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OS Buscetta Brasileiros

Por WFM-CARTACAPITAL

Olho:

Ao contrário de Jefferson e Valério, o mafioso italiano não buscava benefícios, vantagens nem vanglórias com as delações.

Jefferson e João Paulo: unidos pelo bolso.


Não dá para esquecer o mafioso Tommaso Buscetta, quando se fala em delação premiada. Lógico, revelações à Justiça sobre os comparsas e o modus operandi do crime organizado. Aí fica inevitável a comparação de Buscetta com o deputado Roberto Jefferson e o publicitário Marcos Valério Fernandes, sendo esses últimos peças podres de um mesmo e amplo sodalício criminal, cujo ilícito maior é o de lesa-pátria.

Jefferson delatou parceiros de alto coturno de uma “societas criminis”, da qual levou uma grossa grana, admitida a seu modo e ainda não devolvida. Porque se sentiu abandonado, abriu o bico e, por conseqüência, acabaram abertas CPIs, contas e movimentos bancários dos imputados.

Advogado tarimbado na área penal, Jefferson esqueceu uma regra básica das primeiras linhas da criminologia. Ou seja, solidariedade entre bandidos só existe por interesse e sem risco de ambos na cadeia. Adicione-se a essa velha lição um acréscimo brasileiro: risco de cadeia ou perda de mandato parlamentar.

Para evitar as grades e preservar parte do patrimônio ainda oculto, Valério está atrás de um trambique, que quer seja aceito como delação premiada. Pretende virar colaborador da Justiça, com rótulo de Buscetta brasileiro.

Ao contrário da dupla Jefferson-Valério, o superboss Buscetta avisou a todos: “Estou pronto a pagar integralmente o meu débito com a Justiça, sem pretender desconto ou redução da pena criminal”. Acrescentou, ainda: “Sou um homem cansado e atormentado. Cheguei a um certo ponto da vida, atingi a maturidade e adquiri experiência e capacidade de autojulgamento. Daí, me dei conta do câncer que se transformou a máfia e resolvi ajudar a Justiça na tarefa de conseguir o seu desmantelamento”.

Buscetta não buscava benefícios, vantagens nem vanglórias com as delações, como a dupla Jefferson-Valério. Vale lembrar que a Itália, à época, não contava com uma legislação sobre colaboradores de Justiça e direito a prêmios, como esquecimento de crimes, abatimento de penas, estipêndio pago pelo governo e quejandos. O projeto de lei italiano surgiu pós-Buscetta, em 1989, e foi sancionado apenas em 1991. As delações de Buscetta começaram em julho de 1984 e duraram sete meses: quatro meses na Itália e três nos EUA.

Bucetta: delação sem querer vantagens


As confissões de Tommaso Buscetta ao juiz Giovanni Falcone resultaram na abertura do chamado maxiprocesso criminal, que teve 475 réus e início em fevereiro de 1986. O julgamento terminou em dezembro de 1987, com penas pesadíssimas: 19 condenações à prisão perpétua e, somadas as outras sanções, 2.665 anos de cárcere.

Ao começar a falar, Buscetta postulou segurança pessoal e proteção aos seus familiares, ou melhor, à esposa carioca, Cristina Guimarães, que conheceu na praia de Copacabana em 1971, e aos dois filhos brasileiros do casal. Todos foram transferidos para os EUA, num acordo entre os governos.

A exigência de Buscetta era legítima. Os adversários mafiosos tinham matado seus dois filhos do primeiro casamento, o irmão, o genro e nenhuma dessas vítimas pertencia à Cosa Nostra.

A secular regra mafiosa que proibia que a vingança recaísse em parentes não mafiosos foi considerada quebrada. Isso desobrigou Buscetta de manter o juramento do silêncio (omertà).

Pouco antes das revelações, Buscetta quis testemunhas para um alerta e um registro premonitório. Primeiro, não falaria sobre o envolvimento da máfia com os políticos, senão tudo acabaria em pizza. Segundo, só faria delações ao juiz Falcone, siciliano como ele, e todos os presentes deveriam saber que, ao recolher os relatos, o magistrado seria condenado à morte pela Cosa Nostra. Frisou: “A sentença de morte da máfia é sempre cumprida, cedo ou tarde. A máfia não esquece nunca”.

A máfia dinamitou Falcone em 23 de maio de 1992. Buscetta, em homenagem ao juiz-mártir, revelou as ligações máfia-política. Dentre muitos, entregou Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro da Itália. E o mais alto tribunal italiano entendeu comprovadas as ligações de Andreotti com a máfia, decretando, em face do tempo e da idade do ex-premier, a prescrição pelo crime de associação mafiosa. A prescrição garantiu a Andreotti a cadeira de senador vitalício.

Marcos Valério: para comprar consciências, grana on e offshore.


Em termos de comportamento ético, Buscetta não se compara aos oportunistas Jefferson e Valério. Cumpriu suas penas nos EUA e colaborou com a Justiça daquele país: caso Pizza Connection.

Buscetta morreu de câncer, em 2 de abril de 2000, aos 72 anos. A viúva carioca e os filhos radicaram-se nos EUA. No Brasil, Buscetta nunca se envolveu com políticos. Talvez para justificar o nome usado no passaporte falso: Roberto Felice.


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