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CRIME ORGANIZADO: alunos não se misturam nas escolas

Por O GLOBO

A disputa de quadrilhas de traficantes do Rio por territórios vem dividindo a cidade, aumentando o estigma sobre os cerca de um milhão de moradores de favelas e transformando vizinhos em inimigos. Facções em guerra em comunidades como Vigário Geral e Parada de Lucas, Querosene e Turano, Rocinha e Vidigal, acabam influenciando também nas relações de crianças e adolescentes que reproduzem nas escolas e nas ruas a rivalidade das quadrilhas.



Durante duas semanas, repórteres do GLOBO ouviram alunos, professores e movimentos sociais sobre a questão. Provocações entre alunos, ameaças e, em alguns casos, até conflitos contados por eles mostram que muitos desses jovens acabam contaminados pela rivalidade como se fizessem parte dessa guerra. Segundo o coordenador-geral do Observatório das Favelas, Jailson de Souza e Silva, os traficantes trabalham com identidade territorial condenando moradores a também serem identificados como membros de facções:
— Hoje setores dominantes vêem população da favela como população civil do território inimigo.
Uma classificação que, segundo ele, tem que se romper:
— Cada vez mais o órgão públicos trabalham com essa logica da facção. A facção é que se identifica com o lugar e não o lugar com a facção. No fundo, a população não quer saber se é A ou B. Ela prefere conviver com pessoas conhecidas do que com desconhecidas. A população prefere que não haja mais facções, mas, se tradicionalmente existem grupos armados, que seja conhecido. Por isso que é perigoso o estado trabalhar com a lógica das facções.
Centros de Reabilitação também têm facções.

Uma situação que não está mais restrita a presídios e centros de recuperação de menores infratores. Atinge também os Centros de Reabilitação Integrada e Atendimento ao Menor (Criams), que hoje dividem por facções as crianças e os jovens assistidos:
— Claro que o Poder Judiciário e o Poder Executivo não comungam do entendimento que essas facções sejam legitimadas, mas por outro lado precisamos garantir a integridade física desses jovens. Por isto, quando essas crianças e adolescentes chegam ao Criam são divididas de acordo com a facção que domina a comunidade em que moram. Infelizmente a falta de condições econômicas e sociais nessas comunidades faz com que a referência para esses jovens seja a facção — explicou o juiz Marcelo Villas, da 2ª Vara da Infância e da Juventude.
Nas escolas municipais e estaduais da cidade essa divisão territorial não existe, mas nas unidades situadas dentro de comunidades controladas por traficantes dificilmente se encontra crianças de favelas dominadas por quadrilhas rivais. No Complexo da Maré, crianças que moram na Nova Holanda não estudam em escolas da vizinha Baixa do Sapateiro:
— É forte nas crianças da favela essa questão dos grupos armados. Mas a questão não está só nas escolas. Hoje, o bicho-papão é o Caveirão, da polícia. A forma brutal como eles entram nas favelas assusta. As coisas estão fora do lugar e as crianças levam isso para a escola — afirma Eliana Souza Silva, mestre em educação e diretora do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM).
Defeitos constantes no elevador do Ciep João Goulart, em Ipanema, erguido entre as favelas do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, deixam sem aulas muitos alunos e provocam a transferência de professores. Sem o elevador, o único acesso para o Ciep é o Morro do Cantagalo, território rival de comunidades de muitos estudantes da unidade. Segundo relata a coordenadora-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), a professora Gesa Linhares, assustados com as provocações durante o trajeto da van, muitos professores pediram transferência:
— Eles contavam que subir de van não era tão simples porque havia crianças de várias comunidades que não podiam se encontrar. Quem resolveu a questão foram os pais que disseram que seus filhos corriam perigo e que por isso não iriam mais à escola. Na cultura que já existe, um grupo não pode se misturar com outro.
Segundo a coordenadora do Sepe, vêm crescendo as ameaças a professores que trabalham em escolas localizadas em comunidades onde há tráfico de drogas:
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— Daqui a pouco teremos escolas só para católico, para espírita etc. O papel do educador é tentar trabalhar contra todas as formas de discriminação. A população de um modo geral tem que ser atendida na escola com igualdade e oportunidade para todos. Também é preciso uma atenção maior na formação dos profissionais. Muitos estão assustados porque, em vez de se reduzir, vem crescendo o nível de perseguição entre alunos e inclusive aos professores. O crime na escola de Bangu nos assustou profundamente — disse, referindo-se ao assassinato do sargento da PM e professor de história Márcio Nilo Jesus de Oliveira, morto em agosto no Colégio Estadual Cristóvão Colombo.
Professora do ensino fundamental de uma escola na Rocinha, que pediu para não ser identificada, relata que nas escolas da favela não entram moradores do Vidigal:
— Por medo, os próprios pais não querem que seus filhos estudem em comunidades rivais, mesmo sabendo que são apenas crianças e não traficantes. Também já trabalhei no Ciep Prefeito Djalma Maranhão, que atende as crianças do Vidigal. Lá não tem alunos moradores da Rocinha. Eles são inimigos e nem sabem a razão.
Movimento criado em Vigário Geral, o AfroReggae tem como principal bandeira tirar jovens do tráfico. O grupo realiza shows para reaproximar comunidades tornadas inimigas pela disputa de traficantes. Um dos integrantes do grupo, Altair Martins, de 24 anos, cresceu convivendo com o ódio entre moradores de Vigário e Lucas. Ele lembra que na última invasão da favela os moradores contaram que tiveram suas casas saqueadas pelos vizinhos de Parada de Lucas. Segundo ele, os traficantes não participaram dos saques. Altair lembra que o ódio entre as duas comunidades não começou com o tráfico, mas em um jogo de futebol organizado em 1983 para aparar as arestas entre os vizinhos:
— Era decisão por pênalti. O jogador de Lucas bateu e no momento em que o goleiro agarrou a bola ouviu-se o tiro. A galera correu para comemorar e, quando foi abraçar o goleiro, ele estava morto.


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