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Máfias/Dinheiro Sujo

 

ARLACCHI fala sobre crime organizado.

Ex-diretor da ONU diz que não há plano sério de combate ao crime no Brasil.

Pino Arlacchi diz que sistema “é corrupto” e que prisões devem ser reformadas. Surpreende-se com o número de mortos e diz que criminosos no Brasil “não são mafiosos: são gangsters (pré-mafia) e podem ser vencidos”.

Arlacchi, na ONU.


Entrevista

Pino Arlacchi, 55 anos, tem uma longa experiência no combate ao crime organizado. Em 1997 foi nomeado Diretor Geral do escritório das Nações Unidas em Viena e diretor executivo do escritório das Nações Unidas para o controle da droga e a prevenção da criminalidade (ODCCP), cargos que ocupou durante cinco anos.

Em 1989 tornou-se presidente da associação internacional para o estudo do crime organizado e, no início dos anos 90, como conselheiro do Ministério do Interior da Itália, instituiu a Direzione Investigativa Antimafia (DIA). Em 1992 foi nomeado presidente honorário da Fundação Giovanni Falcone, criada em seguida ao assassinato pela máfia do desse magistrado siciliano, de quem Arlacchi era amigo pessoal. Foi vice-presidente da Comissão Parlamentar sobre a Máfia, na Itália, de 1994 a 1997..É autor de vários livros sobre o crime organizado.

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Arlacchi vive em Roma, de onde falou com Terra Magazine.

O senhor está a par da situação em São Paulo?
Vi as notícias nos jornais daqui. Estou surpreso, e por vários motivos: pela dimensão da violência, com todas essas mortes, e porque achava que este governo tinha um plano para a redução da violência, mas parece que não tem.

A Itália já enfrentou situações semelhantes e achou soluções. Na Itália houve uma situação parecida nos anos 90, principalmente em torno de Nápoles (*Camorra Napoletana, organização diversa da Máfia)), quando uma coalizão de gangsters controlava, do cárcere, uma boa parte do território daquela região. Mas nunca chegamos a este número de mortos em tão poucos dias. Esta violência altíssima é o que mais me surpreende.

O que precisa ser feito?

Sei que as prisões brasileiras são um ponto fraco, eu as conheço. É preciso melhorar as prisões, melhorar a polícia e controlar as armas de fogo. É uma pena que a tentativa de controle das armas de fogo tenha sido derrotada no referendo que se fez no Brasil.

Na Itália isso foi feito?

Na Itália as prisões foram reformadas. Ficaram menores e a reforma criou melhores condições dentro das prisões, descentralizou os detentos e aumentou a segurança interna. Não há mais a circulação de armas de fogo dentro das cadeias.

E a questão da corrupção policial?
O sistema é corrupto, e a corrupção policial deve ser combatida. Na Itália ela também existia, mas foi controlada. Nunca mais tivemos situações como a dos anos 80, e início dos anos 90.

O crime organizado no Brasil tem uma estrutura semelhante à da máfia italiana?
A situação brasileira não é uma situação de máfia. Eles são fortes porque são numerosos, estão estruturados e têm armas, além de um certo controle territorial e social. Mas são gangsters e como tal podem ser combatidos e vencidos.

Qual a diferença entre um chefe de gang e um capo mafioso?
Arlacchi, quando era o vice de K.Anan, secretário geral da ONU.


O mafioso na prisão não se rebela. É um prisioneiro padrão. Ele comanda mas não desafia a autoridade. Já o gangster é um rebelde, ele se revolta.

No Brasil, os chamados “ regimes duros” são mantidos por pouco tempo e há uma grande circulação de detentos. Na Itália os regimes duros são poucos. Também há circulação de detentos, mas há cárceres específicos e permanentes para mafiosos.

No Brasil, há um discurso político que começa a surgir dentro das organizações criminosas.

Isso acontece em todos os lugares, numa situação carcerária semelhante, os detentos se organizam.

O senhor conhece o Brasil. Está surpreso com essa situação? Estive no Brasil a convite, fazendo conferências. Sei que a situação é complicada, mas estou surpreso - achei que havia um plano para a redução da violência.


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