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AFEGANISTÃO: afunda em incertezas. Desesperado Karzai (foto) quer reunião com o mulá Omar. Ópio: cresce cultivo da papoula em 160%.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Presidente só manda em Cabul. Mulá Omar promete ataque a Cabul, no inverno.



O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, vive o pior momento desde que assumiu o cargo, em 2004. Existem sérias dúvidas se conseguirá ultrapassar o inverno que se aproxima.

As incertezas não decorrem de os alicerces do palácio presidencial estarem comprometidos ou de a sua casa ter perdido o status de bunker, cheia de buracos e goteiras. Nem derivam da falta de cordeiros para a extração das peles de astracan, usadas na confecção dos inseparáveis gorros de Karzai.

No Afeganistão, os problemas se multiplicaram depois da intervenção militar sob as bandeiras da ONU, União Européia e Otan:
1. As áreas de plantio de papoula cresceram sob a proteção de milícias do Taleban, que passaram a contar com recursos que substituíram as contribuições de Osama bin Laden. 2. A produção de ópio em 2006 aumentou em 160%. 3. Em meados de outubro, as tropas da Otan erraram os alvos e mataram mais de 90 civis, incluídas mulheres e crianças, em Eid e na zona de Uruzgan. 4. O misterioso mulá Mohamed Omar, líder dos talebans e com a cabeça cotada em 10 milhões de dólares, reapareceu a cantar vitória. Suas milícias estão prontas para atacar Cabul. Por e-mail, cumprimentou o povo afegão no final do Ramadã, o mês sagrado do islamismo.

Não bastassem, duas levas de fotografias publicadas no tablóide alemão Bild, edições da quinta-feira 26 e domingo 29, mostraram uma patrulha de militares alemães, integrantes da missão da Otan, profanando cadáveres de prisioneiros.

Só para lembrar: em 2002, no presídio afegão de Shinbergan, fotos mostraram talebans submetidos a torturas pelas tropas da coalizão.

A retomada do primeiro posto no ranking da oferta do ópio bruto deveu-se à união entre líderes tribais, senhores da droga e a cúpula dos talebans. Lógico, logo após Bush e Antonio Costa, o czar antidrogas da ONU, proporem a erradicação dos campos de papoula, pelo derrame aéreo de herbicidas, tipo “Plan Colombia”.

Com os lucros obtidos, as milícias do Taleban adquiriram armas mais modernas e potentes daquelas à disposição das forças de ordem controladas por Karzai. E o comando dos talebans passou a pagar 200 dólares para os novos combatentes, a provocar deserções no arremedo de exército de Karzai. Em Cabul, o soldo mensal de um soldado ou de um policial varia entre 70 e 100 dólares.

Campos de Papoula.


A população mostra-se saturada com a presença de militares estrangeiros e revoltada com a Otan, que admitiu erro no disparo de um míssil na cidade de Eid. Para os afegãos, a Otan também é responsável pelo equivocado raid em Uruzgan. O míssil atingiu um ônibus lotado.

Diante dessas duas tragédias, o mulá Dudallah, um dos líderes dos talebans, não perdeu tempo e divulgou panfletos com o seguinte aviso: “Nos próximos dias aumentaremos os ataques suicidas de modo a não dar trégua aos infiéis. Não deixaremos os assassinos de mulheres e crianças em paz. O que eles fizeram foi genocídio”.

Karzai sabe que o mulá Omar atacará Cabul no inverno e pediu reforços, armas e dólares, para os aliados internacionais e apoio político aos pashtuns.

A fim de acalmar a revolta dos afegãos, Karzai nomeou uma comissão para investigar as causas dos ataques em Eid e na região de Uruzgan. No desespero, afirmou estar disposto a dialogar com o mulá Omar.

Num dos e-mails, com ampla divulgação em Cabul, o mulá Omar afirmou que Karzai, “o valete dos cruzados infiéis, está procurando fugir com os seus cúmplices, mas os talebans o aprisionarão para submetê-lo a um tribunal islâmico”.

Pelo que se sabe, o mulá Omar usará, no ataque do inverno a Cabul, técnicas iraquianas, ou seja, minas nas estradas, explosões de camicazes, emboscadas e autobombas.

Enquanto isso, a premier alemã Angela Merkel promete punir os soldados alemães que vilipendiaram os cadáveres e perturbaram a paz dos mortos. A respeito, uma patrulha alemã, próxima a Cabul, deixou-se fotografar fazendo um crânio como bola e pedaços de fêmur como bastões de beisebol. Numa das fotos, o pênis de um dos soldados aponta para um crânio.

Para o ministro da Defesa, Franz Jung, o comportamento e valores dos soldados fotografados surpreendem em face de contrariar o ensinado nos treinamentos: 2.800 alemães servem à Otan no Afeganistão.

As fotos chocantes apareceram num momento em que a Alemanha investe na transformação do exército. Ele se prepara para poder realizar intervenções internacionais em zonas de conflito e reprimir o terrorismo. Mas, depois das fotos exibidas na Bild, os alemães definiram o repugnante episódio como a Abu Ghraib alemã.


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