São Paulo,  
Busca:   

 

 

Máfias/Dinheiro Sujo

 

CRIMINALIDADE E INSEGURANÇA: até quando?

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Observador atento do fenômeno da violência urbana, Desmond Morris comparou os grandes centros de concentração urbana aos jardins zoológicos.

.


Grosso modo, sustentou que os animais selvagens, em condições normais e no seu “habitat” natural, ao contrário dos humanos que moram nas metrópoles, não se mutilam nem se masturbam. Nunca agridem a prole alheia, não se tornam fetichistas e obesos. Não sofrem de úlcera intestinal e não cometem assassinatos.

Portanto, haveria uma diferença de fundo entre as espécies? Nem tanto, ressalva Morris. Em certas circunstâncias, os animais selvagens também se comportam de maneira contrária à natureza. Precisamente, quando colocados em cativeiro. Em jaulas do zoológico apresentam todas aquelas anomalias humanas. Para Morris, “é evidente que as metrópoles não são uma selva de cimento, mas zôos humanos”.

No mês passado, a violência urbana assustou a elite e as autoridades administrativas francesas. A marginalização provocou a revolta de cidadãos franceses, a maioria filhos de imigrantes, moradores em municípios pobres e na periferia de Paris.

O violento quebra-quebra, com cerca de mil automóveis incendiados, hipermercados destruídos e sangrentos combates de rua, fez o governo tirar do arquivo uma empoeirada lei de 1955 sobre o “estado de emergência”. Para o atual ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, essa lei calçou como luva e legitimou uma repressão pesada, considerada desproporcional e desumana por muitos franceses.

A revolta não foi preparada nem contou com líderes. O efeito dominó deveu-se à relação bipolar de estímulo-resposta, ou seja, discriminação odiosa-reação violenta.

Cessados os protestos, o governo francês reconheceu o esquecimento daqueles cidadãos vítimas da desigualdade e que, nos bairros de moradia, nem com área de lazer contavam.

No Rio de Janeiro, além dos graves problemas sociais, como, por exemplo, a questão hospitalar municipal, a população percebe a inépcia das políticas de segurança pública, federal e estadual, para contrastar a criminalidade organizada. O sentimento de insegurança tomou conta das áreas mais pobres e percebe-se uma linear e objetiva relação entre crime organizado e medo.

A criminalidade organizada passou a ter controle social e de territórios, operando-se a secessão. Recentemente, o traficante Joca, que governa a Rocinha, colocou os seus canais diplomáticos em ação. Nos limites do seu território, decretou que não daria guarida a ladrões e providenciaria as suas extradições, com entrega à polícia do estado vizinho.

Em termos de segurança pública, o Rio de Janeiro, no governo do presidente Lula, continua igual ao do tempo de Fernando Henrique Cardoso.

Por coincidência, duas das marcantes tragédias ocorreram em ônibus. Sob FHC, com transmissão direta pela tevê e na linha 174, morreram a professora Geísa Gonçalves e, asfixiado pela polícia, um seqüestrador. No governo Lula, assassinos comandados pelo narcotraficante Lorde atearam fogo no ônibus da linha 350, mataram cinco passageiros (incluída uma criança de 1 ano) e feriram outros 14.

A política nacional de segurança pública planejada e executada pelo governo é aquela objeto de desejo do Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando, ou seja, não resolve.

No plano estadual, a administração de Rosinha Matheus manteve a ineficiência dos governos estaduais anteriores e até o seu marido, Anthony Garotinho, preferiu deixar a Secretaria da Segurança e esquecer ter escrito um livro sobre segurança pública, depois de se autoproclamar um especialista no tema.

O poder corruptor da criminalidade organizada aumentou. Para isso, contribuem a deficiente formação profissional, os baixos soldos e a ausência de fiscalização eficaz pelas corregedorias.

Como decorrência desse quadro, a população teve aniquilados os seus direitos fundamentais. Temerosa e sem confiança nas autoridades, recolheu-se ao silêncio. Um silêncio que se transformou em solidariedade pelo medo, conforme observou o escritor siciliano Leonardo Sciascia, ao analisar o comportamento da população em face do poder paralelo da máfia.

Sobre o ataque ao ônibus e aos passageiros da linha 350, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, lamentou e recomendou ao governo estadual trabalhos de inteligência. Nem tocou na força-tarefa especial, que tempos atrás apresentou como solução ao Brasil.

Do lado estadual, veio o pleito de adoção da pena de prisão perpétua. Só que a prisão perpétua e a pena capital, como se sabe, não inibem os crimes nem motivam desassociações nos comandos vermelhos.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet