito, não é à toa que a Cosa Nostra alcança um faturamento anual de 75 bilhões de euros, conforme revelado no IX Rapporto SOS Impresa-Confesercenti. Para ter idéia, o faturamento mafioso representa o dobro dos ganhos da Fiat e da Enel, do setor elétrico. Por pouco não alcança a Eni, que é a gigante do petróleo e gás natural. Todos os dias, 200 milhões de euros trocam as mãos dos empresários pelas dos mafiosos.

A liberdade, a competição e a riqueza são valores proclamados pela Cosa Nostra. Só que, numa chave correta de leitura, liberdade significa arbítrio, competição vale como monopólio e riqueza quer dizer domínio.

No contraste à criminalidade organizada, a antimáfia italiana, a partir da emergência de 1992, partiu para o emprego de recursos tecnológicos de ponta. Além de proteção, os peritos contam com equipamentos de última geração. O mesmo ocorre com as forças de ordem e as procuradorias antimáfia.

Ao contrário do Brasil, os bloqueadores de celulares funcionam nos presídios especiais de disciplina dura. Muitos colaboradores de Justiça, liberados provisórios e albergados são controlados com pulseiras ou tornozeleiras eletrônicas: o alarme dispara quando se afastam da zona de controle.

Tommaso Buscetta.


Em nosso país, muitos se espantaram com a notícia de o casal fundador e líder da Igreja Renascer em Cristo estar sendo vigiado por chip colocado em tornozeleira, isso depois de postos em liberdade provisória, na cidade de Miami. A propósito, no Brasil, essa tecnologia só é utilizada por empresas privadas, prestadoras de serviços de localização de veículos automotores furtados ou roubados.

O juiz Nicolau dos Santos Neto, apelidado de Lalau, não usa pulseira nem tornozeleira eletrônica na sua prisão-mansão. Por isso, o contribuinte paga a sua escolta policial, uma hipocrisia, pois o juiz Nicolau – cuja remuneração de magistrado ninguém sabe se ultrapassa o teto constitucional – jamais fugirá enquanto for mantido o regime prisional domiciliar: a falta de hospital penitenciário adequado levou Lalau a descontar a pena de 26 anos e 6 meses de reclusão, pelo desvio de 170 milhões de reais de obra pública, na sua aristocrática mansão, um impenhorável bem de família.

Na sexta-feira 26, a antimáfia italiana, enquanto ocorria a cerimônia de instalação do Ano Judiciário, em Palermo, recebeu muito mal o discurso de Luigi Li Gotti, representante do ministro da Justiça. Li Gotti, segundo homem no Ministério da Justiça, quer reduzir os gastos do Estado italiano no que toca à compra de equipamentos eletrônicos.



Segundo Li Gotti, nos últimos três anos, com a compra e manutenção de equipamentos de escuta ambiental e interceptações telefônicas, gastou-se 1 bilhão de euros.

Li Gotti tornou-se conhecido na defesa de mafiosos arrependidos. Ele foi constituído advogado de Tommaso Buscetta (Don Masino) e acompanhou as delações feitas ao juiz Falcone. Advogou para Giovanni Brusca, o chefão mafioso que acionou, por teleprocessamento a distância, a carga de dinamite que mandou Falcone pelos ares. Cuidou, ainda, da defesa técnica do megatraficante de drogas Salvatore Contorno, que ficou sob a guarda da Justiça norte-americana e reclamou a obtenção de um Green Card. WFM, fevereiro de 2007.


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