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MÁFIA e POLÍTICA:Crises Vocacionais.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

OLHO.
As derrotas eleitorais de Silvio Berlusconi e Giulio Andreotti (foto ao lado), sete vezs primeiro ministro e condenado por associação mafiosa, são maus prenúncios para a Cosa Nostra, que sofre uma escassez de novos “soldados”, como reclama o novo capo Matteo Messina Denaro, de 44 anos. ) "instituto mafioso do posato" passou a ser muito usado.

MATÉRIA.

. A máfia passa por maus momentos e começa a cair em descrédito o secular mito da sua invencibilidade. Depois da prisão do capo dei capi Bernardo Provenzano, em 11 de abril, a Cosa Nostra assistiu, para fechar o mês, à derrota de Giulio Andreotti à presidência do Senado italiano.

Andreotti perdeu para o senador Franco Marini, de 73 anos, ex-sindicalista e natural da Abruzzia. Em segunda votação, Marini obteve 165 votos e Andreotti, 155.

Nada adiantou a Andreotti, senador vitalício e sete vezes primeiro-ministro pelo extinto partido da Democracia Cristã (DC), o apoio de Silvio Berlusconi, líder da derrotada coligação denominada Casa das Liberdades.

A propósito, Berlusconi deixou o cargo de premier de forma melancólica, na quinta-feira 4. Sempre apoiado pelos fascistas, Berlusconi colocou uma claque para, na saída de adeus do Palazzo Chigi, entoar, descarada e impropriamente, o canto heróico da Resistência Italiana aos nazi-fascistas, o famoso Oh Bella Ciao.

Andreotti foi acusado por 27 mafiosos, que se tornaram colaboradores da Justiça italiana, de pertencer à Cosa Nostra. Ele mantinha dois prepostos na Sicília, o eurodeputado Salvo Lima e o prefeito Vitto Ciancimino, ambos executados quando a máfia passou a ser governada pelos de Corleone, como Totò Riina e Bernardo Provenzano.

Andreotti foi associado à máfia quando ela era governada por uma comissão dominada pelo chefão Stefano Bontate, de Palermo, e com Tommaso Buscetta no papel de diplomata, ou melhor, de boss dos dois mundos. Quando os corleoneses tomaram o poder, Andreotti rompeu o vínculo com a Cosa Nostra, isso nos anos 80.

Processado criminalmente por associação mafiosa, Andreotti acabou definitivamente condenado, em 2004, pela Corte de Cassação, que é a última instância da Justiça italiana. Portanto, não há dúvida de ter ele aderido à Cosa Nostra.

Em primeiro grau, o Tribunal de Palermo havia absolvido Andreotti por cumplicidade mafiosa, em outubro de 1999. Essa decisão foi mudada pela Corte de Apelação de Palermo, que o condenou, em maio de 2003, por associar-se à máfia.

Ao manter a condenação lançada pela Corte de Apelação, os ministros da Cassação tiveram, entretanto, de reconhecer a prescrição. Por Andreotti contar com mais de 70 anos, o prazo prescricional teve de ser contado pela metade. Em outras palavras, ficou extinto o crime porque a Justiça não conseguiu julgá-lo no tempo legal.

Assim, e em vez da cadeia, Andreotti manteve a cadeira vitalícia no Senado, pois, na Itália, são reservados assentos vitalícios para os antigos presidentes da República e algumas personalidades que ilustraram a pátria.

Enquanto Berlusconi assistia às derrotas dos seus candidatos ao Senado e à Câmara, para a qual foi eleito o comunista Fausto Bertinotti, os jornais sicilianos publicavam uma revelação bombástica do novo capo-mafia, Matteo Messina Denaro, de 42 anos e assassinatos em quantidade suficiente para lotar um cemitério.

Num dos 200 bilhetes apreendidos na casa de refúgio de Provenzano, estava registrada uma preocupação de Matteo Denaro: “Crise de vocações”. Apareciam poucos candidatos a picciotti, termo usado para designar os jovens soldados mafiosos.

Para a Procuradoria Antimáfia de Palermo, essa crise já era percebida. No início de 2000, o número de soldados mafiosos era de 5.192 e, no fim de 2005, havia caído pela metade.

Como revelaram Buscetta e outros arrependidos do porte de Gaspare Mutullo, os candidatos a ingressar na Cosa Nostra, depois de um prazo de observação, são submetidos a uma simbólica cerimônia de iniciação.

Nessa cerimônia, os candidatos a picciotti têm o indicador direito perfurado, até verter uma gota de sangue. Antigamente, os chefes da famiglia mafiosa realizavam a incisão com um espinho de laranjeira, árvore abundante na Sicília. Agora, usa-se alfinete.

A gota de sangue é espalhada numa imagem de Santa Annunziatta, que depois é incendiada. O candidato tem de ler um juramento, trocando a imagem de mãos para queimar. Isso servia para mostrar ao picciotto que entrava numa organização com sangue que dela, pelo vínculo eterno, apenas sairia também vertendo sangue.

Em tempo de crises vocacionais, as cerimônias de iniciação tornaram-se raras e o “instituto mafioso do posato” é mais empregado. O posato é a suspensão da organização e o aviso de que, caso continue a delinqüir de modo a quebrar o monopólio da Cosa Nostra, será eliminado.

É de esperar que os maus momentos continuem para a Cosa Nostra, já sem Andreotti no vértice do Senado e Berlusconi como primeiro-ministro.


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