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Máfias/Dinheiro Sujo

 

MÃOS LIMPAS E TOGAS SUJAS

Por IBGF/WFM

Stefania Ariosto nunca sentiu o Barbarossa singrar as águas mediterrâneas do Golfo della Spezia. O premier Silvio Berlusconi, no entanto, estava sempre a bordo desse luxuoso iate, pertencente ao inseparável Cesare Previti, advogado, senador, seu ex-ministro da Defesa e principal adviser.
Nem a distância Stefania assistiu às festivas ancoragens do Barbarossa nas praias de Santa Margherita e Portofino. Naqueles românticos recantos da Ligúria, na região onde nasceu Colombo e o inglês Lord Byron recolhia inspirações para as poesias nos anos 20 do século XIX. A praia de Stefania era outra. Preferia os campos e salões do requintado golfe-clube, onde os tripulantes do Barbarossa eram sempre o assunto. E lá todos consideravam Previti peça-chave do império de Berlusconi, composto da potente Fininvest, de redes de televisão, construtoras, editoras, etc.
A dinâmica dupla Berlusconi-Previti tratava de negócios até no Barbarossa. Por exemplo, a contratação do futebolista Gianfranco Lentini. À época Berlusconi presidia o Milan e comprou Lentini do Torino. Só que adquiriu o craque com dinheiro de caixa 2 e acabou apanhado pelo pool de magistrados da Operação Mãos Limpas.

Pelo apurado, os balanços do Milan eram falsos. E a mesma técnica de falsificação foi empregada, por três vezes, pela empresa Fininvest de Berlusconi, nas operações chamadas All Iberian 1, 2 e 3. No caso All Iberian 1, camuflou-se a entrega de 21 bilhões de liras ao então primeiro-ministro Bettino Craxi, condenado definitivamente à prisão por crime de corrupção e que faleceu no seu palácio de homizio no litoral da Tunísia.
Para se livrar das acusações criminais por balanços falsos, conseguiu Berlusconi uma outra lei financeira, que reduziu à metade o prazo prescricional e extinguiu os seus processos. Em 1995, a loiríssima Stefania recebeu intimação da Guarda de Finanças para prestar esclarecimentos sobre as atividades do advogado Vittorio Dotti, do qual acabara de se separar. Vittorio era chefe regional da Forza Italia e Stefania a irmã mais nova da morena Carla Ariosto, que manteve longo relacionamento amoroso com Previti.

Em vez de falar de Dotti, Stefania preferiu revelar o ouvido a respeito de corrupção de juízes romanos. E os corruptores e favorecidos seriam Berlusconi e Previti. Os relatos de Stefania foram encaminhados ao pool de Mãos Limpas. Foram iniciados três processos criminais, posteriormente unificados para julgamento conjunto no Tribunal de Milão. O primeiro processo, chamado pelos italianos de Toghe Sporche (togas sujas), diz respeito à corrupção dos juízes Renato Squillante e Filippo Verde. Teriam sido corrompidos para anular a venda da maior empresa alimentícia italiana (SME) para Carlo De Benedetti. A decisão de anulação favoreceu o grupo de Berlusconi.

A respeito, uma carta rogatória cumprida na Suíça, conforme a acusação, revelou o percurso de dinheiro saído do caixa da Fininvest. O dinheiro rumou para as contas de Previti e do financista Attilio Pacifico. Delas, 200 milhões de liras aportaram na conta suíça do juiz Verde e 100 milhões na de Squillante, ambos clientes de Pacifico.
Enquanto tramitava esse processo, uma lei sobre validade de cartas rogatórias entrou em vigor. Pela recente lei, a rogatória da Suíça, no caso SME, não seria válida, por descumprimento de uma nova formalidade introduzida. No segundo processo, os juízes Vittorio Metta, Squillante e Verde teriam sido corrompidos por Previti, Pacifico e o advogado Acampora. O dinheiro da corrupção saiu da conta de Felice Rovelli, herdeiro da empresa petrolífera SIR. Numa ação biliardária, a SIR litigava e conseguiu vencer a IMI, então estatal do petróleo.
A última acusação refere-se à venda do controle acionário da famosa Editora Mondadori. Pela decisão dos juízes dados como corruptos, foram anulados um laudo arbitral e o contrato de venda das ações. Então, Berlusconi pode assumir a presidência da Editora Mondadori. São acusados Previti e os juízes Squillante e Metta e a prescrição acabou reconhecida com relação a Berlusconi.
Os três processos serão em breve julgados. Na derradeira e frustrada manobra defensiva, Berlusconi e Previti tentaram afastar o julgamento do Tribunal de Milão. Alegaram suspeita de parcialidade dos magistrados milaneses. Esses, de efetivas Mãos Limpas.


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