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Máfias/Dinheiro Sujo

 

MENSALÃO e Mãos-Limpas: tangentópolis e pilantras.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

A cidade que virou referência planetária de corrupção político-partidária que destrói o Estado democrático.

Maria Chiesa, o mariuolo (pilantra): Tutti rubiamo cosi (todos roubamos assim)


A Tangentópolis foi descoberta em fevereiro de 1992. Não era só uma cidade, mas a capital da holding da maracutaia, no Velho Continente. No início, pensou-se num caso isolado de corrupção. Não era. A respeito, frisou o jornalista e escritor Enzo Biagi: “Os pessimistas pensaram que a Itália estivesse doente de um câncer. Em vez disso, o diagnóstico correto era metástase”.

Como patologia a destruir o Estado democrático, Tangentópolis virou referência planetária de corrupção político-partidária. Por outro lado, tornou-se exemplo de repressão bem-sucedida, por meio de uma permanente Operação Mãos Limpas. Essa operação completou 13 anos de atividades em fevereiro deste ano. E já conta com a segunda geração de magistrados do Ministério Público.

O mais notável dos atuais réus é o premier Silvio Berlusconi. A propósito, ele conseguiu uma lei para suspender o processo criminal, enquanto no cargo de primeiro-ministro.

Os primeiros protagonistas da Tangentópolis eram dirigentes e membros de partidos políticos, empenhados em burlar, “tangenciar”, a lei eleitoral. Também o Código Penal, com relação aos crimes contra a administração pública e o sistema financeiro: corrupção, concussão, evasão de divisas etc. Como coniventes, e indispensáveis, figuraram dirigentes de estatais, administradores públicos e empresários em geral. Para usar a expressão popular mais em voga à época, un mondo di ladri.

os primeiros magistrados da Operação Mãos Limpas (Mani Pulite).


Uma das metas preferenciais era fraudar a lei que estabelecia o financiamento público das campanhas eleitorais. Mandavam às favas a regra legal e ética da paridade de oportunidades entre os competidores.

O numerário arrecadado no caixa 2 suplantava o destinado pela lei aos partidos políticos. Dentre os que recebiam “por fora”, destacaram-se os integrantes do Partido Socialista e os da Democracia Cristã. Até filiados do partido comunista acabaram apanhados na Operação Mãos Limpas.

A grana do caixa 2 servia, ainda, para sustentar líderes partidários. Muitos deles preferiram colocar parte do arrecadado nas próprias contas bancárias, em especial na vizinha Suíça.

Mario Chiesa foi o primeiro corrupto apanhado com o “dinheiro na cueca”. Era filiado influente do Partido Socialista. Recebeu o apelido de mariuolo (pilantra), pois foi assim chamado pelo presidente do seu partido, o ex-primeiro-ministro Bettino Craxi.

Abandonado pelos socialistas e depois de um mês de cadeia, o Mariuolo avisou: Tutti rubiamo cosi (todos roubamos assim). Os magistrados acreditaram e até Craxi restou condenado definitivamente, por corrupção e outras fraudes.

Craxi: ex-premier fugiu para a cinematográfica casa de praia na Tunísia.


Quando começou a ser investigado, Craxi blefou: “Podem investigar. No máximo descobrirão histórias de mulheres”.

Para escapar à cadeia, Craxi fugiu para a sua cinematográfica mansão de praia na Tunísia. Lá faleceu com “odor de dinheiro sujo”. No auge da crise e quando saía de um hotel em Roma, foi brindado por uma chuva de moedas e o coro de pilantra: Mariuolo!

No começo deste ano, Chiesa cumpriu pena de prisão, reduzida por colaborar com a Justiça. A Operação Mãos Limpas começou no Ministério Público de Milão. A Itália é um Estado unitário (não federado) e qualquer magistrado, em função de Ministério Público, pode investigar e processar, com autorização do Parlamento, chefes de Estado, de governo, deputados, senadores. Enfim, qualquer cidadão, pois, como reza a Constituição, a lei é igual para todos.

O investigado tem direito ao silêncio, na velha máxima romana do nemo tenetur se detegere (ninguém está obrigado a se auto-acusar). A prova da acusação é ônus do Ministério Público e não do réu.

Berlusconi: o premier virou réu, depois de apanhado pela Operação Mãos Limpas


A descoberta da Tangentópolis começou no gabinete do procurador Antonio Di Pietro, hoje eurodeputado. Lá apareceu o capitão Roberto Zuliani. Contou-lhe uma história de corrupção no mega Pio Albergo Trivulzio, de Milão, misto de hospital, asilo e orfanato.

O Pio Albergo milanês era dirigido por Mario Chiesa, indicado pelo Partido Socialista. Para renovar o contrato de limpeza com a empresa de Luca Magni, o mariuolo Chiesa, como fazia sempre, exigiu 400 milhões de liras (cerca de 1 milhão de euros).

Surpreendido em flagrante delito, Chiesa abandonou o pacote de dinheiro exigido e correu para o banheiro. Tirou dos bolsos e jogou no vaso sanitário um maço de liras. Era dinheiro recebido, pouco antes, de comerciantes fornecedores do Pio Albergo. Não houve tempo para dar a descarga.

No Brasil, a Tangentópolis está sendo tratada com o nome de mensalão. Chiesa acabou na cadeia, ao contrário do que poderá acontecer com Roberto Jefferson. Apesar das delações e revelações, Chiesa não virou herói nacional. Aliás, não consegue se livrar do apelido de pilantra (mariuolo).


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