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Máfias/Dinheiro Sujo

 

PCC. Tiro pela culatra.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF,21 de agosto de 2006.

jornalista Maurizio Costanzo, saiu ileso do atentado mafioso.


Felizmente, nem sempre o crime organizado de matriz mafiosa ganha, ou melhor, consegue atingir os objetivos almejados. Muitas vezes, o tiro sai pela culatra, como no caso dos seqüestros do jornalista Guilherme Portanova, mantido em cativeiro por 42 horas, e do técnico Alexandre Calado, logo libertado para poder contar o sucedido.

As organizações mafiosas, ou pré-mafiosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC), têm apenas a ideologia da vantagem, a velha fórmula da “lei de Gerson”, certo? Elas não se confundem com as organizações terroristas que seguem uma ideologia, como, por exemplo, as nacionalistas, políticas ou fundamentalistas religiosas. Lógico, as máfias e pré-máfias usam métodos terroristas.

Não consumidas por ideologia que muitas vezes cega pelo fanatismo, as máfias e o PCC contam com um agudo senso de oportunidade e conveniência. Só que cometem erros, incluídos os de pontaria.

Em 14 de maio de 1993, a máfia resolveu explodir o jornalista Maurizio Costanzo, que comandava um talk-show campeão de audiência na televisão italiana. Havia mais de ano a máfia atacava espetacularmente o Estado italiano.

Além de buscar mais um cadáver espetacular, Costanzo pagaria, como testemunharam colaboradores de Justiça, pela petulância de ter vestido, durante o seu show, uma camiseta escrita “Mafia fà schifo” (máfia dá nojo).

O automóvel-bomba estacionado numa via do trajeto de Costanzo explodiu com atraso. Esse episódio mexeu com a opinião pública e quebrou a omertà, aquela passividade social motivada pelo medo do crime organizado. Resultado: pressão forte em cima das autoridades e mídia unida nas cobranças. Costanzo, então, abriu uma janela no programa para dar voz à antimáfia e às suas críticas.

Sorte igual não teve o jornalista Pepino Impastato, seqüestrado pela máfia. À noite, ele foi algemado em trilhos ferroviários. Com dinamite colocada junto ao seu corpo e detonação programada para coincidir com a passagem do trem, ocorreu uma falha.

O trem atrasou e o tremer dos trilhos pela explosão distante fez o maquinista parar a composição. Impastato morreu, mas os passageiros das dez lotadas composições salvaram-se.

Não deu certo, também, a encenação mafiosa, elaborada para passar a falsa idéia de que Impastato, um jornalista de esquerda, preparava um ato terrorista, no interesse das Brigadas Vermelhas. O filme sobre a vida e a morte de Impastato ganhou o festival de Veneza. Exibido em todo o mundo, mostra que as autoridades não podem deixar a criminalidade organizada se enraizar.

Neste agosto, o PCC completa 13 anos, ou seja, passou incólume por vários governos tucanos, deixando um rastro de sangue derramado por vítimas anônimas e cadáveres excelentes. Mais, o PCC desmoralizou o Estado com ataques guerrilheiros e difundiu o medo entre a população.

jornalista Impastato, dinamitado pela máfia.


No seqüestro do jornalista Portanova com coação irresistível imposta à Globo, o PCC apresentou um manifesto, misto de protesto, reivindicações e falsa tomada de coloração ideológica, a querer se transformar na voz protetora das massas carcerárias, que sempre oprimiu e escravizou.

No manifesto plagiou o posicionamento do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do governo Lula. Um conselho incapaz de perceber a distinção entre quadrilhas e bandos e o fenômeno da criminalidade mafiosa. Esse conselho é contrário à aplicação, nos presídios, do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que considera inconstitucional e desumano. No particular, tem todo o apoio do PCC, que o divulgou pela televisão.

Nessa tentativa de alçar de patamar, o PCC, no entanto, colheu a sua maior derrota. E essa veio com a nota intitulada “Basta à Violência”, emitida em conjunto pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) e entidades representativas das emissoras de rádio e televisão (Abert, Abra, Abratel). Ela mostra que os meios de comunicação cobrarão, permanentemente, dos governos “soluções eficazes na defesa da sociedade brasileira”.

Para o bom entendedor, deu-se um basta, inclusive às escaramuças federais e estaduais e à partidarização do debate da segurança pública. As autoridades precisarão retomar o controle dos presídios, lugar onde está o governo do PCC. Em nenhum país civilizado existem presídios controlados pelo crime organizado, como finge não saber o ex-governador Geraldo Alckmin.

Nesse tiro saído pela culatra, o PCC acabou por confessar o quanto o RDD abala os seus líderes. Consigne-se, um RDD que representa um arremedo do disciplinado pelo Código Penitenciário italiano, já declarado legítimo pela Corte Constitucional.


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