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Máfias/Dinheiro Sujo

 

O TRÁFICO DE LIXO

Por IBGF/WFM

O lucro líquido obtido pelas internacionais criminosas cresce de 30% a 40% ao ano, segundo revelou Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas. A revelação ocorreu na abertura da Convenção de Palermo, que versou sobre Criminalidade Organizada Transnacional.

Ao contrário do imaginado, os lucrativos “negócios” mafiosos não se exaurem no tráfico de drogas, armas e pessoas. Outro filão enche os bolsos das máfias e de corporações industriais aliadas do Primeiro Mundo. Trata-se do tráfico internacional de lixo, perigoso à saúde humana e ao meio ambiente.
Só em 2003, o “business” do tráfico planetário de lixo rendeu 15 bilhões de euros (fonte européia). E entre 2000 e 2002, o ganho progrediu de US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões (fonte norte-americana).

Sem cerimônia, os países industrializados e ricos do Hemisfério Norte despejam o lixo produzido nos subdesenvolvidos e pobres do Sul. Sobre o fenômeno representado pelo tráfico sem fronteiras de lixo, a ambientalista européia Mônica Massari, em artigo intitulado “Negócios sujos”, destacou a existência de um “colonialismo ambiental”.

O tráfico de lixo ficou fora da Convenção de Palermo. Isso dada a vigência da Convenção da Basiléia, de 1989, voltada a controlar, pela própria ONU, a movimentação de lixo perigoso e o seu tráfico intercontinental. A propósito, os EUA são os únicos integrantes do G 7 (sete países mais industrializados do planeta) que não ratificaram a Convenção da Basiléia. Os demais países, é bom lembrar, firmaram a Convenção, mas não brecam o tráfico ilegal do lixo.

Muitas vezes, o tráfico é mascarado de exportações destinadas à reciclagem de material inexistente no pobre país importador. Nesses negócios enganosos, potentes corporações industriais assumem o papel de fautoras e beneméritas de uma nova tecnologia, que só cabe nos países do Terceiro Mundo.

Na verdade, é como se afirmassem, sem corar: “Aproveitem o lixão recebido e não esqueçam nossa contribuição para a abertura de novos postos de trabalho com a reciclagem. Que tal um primeiro emprego como catador em lixão?” Além da Convenção da Basiléia, vigora a Convenção de Bamako. No papel, está proibida a exportação de lixo para diversos países africanos e do Caribe.

É comum, com a intermediação mafiosa, que empresas sediadas em nações industrializadas constituam, por meio de testas-de-ferro, sociedades importadoras nos países que serão usados como latrinas.

Com efeito, todos os anos, os países industrializados precisam se livrar de 300 milhões de toneladas de lixo. Estima-se que o continente africano receba anualmente 50 milhões de toneladas de resíduos.

Nos anos de 1998 e 1999, o Greenpeace denunciou o envio de 100 mil toneladas de lixo tóxico para a Índia. Fora isso, e a título de exemplo para mostrar a gravidade da situação, os norte-americanos “aposentam” 20 milhões de computadores/ano. Para surpresa geral, a China chegou a receber essa sucata e aproveitou alguns poucos componentes desses velhos equipamentos. Para isso, assumiu o “lixo do lixo”.

Quando da Convenção de Palermo, em dezembro de 2000, comentou-se o escândalo do navio MV ULLA, ocorrido em março daquele ano. O governo turco determinara a sua apreensão no porto de Isdemir, impedindo o descarregamento. O navio transportava lixo contendo cromo ativo (CrV1), classificado como altamente tóxico. A carga provinha de três centrais elétricas situadas no norte da Espanha.
Pelo apurado, outros 18 navios saídos da Espanha tinham descarregado anteriormente, na Argélia, igual lixo de metal químico. No caso do navio apreendido na Turquia, o desvio da rota original (Espanha–Argélia) deveu-se ao atraso na conclusão de uma barragem argelina. O lixo das centrais elétricas havia sido comprado por uma companhia de cimento espanhola. Essa empresa vendia cimento e concreto armado para a construção da barragem, onde o lixo era misturado e emparedado.

Uma carta do governo turco ao secretário da ONU denunciou a violação ao artigo 92 da Convenção da Basiléia, por parte da Espanha. Como ficou patente, o lixo ficaria na Turquia, apesar de embarcado como cimento para a Argélia. Entre 1986 e 1990, as máfias cobravam das indústrias do Hemisfério Norte de US$ 100 a US$ 2 mil por tonelada de lixo transportado para outros países. Na África, pagavam de US$ 2,50 a US$ 50 a tonelada despejada de lixo. Hoje, os países mais visados como lixões estão na África, na Europa Oriental e na Ásia. Quanto aos países em desenvolvimento, não há deslocamento de lixo para o exterior, mas migração interna ilegal.


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